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A incrível história de Régis Pitbull, da fama em Corinthians e Vasco à luta para se livrar do crack

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Este deveria ser o relato de uma reportagem, mas ela acabou virando um programa especial de quase uma hora de duração. Muito porque o assunto não é nada comum no noticiário do dia a dia, muito menos dentro da mídia esportiva.

A dependência química na vida de um jogador de futebol, ou na vida de qualquer ser humano, é sempre um drama que atinge diretamente o indivíduo e, por consequência, seus familiares.

Régis Fernandes da Silva, mais conhecido como Régis Pitbull, é um personagem do mundo da bola que há tempos estava sobre o meu radar, nos meus pensamentos e nas minhas pautas.

Mas, ao contrário do que estamos acostumados a ver nesse tipo de reportagem, a intenção não era apenas entrevistá-lo, o que já seria muito difícil, ainda mais para uma reportagem para a televisão. Eu queria entender como estava a situação do jogador, olhar o lado humano de um cara que ganhou muito dinheiro, ficou famoso e gastou tudo, absolutamente tudo, com o maldito crack.

O caso é delicado, pois mexe na intimidade de um cara público, conhecido por muita gente do universo do futebol.

Nessas horas carrego comigo a lição de um treinador amazonense, Aderbal Lana. Certa vez ele me recebeu em Manaus para falar sobre os desmandos do dinheiro público que seriam aplicados de forma irresponsável e corrupta na cidade, uma das sedes da Copa do Mundo de 2014.

Na oportunidade, ele foi mais certeiro que um cruzado de um peso pesado do boxe.

“Beleza, Marcelo. Você quer que eu fale tudo, né? Daí você sai daqui, vai embora pra São Paulo com um baita depoimento, cheio de denúncias e fico eu aqui, no Norte do país, sendo perseguido por capangas. Se você acha isso justo, vamos lá, pode começar a gravar”.

O diálogo aconteceu em 2011 e nunca mais saiu da minha cabeça. Afinal, no jornalismo lidamos, além da informação, com vidas, e elas precisam ser sempre protegidas.

Em 2019, li uma reportagem sobre o caso Régis Pitbull que muito me lembrou a lição de Aderbal.

A matéria, muito bem escrita, revelava o lado mais doentio e obscuro do ex-jogador do Corinthians e de outros tantos clubes no terrível mundo da dependência química. Naquela entrevista, ele contava detalhadamente o vício em crack.

Belíssima matéria. Mas ninguém, absolutamente ninguém, entrou nesse caso para tentar ajudar um cara que, no fim das contas, está mais doente do que imagina qualquer jornalista, por mais experiente que seja.

Levei a ideia à chefia de reportagem e, claro, num assunto tabu como este, ninguém rejeitou. Então, fui à luta, sem ter o mínimo de ideia do que encontraria pela frente, nem como Régis Pitbull reagiria à tentativa de entrevista...

Primeiro contato não é o que fica

Convencer um ex-jogador, famoso, a dar uma entrevista não é tarefa das mais fáceis, ainda mais se tiver dependência química na história.

Régis Pitbull vive esse drama, o do vício em crack, há pelo menos 15 anos. Com a maconha e o álcool, a história é mais longa, desde a adolescência, quando tentava a vida dentro do futebol, passando por vários clubes do Brasil.

Aliás, no Bahia e no Vitória ele foi dispensado depois que membros de ambos os clubes o flagraram fumando maconha.

A informação que tinha era de que ele circulava pelas nas ruas do bairro de Pirituba, na Zona Norte de São Paulo.

Para encontrá-lo, contei com a ajuda de dois símbolos do futebol de várzea da capital: o jornalista Marcelo Mendez, da TVila Sports, e o empreendedor da várzea, Sérgio Pioneer.

Achei que nem telefone Régis tinha. Ledo engano, pois ele me atendeu logo na primeira chamada. Assustado, falamos por uns 30 minutos. Ele me disse que, por causa da pandemia, estava sem trabalho no Liderança, clube de várzea, onde alguns amigos ainda tentavam ajudá-lo.

Entusiasmado com a “conquista”, marquei um encontro no dia seguinte. Disse que iria com equipe de gravação, e ele respondeu que poderia vir, que ligasse assim que chegássemos próximo ao Shopping de Pirituba, perto de onde ele mora.

No jornalismo esportivo estamos acostumados a levar o chamado “caô”. Isso acontece muito. Por exemplo, o ex-atacante Viola, pelo menos comigo, é o campeão das promessas de entrevistas não cumpridas.

Chegamos em Pirituba ao meio-dia. Paramos numa padaria enquanto ligava incessantemente para o celular de Régis. No começo tocava sem atender. Depois, ele simplesmente desligou o aparelho, para meu desespero.

Diante desse imbróglio, resolvi sair com o cinegrafista Sidney da Matta à caça de Régis pelo bairro. Saímos perguntando em bares, pontos de táxi, enfim, saímos como loucos. Logo me passaram o telefone de Wagner, um policial militar recém-aposentado que já vinha sonhando com a recuperação do amigo há anos. Foi ele quem nos ajudou na nossa missão.

Wagner pediu para que eu procurasse o bar do Luizinho, onde Régis sempre passava lá para comer ou pedir uns trocados.

Daí em diante, mesmo sem ter noção, começava a se formar uma rede de pessoas imbuídas em ajudar a salvar a vida de Régis.

Depois de três horas e meia na rua atrás de Régis, finalmente chegamos ao boteco do Luizinho.

Lá, os dois disseram que o nosso entrevistado tinha acabado de passar. Luizinho sugeriu que fôssemos a pé dois quarteirões acima, pois lá ele poderia estar na rua tomando conta de carros, tudo para receber alguns trocados.

Dito e feito. Chegamos ao local, mas nossa abordagem, em vez de ajudar, foi completamente equivocada.

Régis ficou furioso com a gente assim que viu o cinegrafista chegando perto.

Eu imaginava estar fazendo uma surpresa, mas, na cabeça de uma pessoa que está doente por causa do constante uso de drogas, foi ofensivo. Régis Pitbull não reagiu nada bem com aquele primeiro contato.

Com o filme completamente queimado com o entrevistado, só me restou voltar ao bar do Luizinho e tentar fazer uma entrevista com o amigo de bairro, que pouco quis falar da verdadeira situação do ex-jogador mais famoso da quebrada.

Luizinho não contou detalhes, mas José Ildo Gomes, 62, sim.

No bar, o comerciante tentou fazer com que Régis nos recebesse para a tal entrevista. O máximo que ele conseguiu foi armar com o ex-atacante para que ele jogasse uma partida em Embu das Artes, região metropolitana, num sábado cedo, duas semanas depois.

Um craque em ação

O jogo pelo Liderança de Pirituba era a chance da nossa equipe registrar Régis Pitbull em ação.

A primeira torcida era para que ele acordasse às 6h, horário que o amigo José Ildo combinou buscá-lo. O sucesso de uma boa conversa com um dependente químico depende de vários fatores.

Se ele está bem, se não sumiu e passou dias fumando crack, se comeu, se descansou, enfim, gravar com um sujeito numa situação dessa é praticamente jogar para ganhar na loteria.

O jogo estava marcado para as 8h30 de um sábado.

Ficamos posicionados com a câmera para registrar o jogo bem à distância e não chamar a atenção. De repente, chegou um carro preto. Era o carro de José Ildo, dirigido por Régis.

E assim que ele desce do carro, vários jogadores do time adversário se aproximam para tirar uma foto com um cara famoso pelos tempos de Corinthians, Ponte Preta, Portuguesa, entre outros clubes, que já pisaram naquele campo, ainda de terrão.

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10:09

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E Régis jogou muito.

Os times adversários contavam com jogadores entre 45 e 60 anos, mas vale lembrar que Régis está extremamente magro por conta do uso do crack. Ele também não é o mesmo desde que se aposentou profissionalmente, em 2012.

Com suas pernas finas e habilidade inquestionável, Pitbull deu um show com direito a dois gols, um de falta e uma lambreta em cima de um zagueiro que encheu de alegria os olhos dos que estavam ali.

No segundo tempo, quando Régis atacava em nossa direção, o que mais nos chamou a atenção foi seu temperamento explosivo, brigando com os próprios companheiros de time, pegando pesado com aqueles que não davam um passe certeiro.

Brigou em campo, tomou cartão. Foi para o vestiário e quase saiu no braço com os companheiros. Teve que ser advertido e contido por José Ildo e Wagner. Aliás, foram os dois amigos que mais uma vez salvaram nossa reportagem com entrevistas humanas, reais e reveladoras.

Ficamos ali esperando que ambos conseguissem fazer com que Régis nos desse um depoimento e, mais uma vez, o ex-jogador não quis saber. No máximo sentou com a gente no churrasco, tomou uma cerveja e disse que um dia iria nos receber em casa, no seu condomínio, na piscina.

Tudo isso aconteceu no final de novembro de 2020.

Mas Régis queria mais...

Vida ‘louca’ em risco

Régis tinha apartamento no Guarujá, no litoral de São Paulo, e estava construindo uma grande casa para morar com a família quando começou a perder o jogo para a dependência química.

O que sobrou foi um apartamento que ele comprou e deu de presente para a mãe Ana Maria, assim que voltou do Japão, em 2000.

Era o sonho da casa própria para a mãe, que acabou em pesadelo assim que ele caiu no mundo do crack.

O apartamento de 100 metros quadrados é bem localizado, mas, segundo a família, Régis deixou de pagar condomínio há mais de dez anos. A dívida hoje, só de prestações atrasadas, ultrapassa R$ 160 mil.

No apartamento, luz e água foram cortados há anos.

As condições pelas quais ele vive por lá lembram a "Cracolândia".

Segundo alguns moradores, Régis toma banho apenas no chuveiro da piscina do condomínio.

No apartamento, ele também perdeu a companhia da mãe e da irmã Tiffany, praticamente despejadas por ele durante as intermináveis crises oriundas do constante uso de crack.

No bairro, Régis vive da caridade de amigos. Alguns ajudam com alimentação; outros, com uns trocados. Dinheiro que todos sabem onde irá parar.

Andando pelo bairro, todos os moradores que conhecemos declaram tristeza, mas também admiração por um cara que não faz mal a ninguém, a não ser a ele mesmo.

Força-tarefa

Confesso que as investidas mal sucedidas para falar com Régis acabaram desanimando a reportagem, tanto que o material ficou guardado por dois meses. Até o dia que resolvi retomar para ajudar não só o Pitbull, como também as pessoas que passam por problemas parecidos.

Foi aí que um verdadeiro anjo da guarda apareceu para iluminar a nossa reportagem.

Graziela Maria é psicóloga e foi uma das responsáveis por trazer de volta a vida outro ídolo do esporte brasileiro, Walter Casagrande Júnior.

Com ela comecei a entender como funciona esse mundo que mais parece uma armadilha em forma de areia movediça chamada crack.

Fomos à clínica dela no bairro de Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo, onde atende ela cerca de 15 dependentes químicos. Ali, todos foram internados de forma voluntária pelas suas famílias.

Tivemos uma aula sobre o assunto que nos despertou o desejo de, além de contar a história de Régis, tentar, de alguma forma, apresentar uma solução para resolver o drama dele e de sua família.

Assim que terminou a gravação, Grazi me chamou e se ofereceu para tratar o ex-jogador de forma gratuita.

Era o que faltava pra gente entrar definitivamente em ação . Depois de Grazi, vieram os amigos já citados do bairro, como vieram também ex-jogadores, ídolos do esporte, como o próprio Casagrande e Ivair, o Príncipe, parentes de Régis e outros jornalistas solidários, que também muito nos ajudaram no caso do ex-goleiro Manga, que conseguimos resgatar do Equador e hoje mora, ao lado de sua esposa Cecília, no Retiro dos Artistas, muito por conta do apoio do ator Stepan Nercessian.

Nessa altura do campeonato, eu já nem contava mais com a entrevista com o nosso personagem central, mas queria de qualquer jeito dar um final feliz, uma esperança a ele e, principalmente, a sua família.

Enfim, a entrevista

Se alguém perguntar quantas vezes liguei para o Régis, tenho certeza que passou de 200 tentativas.

A maioria, claro, mal sucedida. Afinal, como citei lá no início, é preciso ter sorte para que ele atenda e esteja bem.

E quando estava praticamente desistindo de falar com ele, numa das últimas tentativas, ele me atendeu, me dando novamente esperanças de falar.

Queria que ele entendesse que não se tratava apenas de uma reportagem, mas sim de uma força-tarefa que começara a surgir em prol de sua recuperação.

Ficamos uma hora falando. Na verdade, quem mais falou fui eu. Ele ouvia e respondia: “Cara, eu realmente estou precisando de ajuda, pois perdi quase todos os dentes da minha boca” - Régis tem apenas 44 anos de idade.

Comovido com a história e o pedido de socorro, combinei com ele de gravá-lo jogando na várzea mais uma vez, e ele concordou.

Só não disse pelo time que jogaria no próximo domingo.

Pela oitava vez, pedi uma equipe de externa para a emissora que tenho que enaltecer por acreditar no trabalho que desenvolvo há mais de 22 anos.

Chegamos no campo do Liderança e nada de Régis.

Mais uma que aprendi nessa saga: o dependente químico mente o tempo todo, por conta dos efeitos nocivos da droga.

Logo chegou o amigo José Ildo, assustado, perguntando o que estávamos fazendo lá.

Disse que iria, pela última vez, tentar um depoimento de Régis. Queria que ele ouvisse um recado que o Casagrande gravou, incentivando o ex-jogador a aceitar ajuda.

Ildo, como é conhecido na "quebrada", logo nos levou até outro campo, o do Comercial de Pirituba, onde Régis ainda ganhava uns trocados para jogar.

Claro que, mais uma vez, ele esperneou, disse que não queria falar, mas a última cartada estava dada.

Pedi para que o repórter cinematográfico, Robson Celano, acompanhasse ele de perto, para que Régia visse que estava sendo gravado.

Ali no bar, num banco improvisado, acompanhei a partida torcendo para um final feliz.

E ele aconteceu.

No final da partida, Régis se dirigiu a mim e disse: “O que você quer que eu faça?”

Pedi apenas que assistisse ao vídeo que o Casagrande fez pra gente mostrar pra ele.

Sabe aquele golaço do jornalismo?

Ele ainda estava por vir.

A entrevista, curta, conforme o prometido, não foi reveladora, mas mostrou a fragilidade de um ser humano ainda ávido por uma mudança radical de vida.

No final, perguntei o que ele mais queria e ele disse que gostaria de arrumar os dentes e ganhar uma bicicleta.

O que é uma bicicleta para quem ganhou milhões de reais, andou de Mercedes, BMW, enfim, o que é uma bicicleta para um cara que já teve o mundo nas mãos?

Família Silva em campo

No modesto campo do Comercial de Pirituba conhecemos parte da família de Régis. O domingo era especial, pois era aniversário de 69 anos do pai Lupércio. Com ele estava a filha caçula, Tiffany Marcella da Silva, 33.

Num certo momento, enquanto estive sozinho com ela, pude entender o drama pelo qual toda a família tem vivido há mais de uma década.

Segundo Tiffany, ela e a mãe sonham em internar o irmão há tempos. Acreditam ainda que ele pode se recuperar, mesmo depois de duas internações sem sucesso.

A irmã de Régis nos contou que ela e a mãe, Dona Ana, sonham vê-lo saudável, curado e retomando a vida ao lado dos filhos Rickson, 20, e Jonathan, 15.

Tiffany disse que há muito tempo vem falando a respeito de uma internação para o irmão, que sempre responde que está tudo sob controle.

O próprio Casagrande, durante a entrevista que nós deu, afirmou que é muito difícil para um dependente químico assumir que precisa de ajuda, como aconteceu com ele, depois de um acidente que poderia ter lhe tirado a vida. Na oportunidade, o filho mais velho tomou a frente da situação e o internou de forma involuntária.

Tiffany declarou que não tinha apoio financeiro, muito menos do pai, para resolver essa situação.

Foi aí que apresentamos a psicóloga Grazi Maria para Tiffany.

Foi aí que o caso começou a tomar outro rumo.

A psicóloga levantou todos os documentos necessários para a remoção de Régis, inclusive uma clínica no interior de São Paulo que o receberia, sem custos, nos primeiros seis meses de tratamento.

Daí pra frente, um grupo de WhatsApp foi criado. O “Salve Régis” nasceu para unir forças de amigos, admiradores e jornalistas, a fim de estender a mão para a família de Régis que tanto sonhava ser recuperado.

Mais uma vez, jornalistas famosos como Milton Neves, André Plihal, Cledi Oliveira, entre tantos outros companheiros de redação dos canais ESPN, entraram para ajudar não só com dinheiro, mas com estratégias para que essa história terminasse feliz.

Como ela terminou?

Desculpe, não gostaria de deixar você curioso, mas tenho a obrigação de pedir que assista ao documentário “Salvem o craque, Salvem do Crack”, já disponível no ESPN App.

A surpreendente história de Régis Pitbull também será exibida na televisão: no sábado, dia 8 de maio, às 20h (de Brasília), na ESPN Brasil.

Certamente um golaço do jornalismo, que pode, sim, udar a vida de seus personagens. Sempre para melhor, claro.