A parceria com Ronaldinho Gaúcho, os sete gols marcados e a aflição dos pênaltis. Jô se lembra de cada detalhe do título da CONMEBOL Libertadores do Atlético-MG, que completa dez anos nesta segunda-feira (24). Em um duelo emocionante contra o Olimpia, o Galo saiu campeão de forma dramática nos pênaltis, em um Mineirão lotado, e ergueu a maior taça de sua centenária história.
Uma conquista que começou a ser construída no ano anterior, quando o presidente Alexandre Kalil trouxe vários jogadores conhecidos ao clube mineiro após o Estadual de 2012.
E a cereja do bolo foi a surpreendente chegada do "bruxo" Ronaldinho.
"Eu fui pego de surpreso, mas fui alertado antes. Só que não botei fé. Na verdade, como a gente já tinha uma amizade bacana, ele me passou uma mensagem falando que a gente ia estar junto em breve. Só que eu entendi que a gente ia se encontrar em algum lugar, não que ele estava indo para o Atlético (risos)", disse o ex-atacante ao ESPN.com.br.
Jô ficou bastante surpreso ao chegar em um belo dia para treinar no CT do clube mineiro e ver uma enorme movimentação, com helicópteros e inúmeros jornalistas.
"Também não tinha entendido nada, porque ainda era começo de Campeonato Brasileiro. Não tinha motivo para isso. Foi nisso que pensei: 'Será que foi isso que ele disse?' Depois, ele se apresentou para a gente e todo mundo ficou feliz. Deu um entusiasmo muito grande e iria elevar o patamar do time", contou.
"Ronaldo é muito engraçado e misterioso. Tem horas que faz umas coisas que você fica sem entender. Ele não deu pistas porque era muito discreto".
Em 2012, o Atlético-MG fez uma ótima campanha e ficou com o vice-campeonato do Brasileirão, garantindo uma vaga direta na fase de grupos da Libertadores. E a dupla com Ronaldinho passou a funcionar dentro e fora de campo para Jô. A cada gol anotado, uma celebração dos amigos batendo o peito, que foi imortalizada.
"A gente pegou isso porque víamos muito a NBA. Um dia, o Ronaldo falou: 'Vamos fazer essa comemoração? Quem sabe não fica marcada para história?' De fato ficou! Tem uma foto enorme no clube e alguns torcedores na rua pedem para fazer comigo no meio da rua ou do shopping (risos)", lembrou.
Água do Rogério Ceni
Logo na estreia da Libertadores, contra o São Paulo, na Arena Independência, aconteceu um dos lances mais emblemáticos da campanha do título atleticano.
Aos 13 minutos do primeiro tempo, o jogo estava parado, quando Ronaldinho pediu um gole d’água ao goleiro Rogério Ceni. Assim que terminou de beber, o juiz autorizou o recomeço da partida. O craque, livre de marcação, aproveitou que não poderia ficar em posição de impedimento, por ser uma cobrança de lateral, e cruzou para Jô anotar o gol.
"Tenho certeza que ele fez isso de propósito! (risos). Dele se espera tudo. Sabia do lateral forte do Marcos Rocha e já pensou que receberia a bola livre. Estava parado na meia-lua quando vi o Ronaldo sozinho, só deu tempo de correr e finalizar".
Em um grupo com São Paulo, Arsenal-ARG e The Strongest-BOL, o Atlético-MG terminou na liderança com 15 pontos - foi a melhor campanha geral.
"Não entramos como favoritos, mas mostramos como a nossa equipe tinha condições de brigar pelo título", disse.
Nas oitavas, o adversário foi novamente o Tricolor Paulista. "A gente perdeu o último jogo, que não valia nada, para eles, que cresceram na competição. A gente ouviu algumas coisas deles que nos motivaram, como que se deixasse o São Paulo chegar, ia nos atropelar. Os jogadores batendo nas paredes, mas foi ao contrário (risos)", disse.
O Galo venceu as duas partidas: 2 a 1 no Morumbi e 4 a 1 em Belo Horizonte - com um hat-trick de Jô.
"A gente jogou muito bem. Foi uma das melhores atuações que vi dele em campo na carreira. Nos deu muita confiança!".
Pé de São Victor
Nas quartas de final, um empate contra o Tijuana no México por 2 a 2 no primeiro duelo deu uma boa vantagem ao time brasileiro. No entanto, a classificação na volta foi dramática. O jogo estava empatado até os 43 minutos do segundo tempo, quando foi marcado um pênalti para o time mexicano.
"Estávamos muito confiantes em casa porque estávamos há muito tempo sem perder. Mas fizemos um jogo muito ruim. Todo mundo pensou que ali iria se acabar".
Jô, que havia sido substituído, ficou desesperado no banco de reservas com Diego Tardelli.
"Nisso, o Ronaldo veio tomar água e falou: 'Se eles fizerem o gol, a gente está fora?' Ele não sabia muito bem o que estava acontecendo, mas isso é a cabeça do gênio, não conseguimos entender. Respondi: 'Você está falando sério? Claro que estamos'. Ele disse com muita frieza e convicção: 'Victor vai pegar'. Lembro que falei: 'Tardelli, esse cara é um ET!' (risos). Foi muito engraçado", contou o ex-atacante.
A profecia do craque deu certo. Duvier Riascos cobrou a penalidade, mas o goleiro atleticano defendeu com a perna esquerda. O time se classificou, e Victor foi o jogador mais celebrado no vestiário.
"A gente treinava muito pênalti. Ele foi um dos maiores pegadores de pênalti que já vi porque esperava ao máximo o cobrador para sair. Tem torcedor na rua que até hoje beija o pé milagroso dele (risos)".
Pacto pelo título
O adversário da semifinal foi o Newell's Old Boys, do técnico Gerardo "Tata" Martino, que foi depois para o Barcelona e hoje comanda o Inter Miami. No primeiro jogo fora de casa, o Atlético perdeu por 2 a 0 e se complicou para o duelo de volta.
"Levamos um baile e era para perdermos de mais. No vestiário, a gente ficou um tempão para sair porque teve a maior confusão e falamos: 'Depois de tudo que passamos nós vamos ser campeões'".
Na volta, o Galo viu o estádio Independência sofrer um "apagão" no meio da partida, que ficou um bom tempo interrompida, mas conseguiu devolver o placar e levou a decisão para os pênaltis.
"Teve gente que achou que a energia foi desligada de propósito, mas não teve nada a ver. Essa pausa poderia atrapalhar a gente também porque esfriaria o nosso time. Mas logo na volta da luz, o Guilherme fez o nosso segundo gol".
Jô perdeu a segunda penalidade, mas o Atlético-MG saiu vencedor por 3 a 2 na disputa.
"Estava muito confiante depois do jogo que fizemos. Na hora, quis bater de um jeito diferente do que treinava e acabei perdendo. Mas fiquei tranquilo porque sabia que o Victor pegaria pelo menos dois e tínhamos bons batedores".
Telefones clonados
Com a inédita classificação para a final da Libertadores contra o Olimpia, o atacante viu Belo Horizonte viver semanas de enorme ansiedade.
"Havia muita tensão porque a cidade parou. Torcedor chorava na hora e pedia pelo amor de Deus para vencermos. Imagina o tamanho da responsabilidade que a gente carregava? Mas a nossa confiança era grande".
Mesmo assim, o Galo perdeu no Defensores del Chaco lotado por 2 a 0, em Assunção, Paraguai.
"A chegada foi uma confusão e demoramos muito para entrar no estádio. A gente estava muito feliz de estar naquela final. Foi um jogo muito difícil e a gente não jogou mal, mas o (goleiro) Martín Silva fez duas defesas fantásticas em chutes meus. Mesmo assim, voltamos muito confiantes para casa por tudo que tínhamos passado antes", disse.
O Atlético-MG voltou para Belo Horizonte, jogou pelo Brasileirão, e o elenco se concentrou logo após a partida, no domingo. O segundo duelo da final só foi disputado na quarta-feira.
"A ansiedade ficou grande por precisar reverter o resultado. Na segunda-feira, vazaram os celulares de vários jogadores e deu a maior dor de cabeça. Não sei se foi algum cruzeirense, mas por umas duas horas recebemos ligações e mensagens, fomos xingados e eles falaram que íamos perder. Conseguimos denunciar e isso parou (risos)".
Isso serviu como um combustível para o elenco ficar ainda mais motivado. Para aliviar a tensão, Jô, Ronaldinho e outros atletas ficaram jogando pôquer até a madrugada anterior da final.
"Demorei um pouco para dormir porque fiquei conversando com o Ronaldo no quarto, mas foi tranquilo. Acordei com o jogo na cabeça e tirei um cochilo de tarde. Chegando ao estádio comecei a ficar com frio na barriga", disse.
Título mais importante da carreira
Nervosos com a tensão da final, os jogadores do Atlético-MG não fizeram um bom primeiro tempo e foram para o intervalo com o empate por 0 a 0. O time mineiro foi a campo com: Victor; Michel Macedo, Leonardo Silva, Réver e Júnior César; Pierre, Josué e Ronaldinho; Jô, Diego Tardelli e Bernard.
"No vestiário, o Ronaldo pediu calma porque o gol iria sair e jogaríamos mais relaxados. A gente estava muito tenso", disse.
Logo aos dois minutos do segundo tempo, Jô abriu o placar com a perna direita, que não era a sua melhor, e caiu no chão.
"Fiz o gol e o estádio explodiu! Deu a confiança que precisávamos. A sensação é inexplicável, até hoje não sei achar palavras. É muito bom! Já fiz gols em finais, mas naquela noite passou um filme na cabeça", contou.
O Galo pressionou o adversário até o final da partida, mas não conseguiu mais balançar as redes até os 40 minutos. O zagueiro Leonardo Silva garantiu a igualdade no placar agregado após uma jogada de escanteio.
"O nervosismo era grande e erramos muitos lances. As coisas não estavam dando certo. Comecei a pensar em muita coisa e estávamos com vários atacantes em campo. O mais curioso é que o Léo deveria ter saído da área no lance, mas ele foi teimoso e ficou. Ainda bem! Esse gol deve ter matado alguns torcedores."
A partida foi para a prorrogação, mas os donos da casa não conseguiram fazer o gol do título. E a disputa foi decidida outra vez nas cobranças de pênalti.
"A gente via os torcedores chorando de fato, aquele grito de 'eu acredito', começou a inflamar o estádio. Foi lindo. A gente estava muito confiante. Quando o Cuca perguntou quem queria bater, eu fui o primeiro a pedir. Meus familiares e meu pai contam até hoje que eles não viram os pênaltis de tão nervosos que ficaram."
"Eu tinha perdido na semifinal, mas estava muito feliz. Dessa vez eu executei o que tinha treinado e fiz o gol. Tinha certeza que o Victor ia pegar pelo menos um".
O goleiro pegou - com o pé - a primeira cobrança do Olimpia. Alecsandro, Guilherme, Jô e Leonardo Silva marcaram para o Atlético. Ronaldinho fecharia a quinta cobrança....
"Ronaldo falou para o Pierre na hora que o time estava abraçado no meio de campo que ia bater de 'cavadinha' . Era bem capaz mesmo porque dos gênios dá para esperar qualquer coisa. Qual goleiro iria imaginar isso? Só lembro do Zidane na final da Copa do Mundo de 2006".
A trave não deixou que isso acontecesse, pois Giménez errou a quinta cobrança. O Galo venceu por 4 a 3 e confirmou a inédita conquista da Libertadores.
"Acho que foi o título mais importante da minha carreira. Pela importância, pela trajetória que tivemos e por ter sido o artilheiro da Libertadores. Sou eternamente grato ao Atlético-MG porque depois pude ir para a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Eu vivi um dos melhores momentos da minha vida e da minha carreira", finalizou.
Próximos jogos do Atlético-MG
Flamengo (C): 29/7, 21h - Brasileirão
Palmeiras (C): 2/8, 21h30 - CONMEBOL Libertadores, com transmissão pela ESPN no Star+
São Paulo (F): 06/08, 16h - Brasileirão
