Um domingo com Régis Pitbull, limpo das drogas, após 11 meses de luta e internação

Limpo das drogas há 11 meses, Régis Pitbull, 45, aguarda uma chance de trabalhar e recomeçar uma vida perdida em mais de dez anos de dependência química


Reencontrar um entrevistado, depois de literalmente se envolver com sua história, é algo estranho e, ao mesmo tempo, motivante.

Como dizem, a esperança é a última que morre. A frase serve perfeitamente para o momento atual de Régis Fernandes da Silva, o Pitbull, no auge do seu recomeço de vida, aos 45 anos.

Sim, Régis pode se considerar um sobrevivente, pois abusou do seu próprio corpo e do organismo ao se entregar ao crack por 13 anos.

Período que o fez não apenas perder todo o dinheiro que ganhou jogando em grandes times do Brasil e no exterior, mas que o deixou sem família, amigos e dignidade.

Torrou todo o dinheiro que ganhou com “amigos” que se diziam parceiros, foi abduzido pela doença chamada dependência química.

Virando a chave

Nos últimos dez anos, a maioria das notícias sobre a vida de Régis Pitbull não tratavam do atleta, mas sim do ex-jogador que perdeu tudo para as drogas.

A reportagem especial “Salvem o craque, salvem do crack”, exibida em 8 de maio de 2021 pelos canais ESPN, mobilizou um grupo de pessoas com a missão de recuperar o ex-jogador de Corinthians, Ponte Preta, Vasco, entre tantos outros.

Foi uma turma encabeçada pela psicóloga Graziela Maria, profissional que ajudou no tratamento de Walter Casagrande Jr., ex-centroavante do Corinthians, ao lado de um grupo de jornalistas que, fomos além deste repórter, agindo numa causa humanitária.

Assim, em março de 2021, a família de Régis assinou o pedido de internação involuntária em Jaboticabal, no interior de São Paulo.

Régis foi praticamente amarrado até a clínica Light Hoyse que trata de casos extremos de dependência química. Por lá, os proprietários da clínica, Daniel e Bia, mantiveram o ex-atacante internado de forma gratuita por seis meses. Os outros três meses tiveram a ajuda de custo bancados pelo grupo de amigos e de jornalistas.

Foi praticamente um período de gestação, ou seja, nove meses para que Régis renascesse das nebulosas cinzas de uma droga que devasta vidas e milhares de familiares em todo o Brasil.

A psicóloga Lidiane Andrade, funcionária da clínica, se incumbiu da árdua missão.

Lutou para que Régis saísse de lá, no período mínimo de internação, limpo e com outra mentalidade sobre a doença que por pouco não lhe tirou a vida.

Por enquanto, o trabalho da Lidiane pode ser comemorado, mas, como os especialistas dizem, a estrada é longa e a vigília é eterna.

Reencontrando Régis

Faz dois meses que Régis teve alta da clínica. Faz dois meses que o ex-jogador está de volta à Pirituba, bairro da Zona Norte de São Paulo, onde viveu a pobreza, o auge e o drama, agora lutando contra a dependência química.

Nosso reencontro aconteceu no campo do Liderança, clube tradicional do futebol de várzea paulistano, que completou 57 anos no último domingo.

Era um dia de festa e de reencontro com o ex-jogador, que ficou furioso com a nossa campanha na tentativa de salvá-lo.

As 9 da manhã ele chegou com sua bicicleta, comprada por este jornalista, que se sensibilizou com sua história.

Já era um bom sinal, pois em tempos tenebrosos, não tão distantes, Régis já teria se desfeito dela em troca de “pedras" de crack.

Chateado comigo, expliquei os motivos pelos quais reunimos tanta gente na tentativa de tirá-lo do caminho, daquele precipício da morte inevitável pelo crack.

Confesso que fui ao estádio só para conferir de perto como ele está vencendo essa terrível batalha contra a dependência química.

Mas, sinceramente, não dá. Tinha de registrar tamanha alegria e esperança.

De pé juntos, Régis prometeu que até agora não teve nenhuma recaída, que há 11 meses não coloca uma pedra de crack na boca, e foi além. Bem mais pesado que nos tempos de usuário, ele entrou no segundo tempo do amistoso que o Liderança fez contra um rival local, não fez gol. Também não brigou com os próprios companheiros em campo, coisa que costumava a fazer com frequência.

Mas a melhor notícia veio no churrasco e no samba que ocorriam nas dependências do Liderança. Régis não pôs uma gota de álcool na boca. Vi pessoas oferecendo cerveja para ele, e vi, comemorando como se fosse um gol, cada negativa dele explicando que está tomando remédio e que está imbuído em se livrar da dependência química.

Que golaço, Pitbull!

Num outro momento, numa conversa informal com o vereador Fábio Rivas (PSDB-SP) ouvi a promessa dele que fará o possível e o impossível para arrumar um trabalho para Régis nos centros esportivos de Pirituba.

Foi um domingo de grandes lições e esperança, já que a outra notícia boa é que Régis voltou a morar com a mãe, Dona Ana.

Ele também iniciou um tratamento dentário, uma vez que estava com os dentes todos comprometidos por anos e anos e dependência química. Em breve, o tratamento permitirá o implante de novos dentes.

Régis disse também que vai continuar o tratamento em São Paulo, na clínica de Graziela Maria, a mesma que transformou, para melhor, a vida do ídolo Walter Casagrande Jr, comentarista do Grupo Globo.

Se tudo continuar assim, com acolhimento e não abandono, logo certamente ouviremos falar de um outro Régis Pitbull, um homem que passou por poucas e boas na vida, que ressurgiu das cinzas para reescrever uma história. Quase um milagre.