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'Quando morreu, chorei como se fosse da minha família': a carta emocionante de Lugano para 'O Chefe' Obdulio Varela, herói do Uruguai em 1950

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Lugano lamenta o que aconteceu em Brasil x Argentina e desabafa: 'Envergonha o futebol e a classe dos jogadores' (2:46)

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Hoje, 20 de setembro de 2021, completam-se 104 anos do nascimento do homem mais importante da história do futebol do Uruguai, Obdulio Varela. Mas ao contrário do que aconteceu em outros cantos da América do Sul, em que tivemos uma febre de crianças batizadas como Edson e Diego, não vimos muitos pais correndo aos cartórios para nomearem seus filhos de Obdulio, o que diz muito sobre a natureza modesta da figura.

Ele não era o que se costuma chamar de craque. Era um centrojás (o equivalente ao atual volante) muito bom de bola, sim, mas não driblava nem pedalava, tinha um penteado ordinário, fazia poucos gols (embora tivesse uma patada poderosa de fora da área), jogava no meio-campo e preferia evitar os tentos adversários a fazê-los. Era inimigo dos holofotes, abominava a fama, tinha asma e morreu em 2 de agosto de 1996, aos 78 anos, pobre como nasceu. Sou capaz de afirmar que, se jogasse hoje, sequer estaria no Instagram.

Não sem razão, muitos o associam ao bicampeonato mundial do Uruguai, o chamado Maracanazo de 1950, quando ele capitaneou a Celeste na maior virada de todos os tempos e levantou a Copa do Mundo, um feito que calou 200 mil vozes na capital do Brasil no jogo de maior público que se tem notícia na história do esporte e gerou um luto coletivo que até hoje muitos tentam explicar - em respeito ao Brasil e aos brasileiros, Obdulio nunca mais se sentiu à vontade para falar publicamente sobre a vitória uruguaia naquela decisão de Mundial.

São conhecidas as histórias sobre como Obdulio colocou a bola debaixo do braço após o gol do Brasil, encenou uma longa reclamação com o árbitro inglês e esfriou o estádio e a equipe brasileira. Muito se fala também de como ele tomou a taça das mãos de Jules Rimet, que não entendia o que se passava e, claro, de sua incursão pelos botecos de Copacabana, quando entendeu o tamanho da tristeza que havia dado ao povo brasileiro e compartilhou da sua dor com sinceridade.

Naquele dia, 71 anos atrás, seu discurso para o jovem e assustado time uruguaio antes de subir para o gramado do Maracanã entrou para a história. El Negro Jefe [O Negro Chefe], seu apelido, mirava fundo nos olhos dos companheiros e dizia: "Não pensem em toda essa gente, não olhem lá para cima, a partida se joga aqui embaixo e se ganharmos não vai acontecer nada. Os que estão lá fora são de pau e em campo seremos onze contra onze. A partida se ganha com os ovos na ponta da chuteira.”

Não tinha 10% do dom de Pelé, Messi ou Maradona, mas...

Muito antes de eu, Diego, assumir a braçadeira de capitão da Celeste, li livros e ouvi histórias sobre Obdulio. Tanto daqueles que conviveram com ele como daqueles que, como eu, não tiveram a honra de conhecê-lo. Meu pai colecionava artigos que contavam a história de Obdulio e isso acompanhou meu crescimento quando eu ainda era criança e nem imaginava vir a ser jogador de futebol profissional algum dia. Obdulio era alguém tão presente em minha vida que quando morreu, há 25 anos, chorei como se ele fosse parte de minha família. De certa forma, era. Ou viria a ser.

O que a maioria das pessoas talvez não compreenda é que para se entender o espírito de alguém que desprezava a fama, há de se olhar obviamente para além de seu momento mais famoso. O que fez este homem simples ser um ícone de rebeldia tão temido pelos poderosos? Como pôde um jogador que não tinha 10% do dom de Pelé, Messi ou Maradona deixar um legado que se pode sentir claramente até hoje, um quarto de século depois de sua morte?

Obdulio no Uruguai é uma lenda – e não poderia ser diferente! -, mas creio que o maior respeito que se pode dar à biografia de alguém é oferecer um olhar objetivo e honesto sobre seus feitos, colocando-os dentro do devido contexto. Pessoalmente, arrisco suspeitar que a explicação para o fenômeno passe por suas origens, que lhe obrigaram a conviver em primeira pessoa com a necessidade do trabalho duro e a escassez de alguns luxos e, assim, desenvolver um profundo senso de coletividade e um grande apego pela justiça.

O sangue indignado de Obdulio foi fervido em banho-maria por anos, conforme o pibe nascido em La Teja foi entendendo como as coisas funcionavam naquele mundo. A partir dos 8 anos, ele foi jornaleiro, flanelinha, pedreiro e engraxate e chegou a dormir na rua antes de receber uma chance nos campos para fazer aquilo que mais amava vestindo a camisa de times de bairro, como o Fortaleza, o Dublin e o Pascual Somma.

Quando a oportunidade apareceu, ele a agarrou, se tornou jogador pelo Deportivo Juventud e, um belo dia, ao descobrir que havia sido vendido feito um saco de arroz por 200 pesos ao Wanderers, sem nem sequer ser consultado antes, entendeu que o futebol era uma indústria e, assim como nos campos, era preciso lutar por cada palmo de seu espaço para se fazer respeitado. Todos logo descobririam que a faixa de capitão lhe caía bem, mas francamente isso era apenas uma redundância para alguém que dedicava sua vida a defender seus companheiros, dentro e fora das quatro linhas.

Obdulio e a greve que mudou o futebol na América do Sul

Isso porque dois anos antes do Maracanazo, o Negro Jefe, já um homem de 30 anos, encabeçou a greve que mudou o futebol do nosso continente. Com a recusa dos dirigentes em negociar melhorias trabalhistas para os jogadores uruguaios que recebiam migalhas e eram tratados como escória, Obdulio liderou a suspensão do Campeonato Uruguaio de 1948 ao lado de outros 500 atletas. Queria poder de voto e de voz aos atletas sobre as decisões importantes do futebol.

Nos 7 meses de paralisação do futebol nacional, ele voltou a trabalhar como pedreiro e o cenário que se desenhou hoje seria inimaginável. Os jogadores foram pessoalmente atacados e perseguidos por muitos veículos de imprensa, que os chamaram de mercenários, desordeiros e problemáticos, mas contaram com a imensa solidariedade dos torcedores a sua causa no difícil período em que tiveram seus salários congelados.

As ideias não conhecem fronteira e, logo, os futebolistas da Argentina entraram em greve também, cobrando melhorias semelhantes, o que deixou o futebol sul-americano de ponta cabeça. Como era possível que esse esporte fosse um negócio tão lucrativo para alguns, mas que seus protagonistas, os jogadores, fossem quase todos miseráveis? Quando a paralisação terminou, em 1949, os atletas conquistaram alguns direitos mínimos, como o de receberem uma pequena porcentagem do valor de suas transferências e de se sindicalizarem, mas o desprezo dos aristocratas da bola seguiu.

Pouco antes de ir ao Rio de Janeiro em 1950, Obdulio não queria jogar a Copa por estar velho, mas foi convencido a fazê-lo 'por los muchachos'. Um homem com seu caráter jamais desapontaria o povo que não abandonou os jogadores uruguaios no momento mais crítico de suas vidas.

Uruguay nomá*! Obdulio nomá!

Entre os convocados para a Copa esteve Matías González, um jogador a quem o elenco passou a virar a cara por ter furado a greve e disputado o Sul-Americano [equivalente à Copa América atual] de 1949, no Brasil. Naquela ocasião, ainda com a greve rolando, uma seleção uruguaia totalmente desfigurada e formada basicamente por juvenis (e González) perdeu por 5 a 1 para os brasileiros, que passearam rumo ao título com uma campanha de 46 gols em 8 jogos. A Argentina, que foi a grande potência do futebol do continente nos anos 40, sequer enviou sua seleção por conta da greve.

Durante a viagem para disputar a Copa de 1950, o capitão Obdulio voltou a mostrar sua personalidade: defendeu González frente ao elenco, exigindo que todos o cumprimentassem e explicando que a união entre os jogadores era indispensável se quisessem chegar a algum lugar. O 'inimigo' a ser combatido certamente não era González, um rapaz simples que não conseguiu recusar um chamado de sua seleção.

Assim, a Celeste entrou no avião rumo ao Rio de Janeiro. E o resto é História (com H maiúsculo mesmo). Mas a frase de Obdulio em 1950 no túnel de entrada do Maracanã, “a partida se joga aqui embaixo”, certamente ganha outros significados quando conhecemos sua biografia, suas causas e prioridades.

Enquanto tive o privilégio de ser capitão da seleção, o mínimo que me coube fazer foi zelar pelos valores que El Negro Jefe, o maior intérprete das ruas que já pisou em um campo de futebol, nos ensinou a todos. Uruguay nomá! Obdulio nomá!

* Uruguay nomá é um diminutivo de 'Uruguai não mais', que por sua vez já é um diminutivo de 'Uruguai e nada mais'. É uma expressão com dezenas de anos que os uruguaios utilizam para celebrar seus feitos, vitórias e alegrias. Mostrar seu orgulho. É algo só deles.