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Como está Régis Pitbull? O dia a dia do ex-jogador de Corinthians e Vasco numa clínica de recuperação para dependentes químicos

Internado num clínica involuntariamente por familiares, Régis Pitbull, 44, iniciou há dois meses a luta mais importante da própria vida. Está em tratamento para se recuperar do vício em crack em Jaboticabal, interior de São Paulo.

O ex-jogador de Ponte Preta, Corinthians, Vasco, entre outros, foi internado em 9 de abril deste ano, pouco depois de uma reportagem dos canais esportivos da Disney retratar como o ex-camisa 9 mergulhou no mundo do vício há quase 13 anos.

O especial “Salvem o Craque, Salvem do Crack”, exibido em 8 de maio, foi um exemplo prático de como o jornalismo pode (e deve) atuar socialmente e intervir, positivamente, na vida de um cidadão.

Na época em que encontramos Régis, após mais de um ano de tentativas frustradas, vimos um homem que andava afastado dos holofotes, que se negava a dar entrevistas e já não carregava qualquer esperança de recuperação.

Entre idas e vindas para Pirituba, bairro da Zona Norte de São Paulo onde ele reside, nos deparamos com histórias humanas e também a tragédia que é a dependência química para o cidadão e sua família.

O esforço de reportagem acabou por unir amigos, familiares e personalidades do esporte e da crônica esportiva num esforço coletivo para mudar essa triste história. O primeiro anjo da guarda foi Grazi Maria, a mesma psicóloga que ajudou Walter Casagrande Júnior.

Foi ela quem entrou em contato com a psicóloga Lidiane Andrade, uma amiga de faculdade, para abrir as portas na clínica Light House, em Jaboticabal, onde Régis poderia ser tratado. Os donos do local, Bia Campana e Daniel Moura, aceitaram receber o ex-atacante sem custo algum nos primeiros seis meses de internação. O que já representou uma verdadeira luz de esperança.

Ao mesmo tempo, uma vaquinha virtual arrecadou verba para bancar itens básicos de higiene pessoal e uma ambulância, que levou Régis de São Paulo até a clínica, a mais de 300 km da capital paulista. A internação, como citado no início deste texto, foi involuntária.

Grazi Maria ainda conseguiu a ambulância a preço de custo para levá-lo com enfermeiros e auxiliares, com todos os padrões e cuidados, até o local onde se encontra hoje. Foi o desfecho do especial "“Salvem o Craque, Salvem do Crack” e início de "A chance da vida", que contará o dia a dia do ex-jogador desde o primeiro dia internação até o primeiro contato com a mãe, a sobrinha e os amigos.

O especial será exibido nos canais esportivos da Disney no próximo sábado, 12 de junho, às 16h30 (de Brasília).

A primeira visita

Régis foi um verdadeiro pitbull nos primeiros dias de internação. Ficou recluso, revoltado e tentou fugir, como já se imaginava.

A internação involuntária é diferente do que as pessoas pensam. Ela ocorre por decisão dos familiares. Dentro deste processo, o paciente não tem autonomia para deixar a clínica quando quiser. A saída só ocorre ao final do tratamento ou por desejo da família.

Para a sorte de Régis, dos amigos e familiares, mesmo quando ele conseguiu pular os muros da clínica e fugir, ele acabou resgatado pelos voluntários da clínica. O retorno foi pacífico, e o tratamento não parou.

Há algumas semanas, Lidiane Andrade, responsável direta por Régis Pitbull, nos procurou dizendo que ele queria muito se encontrar com a mãe e com os amigos. Estava com saudades, queria revê-los e conversar.

Foi aí que resolvemos pegar estrada e viver essa experiência de estar em um lugar onde poucos querem entrar e muitos querem sair.

Viajamos até Jaboticabal a fim de entrevistar a família e os profissionais que estão cuidando dele. E, claro, se ele quisesse falar, estaríamos com o microfone e a câmera ligados para ouví-lo.

Levamos de São Paulo a mãe do ex-jogador, dona Anna Barreto, a sobrinha Giovana Silva e o ex-empresário de Régis, José de Anchieta Marialva. A visita surpresa foi um dos pontos altos desse reencontro.

A clínica onde Régis está foca em um trabalho humano para a recuperação de dependentes químicos, ou seja, tenta conscientizá-los. Não há agressões físicas ou verbais. Nem mesmo castigos. O tratamento é bem longo, pelo que soubemos.

Há mais de cem pacientes por lá, e acaba-se encontrando de tudo. Dependentes químicos, alcoólatras, ricos, pobres, enfim. Por exemplo, lá estão dois garotos, um de 22 anos e outro de 24, que adquiriram esquizofrenia por causa do uso de drogas.

São dois jovens que jamais voltarão a ter uma vida normal na sociedade.

Nos primeiros minutos com Régis, numa sala reservada dentro da clínica, o que prevaleceu foi a emoção. Muito choro e muitas lágrimas de todos que ali estavam, inclusive deste repórter.

A emoção e a humildade de dona Anna chamaram muito a atenção. Afinal, faz mais uma década e meia que essa senhora, hoje aos 77 anos de idade, tenta tirar o filho do maldito vício do crack, como ela mesma costuma falar.

“Eu ia atrás dele nas biqueiras. Corria atrás dele com o cabo da vassoura para que ele parasse com isso. Desafiei traficantes, drogados, fiz de tudo, mas não consegui tirar o meu filho desta maldita droga”, disse dona Anna.

José de Anchieta é o empresário que ganhou dinheiro com Régis, mas que nunca o abandonou, mesmo no período no qual o ex-jogador não tinha nem sequer um real no bolso para gastar.

Anchieta, como é conhecido no mundo da bola, trabalhou com o atacante nos tempos de Ponte Preta, quando Régis fechou o primeiro grande contrato como profissional. Foi o início de uma carreira explosiva, de muitos clubes e altos e baixos.

Hoje, aos 53 anos, o empresário está de volta com o compromisso de ajudar o ex-jogador, que perdeu praticamente tudo.

Ele é um dos poucos amigos do futebol que restou na vida de Régis. Ao decidir viajar com nossa reportagem até Jaboticabal, Anchieta desejava rever o amigo e se colocar à disposição da família para custear os próximos seis meses de internação do Pitbull.

Na visita, Régis e Anchieta lembraram os bons tempos de Ponte e aproveitaram para falar sobre o futuro do paciente.

“Chamei ele ali na sala e conversamos bastante. Disse pra ele que essa é uma chance de ouro pra ele resgatar a vida e a dignidade. Ele tem que agarrar isso muito firme, pois deram pra ele seis meses de internação gratuita. Quem faz isso? Tem que ir firme, tem que seguir as regras do local, pra sair limpo. Falei pra ele que, se ele não sair daqui limpo, aí é cracolândia de novo. Aí vai se afundar e vai morrer”, disse.

José de Anchieta convenceu o próprio filho, Matheus, a reformar o apartamento de Régis. Tudo por intermédio da empresa de engenharia e arquitetura do filho do empresário (a Black Wall Engenharia). Afinal, o local virou, nos últimos dez anos, uma “mini-cracolândia”.

A reforma permitirá que a mãe de Régis e o próprio ex-jogador possam voltar a morar no local. O valor da obra foi orçado em R$ 25 mil e será pago pelo empresário. Mas, por enquanto, o foco é a recuperação mental e física do ex-camisa 9.

As boas notícias são que Régis ganhou peso - fruto do hábito de comer doces, comum durante o tratamento -, virou o “cara” nas peladas no campo de terra e adquiriu o hábito de fumar, este um péssimo vício muito comum durante o tratamento.

Está falando bem, mais lúcido, porém ainda longe de entender o esforço e o tempo que o tratamento demandará.

Despedida e torcida

O encontro durou quase uma tarde inteira e foi recheado de emoção, desabafos, carinhos, lágrimas e promessas. Foi mais do que uma visita. Talvez tenha sido um divisor de águas na vida de Régis, amigos e familiares.

A reportagem ainda voltou à clínica no dia seguinte para fazer imagens e as últimas entrevistas para o especial. Dessa vez, sem os familiares do ex-jogador. Dessa vez, o encontro com Régis foi diferente e revelou como a recuperação é um caminho longo.

Ele nos chamou em um canto afirmando que já estava pronto para voltar à sociedade. Pedindo para sair. Ele não entende que ainda está muito doente e que a internação é extremante necessária para que ele tome consciência da doença e recupere uma vida normal.

Muita água ainda vai rolar. Há muito trabalho pela frente com os profissionais da clínica. Régis precisa de apoio.

Será que ele vai recuperar? Foi a pergunta que mais fizemos para os especialistas e funcionários da clínica. Todos afirmaram que, de cada dez pacientes que estão no estágio de Régis, apenas um consegue se livrar da doença.

Aliás, todos deixaram bem claro, essa doença não tem cura. É uma luta eterna.

Por hora, enquanto acompanham o tratamento à distância, os amigos de Régis se comunicam por meio de um grupo de WhatsApp. Ali, cada um ajuda como pode para uma pequena vaquinha mensal que visa arrecadar R$ 400.

O valor é importante para que Régis tenha produtos de higiene pessoal, doces, que ele anda comendo muito, e cigarro, vício que neste tipo de tratamento não tem como tirar, até porque a abstinência da droga, no caso do crack, é cruel.

Hoje, quem está à frente de tudo é Tiffany da Silva, a irmã de Régis, que tem sido responsável por arrecadar o dinheiro.

Como ela está desempregada, a quantia é mais do que necessária para que Régis não fique desamparado. Por isso, ela permitiu que a reportagem divulgasse dois contatos dela para que os interessados em ajudar o Pitbull a procurem.

Um deles é pelo telefone (11) 96977-5450. O outro é pelo perfil no Instagram: @tiffany_marcella.

No mais, o que Régis precisa agora é de paz e desintoxicação.

Enquanto isso, os amigos Anchieta e Carlos Brandão, outro empresário importante na carreira de Régis, tentam batalhar para que o Pitbull tenha um emprego quando sair da clínica. É um caminho para ele se ressocializar e ficar longe das drogas.

Tomará que Régis Pitbull, que deu alegrias a tantas torcidas, entenda que esse será o grande golaço de uma vida praticamente perdida nas drogas. Tomara que ele entenda que essa certamente é a grande e última chance da própria vida.