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Devoto de São Jorge e do Flamengo: A história de Jorginho, o massagista que perdeu a vida para a COVID-19

Ele foi mais um trabalhador brasileiro que perdeu a luta contra o novo e fatal coronavírus.

Jorge Luiz Domingos, chamado simplesmente de Jorginho, trabalhou como operador de máquinas, fabricando peças, até o dia em que se acidentou, quase perdeu o movimento da mão e foi obrigado a buscar uma nova profissão. Isso há mais de quarenta anos.

Com o acidente e a impossibilidade de continuar na profissão, o jovem Jorginho foi estudar enfermagem. Virou um técnico de mão cheia, segundo a esposa, Helena Viana Domingos, 66.

Jorginho foi além, fez um curso para tornar-se massagista. Entrou na nova profissão para nunca mais sair.

Iniciou a carreira em 1976, na Portuguesa da Ilha do Governador. Nesse período, morador do Méier, na Zona Norte da cidade carioca, Jorginho criou o hábito de parar estrategicamente durante o trajeto até a Portuguesa para tomar um cafezinho.

O local escolhido era supermercado, onde a beleza da jovem Helena o encantou à primeira vista.

Aquilo que era uma paquera virou uma paixão fulminante. Tanto que o massagista topou sair de um bairro de classe média da cidade para ir viver ao lado da amada numa comunidade na Ilha do Governador.

Helena, que já era separada do primeiro relacionamento, tinha duas filhas pequenas. Jorginho assumiu o comando da família para se tornar mais que pai. Ele foi o exemplo, o guia e o amigão da família.

Profissionalmente, ele teve ainda uma rápida passagem pelo América-RJ no fim dos anos 70. O ano especial mesmo foi o de 1980. Além do matrimônio festejado pelo casal, Jorginho foi contratado para ser o massagista do time de coração, o Flamengo.

Foi um longo casamento de 40 anos. E ele foi muito feliz e conquistou muitos títulos como membro do departamento de futebol, entre os principais estão duas taças da Conmebol Libertadores (1981 e 2019) e uma do Mundial de Clubes, este em 1981.

Pelas mãos milagrosas de Jorginho passaram grandes craques do futebol brasileiro e mundial, como Zico, Júnior, Leandro, Romário, Edmundo, Djalminha, Adriano e mais recentemente Gabigol.

Campeão mundial

A consagração na profissão veio mesmo em 2002, quando, na Copa do Mundo da Coreia do Sul e do Japão, Jorginho fez parte da comissão formada por Luiz Felipe Scolari e ajudou com verdadeiros milagres em forma de massagens. Foi fundamental para craques como Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho terem plenas condições de brilharem na competição.

Danilo da Silva, 24, neto do massagista, lembra que o avô guardava com muito carinho as lembranças do último título brasileiro em Copas.

Ele dizia ao jovem que aquela foi uma época em que os grandes craques pensavam no trabalho coletivo, ou seja, entendiam que todos os profissionais eram parte da conquista e, portanto, todos deveriam receber a premiação de forma igualitária.

Foi assim que aconteceu. Com o dinheiro pela conquista do Mundial no Japão, Jorginho, que já havia conquistado a casa própria, pôde comprar mais um apartamento, hoje tão importante para a renda da família.

Danilo também lembra com ternura das histórias do avô no Ninho do Urubu. Inclusive, recorda o dia em que fez um gol no treino da base do Flamengo, em 2006, sob os olhares de Jorginho.

“Fiz um golaço pra ele, que se emocionou, claro. Pena que não consegui continuar na carreira e me tornar profissional, algo que é muito difícil mesmo”, afirmou o neto, que hoje vive com a renda de uma loja virtual de roupas femininas.

Adeus, Jorginho!

Helena e Danilo não esperavam que Jorginho, aquele cara tão positivo e feliz da vida, poderia ser uma das primeiras vítimas fatais no esporte da COVID-19 no Brasil.

Em casa, segundo Helena, o marido odiava falar em morte, não gostava nem de tocar no assunto. Mas, para os vizinhos, Jorginho vinha alertando que temia muito ser contaminado pelo novo coronavírus.

Ninguém sabe ao certo como ele se infectou. Helena acredita que foi na ambulância ou no próprio hospital onde ele havia passado por conta de um aneurisma cerebral detectado há pouco mais de um ano.

O que eles sabem mesmo é que Jorginho ficou febril, dando entrada ao hospital andando e conversando normalmente. Só que a doença evolui rapidamente, levando o massagista ao óbito em pouco tempo, em 4 de maio de 2020.

Para a viúva, o vazio que o marido deixou jamais será preenchido.

“O coronavírus acabou com a vida do meu amado marido, com a de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, e com a minha vida. Está difícil aceitar. Ele era uma alegria na minha vida. Tenho certeza de que jamais terei outro, pois o Jorginho era o melhor ser humano que já convivi em toda a minha vida”, desabafou a esposa do massagista que morreu aos 68 anos.

Vazio

O neto Danilo foi enfático na entrevista que nos concedeu. Disse que ninguém da diretoria do Flamengo procurou a família como forma de se solidarizar com um funcionário que somava 40 anos de casa. E foi além.

“Vou dizer aqui uma coisa que eu nunca falei. Da diretoria do Flamengo, ninguém ligou para a minha avó. Só o pessoal do RH para fazer a homologação. Quem foi boa gente mesmo foi o Rafinha, que nem está mais no Flamengo. Aliás, se não fosse ele, nem para a final da Libertadores meu avô teria ido. Foi ele que pediu para [a comissão técnica de Jorge Jesus] escalar o meu avô que, aposentado, trabalhava apenas nas categorias de base”, desabafou o jovem.

“Outra coisa que deixou ele chateado foi por causa da premiação da Libertadores de 2019. Os jogadores, a exemplo do que foi feito pela geração campeã da Copa de 2002, queriam dividir o prêmio. Isso não aconteceu. Mas, de qualquer forma, a gente tem um respeito pelo clube, pois foi lá na Gávea que as cinzas dele foram jogadas, e foi no Mengão que ele se realizou durante uma vida toda na profissão”, declarou o neto, muito emocionado ao lembrar as histórias de vida e da bola do saudoso avô", Jorginho.