<
>

Veiga quase realizou sonho no Santos antes de assumir clube onde viveu terror com surto de COVID-19 e foi vítima da doença

play
Bragantino lembra quando Marcelo Veiga se emocionou no vestiário e foi aplaudido e abraçado por jogadores (0:23)

Via @RedBullBraga | Morreu nesta segunda-feira o técnico Marcelo Veiga, de 56 anos, vítima de complicações causadas pela COVID-19. A informação foi confirmada pela assessoria da Santa Casa de Bragança Paulista (SP), onde ele estava internado. (0:23)

Pouco antes de iniciar seu último trabalho no futebol, o técnico Marcelo Veiga, 56, uma das vítimas de COVID-19 no Brasil, esteve a uma reunião de treinar pela primeira vez um grande clube. Foi convidado para o sub-23 do Santos e se interessou.

Aquela era chance de realizar o sonho no clube onde foi lateral esquerdo de 1989 até 1991, mas a negociação não foi concretizada, tampouco noticiada. A reportagem só soube do fato a partir do relato do zagueiro Guilherme Mattis, 30, hoje na Ferroviária.

“É algo que agora posso falar. Antes de acertar com o São Bernardo FC, ele estava quase fechado para treinar o sub-23 do Santos. Por detalhes talvez [não fechou]… Acho que o antigo presidente do Santos acabou faltando à reunião, e o Marcelo sentiu falta de respeito com a situação e voltou para Bragança Paulista”, disse Mattis à reportagem.

Veiga já somava no currículo 17 clubes diferentes como treinador, tendo como marca fazer times de baixo orçamento renderem e descobrir e valorizar jogadores. Antes do sub-23 do Santos, a única tentativa conhecida de um grande clube contratar Veiga foi em 2007, quando um diretor do Corinthians abordou o então jovem treinador (tinha 43 anos), mas ele, humildemente, recusou.

“O diretor me perguntou se eu estava preparado. Eu disse que ainda não. Não era o meu momento, tinha muitas coisas para aprender e estava começando. Decidi ficar [no Bragantino, semifinalista do Paulistão de 2007]”, disse Veiga em 2020 à ESPN.

Dedo do técnico

Assim como foi em 2007, a carreira de Veiga prosseguiu em 2019. Após dois meses no Ferroviário-CE, surgiu o convite para comandar o São Bernardo FC, naquele que foi o último trabalho dele em vida, quase tão marcante quanto o realizado no Bragantino.

Veiga foi o nome escolhido pela diretoria, então encabeçada pelo proprietário Roberto Graziano, do Grupo Magnum, e no comando desde o fim de 2019, para começar um projeto que visa colocar o São Bernardo FC na Série B até 2026.

Quando Veiga foi contratado, o São Bernardo estava em situação de total reconstrução. Já não podia mais usar o estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, para treinar e necessitava urgentemente de um novo local, além de elenco.

“Nós partimos do zero. Só tínhamos um CNPJ e uma vaga na Série A2 do Paulista. Tivemos de alavancar tudo. Veiga foi crucial desde o adubo até a montagem do elenco para 2020”, disse Lucas Andrino, diretor da GoldSports, braço esportivo da Magnum, à reportagem.

O primeiro passo dado foi onde treinar. Veiga tirou a equipe de Sorocaba, onde a estrutura deixava a desejar, e a levou para o Seven Resort, em Atibaia, do ex-jogador Marcelinho Carioca, local que já conhecia desde os tempos de Bragantino.

“Quando chegamos, havia um procedimento com o último locatário e até um problema judicial. Estava tudo abandonado. Nós começamos a recuperação do campo, e o Marcelo participou de tudo: a escolha do adubo, a definição da medida do campo, a seleção das ‘tias’ da cozinha. Ele tinha o estilo de treinadores como Telê Santana, que gostavam de controlar tudo”, disse o executivo.

Devotos de Veiga

Se Luiz Felipe Scolari é reconhecido pela Família Scolari, Veiga poderia ser identificado pela lista de devotos no futebol. Afinal, dezenas e mais dezenas de jogadores são gratos ao treinador. Foi assim também no São Bernardo, onde formou o elenco com nomes promissores, gente experiente e velhos conhecidos, como o já citado Guilherme Mattis e o lateral esquerdo Pará, 33.

“Ele foi quem mais acreditou em mim. Ao todo, foram sete oportunidades em que estivemos juntos. Estou entre os que ele mais dirigiu na carreira. Foram quase 80 jogos. Ele me chamava de filho, e a gente tinha essa relação de pai e filho”, disse Mattis.

“Aos 18 anos eu tive duas lesões sérias no joelho e fiquei mais de dois anos sem jogar. Ninguém mais acreditava em mim. Até empresário me largou. Foi aí que ele me ligou e disse ‘Vem para cá. Eu vou te dar uma oportunidade’. Isso foi em 2008. Depois tive mais duas lesões no joelho. Estava disposto a parar. Não aguentava mais. Aí ele me ligou e falou: 'Você só vai parar quando eu deixar de ser treinador!’. Criamos uma relação de carinho a ponto da minha esposa chamar ele de sogro”, disse Pará.

Foi assim que o projeto do São Bernardo FC começou a tomar corpo em campo, com aliados como Pará e Mattis, mais o eterno braço direito Sérgio Ricardo, auxiliar de Veiga a partir de 2005 e companheiro de vida desde o bairro paulistano da Casa Verde nos anos 70.

Logo no primeiro desafio, o São Bernardo conseguiu ter a melhor campanha da primeira fase da Série A2 de 2020, mas caiu no mata-mata, em plena semifinal, para o São Bento. Ficou a um jogo do acesso.

Surto de COVID-19

Mal havia começado a Copa Paulista, o segundo torneio prioritário para Veiga, quando um surto de COVID-19 acometeu jogadores e comissão técnica do São Bernardo, em Atibaia, em novembro de 2020.

“Acho que foi o primeiro surto no futebol brasileiro que impactou. Se não me engano, em três testes deu quase 25 positivos. Infelizmente, é muito difícil você controlar. Mesmo que tivesse álcool em gel em todos os quartos, todo mundo usando máscara, chega uma hora, no treinamento e nas refeições, que você acaba tendo contato sem máscara”, disse Guilherme Mattis.

“Por incrível que pareça, os três que eu dava carona testaram positivo. Deu dois dias, eu testei positivo também. Foi uma bola de neve. Primeiro cinco pessoas, depois sete, depois mais três. Eu senti dor muito forte nas costas, uma dor insuportável no rosto e aquela incerteza. Será que eu vou ter algo mais grave? Será que vou ter falta de ar? Temi por mim e pela minha família”, afirmou Pará.

“O que passamos nesse CT foi uma coisa de terror que eu nunca vi. Parecia uma cidade faroeste abandonada. Um cara no quarto mal. Outro isolado. Você não sabe o que vai acontecer”, disse Sérgio Ricardo, um dos poucos no clube que testou negativo.

Para os que sofreram os sintomas da doença, até hoje há uma dúvida: como a decantada "bolha do futebol" falhou?

“Não tem como saber. Você vai ao mercado, vai ao açougue, vai a um lugar para jantar, vai para o bar para tomar um negócio, enfim. Ainda mais a gente que tem contato em jogos com pessoal que trabalha no dia do jogo, que está no estádio e a gente não sabe se eles foram testados. Então, é uma coisa que não tem como saber de onde veio, quem transmitiu”, disse Pará.

Foi nesse surto de COVID-19 que Marcelo Veiga acabou infectado. Inicialmente a doença manifestou sintomas leves.

“Eu me lembro que era um sábado, e a gente teria vídeo na salinha e depois treino. Aí ele desceu de máscara e disse: ‘Negrão, não chega perto que tô com suspeita. Você vai dar o treino’. Nosso CT tem um barranquinho e para dar o treino ele estacionou o carro dele lá, ficou olhando à distância, enquanto eu apitava a atividade. Na segunda-feira saiu o resultado: positivo. Depois só falei com ele pelo telefone. Aí a gente jogou contra a Portuguesa Santista, eu tentei ligar para ele várias e ele não atendeu”, disse Sérgio Ricardo.

O motivo para ignorar as ligações do amigo é que o treinador foi internado em 20 de novembro na Santa Casa de Bragança Paulista. Foram 24 dias dentro do hospital, na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo), e, por mais forte que Veiga fosse, ele não resistiu.

Aos 56 anos, tornou-se mais uma vítima da COVID-19 no Brasil.

“Eu lembro o dia que eu recebi a notícia… [choro]. A gente estava aqui no CT, eu estava descendo para dar treino no campo e me falaram, que ele já tinha ido... Aí vim aqui, fiquei sentado aqui. É bem difícil falar porque até hoje não caiu a minha ficha que ele faleceu. Marcelo morreu, mas eu continuo no mesmo lugar de treino. Tudo aqui lembra ele”, disse, emocionado, Sérgio Ricardo.

Dois dias depois da morte do treinador, o São Bernardo entrou em campo para encarar a Portuguesa pelo segundo jogo da semifinal da Copa Paulista, no Canindé. O projeto elaborado por Veiga novamente estava numa fase decisiva. Mas dessa vez ele não estava lá. Os jogadores entraram com uma faixa escrita “Para sempre Veiga”, mas o time perdeu por 3 a 0 e foi eliminado.

A tristeza deixou todos abatidos, mas o projeto no clube do ABC prosseguiu. Quase seis meses depois, já sob o comando de Ricardo Catalá, a equipe alcançou o primeiro fruto. Foi campeã da Série A2 do Paulista de 2021 e obteve a vaga na elite do Estado de São Paulo.

Na comemoração, em meio à festa, a lembrança de Veiga bateu forte em todos. Foram muitas homenagens, como a feita por Pará, que chegou a carregar uma camisa número 6 com o nome do antigo treinador por todo o gramado do Canindé (local da decisão).

“Eu tinha que fazer aquilo ali. Falei com todo meu coração por causa dele, da filha dele, da mãe dele, dos irmãos. Ele foi um cara sensacional, que fez tudo por mim e também por esse projeto, que começou com ele”, disse Pará.

Dor e desabafo

Seis meses já se passaram desde que Marcelo Veiga morreu. A dor ainda está presente no São Bernardo.

“Cara, é muito forte o que eu tive com ele [chora]… Desculpa! Parece que eu esteja mentindo, mas eu sonhei com ele essa noite. Se hoje eu dou um pão pra minhas filhas, se dou um lugar para minha família morar, é graças a ele”, disse Mattis.

“Ele era devoto de Nossa Senhora. Era completamente humano. Não podia ver ninguém passando dificuldade. Ajudava muita gente, inclusive financeiramente... Tinha um coração enorme. Era um cara do bem, que fazia o bem”, disse Sérgio Ricardo, emocionado.

Junto com as recordações, a saudade e a tristeza, há espaço também para o desabafo contra uma doença que já vitimou quase 500 mil brasileiros e em um país que apresenta em 2020 um dos piores desempenhos no combate à COVID-19.

"Futebol não é uma bolha. É sociedade. Nós vivemos no meio da sociedade. Temos de nos engajar mais, ter mais lutas sociais. A gente tem de lutar mais contra a desigualdade. Tem de se posicionar mais", disse Sério Ricardo.

“A gente tem muito descaso político. Muita briga política. A gente, que é povão, sofre. Nossos comandantes, nossos governantes têm de ser mais sérios nessa questão da pandemia, que não é uma gripezinha, não é um negócio qualquer. Ela mata!”, finalizou Sérgio Ricardo.