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Da saída de jogo ao bom vestiário: o 'Dinizismo' segundo o goleiro ex-Palmeiras que viu técnico do São Paulo nascer

O estilo de jogo fora dos padrões criado por Fernando Diniz é algo que chama atenção desde 2009, quando ele começou a carreira como treinador. Apesar de sofrer algumas críticas, o técnico tem conseguido levar o São Paulo aos primeiros lugares do Brasileirão. A equipe do Morumbi enfrentará o Fortaleza, neste sábado.

Mas quem vê o time dentro de campo talvez não saiba que o “Dinizismo” vai muito além da troca de posições em campo, um goleiro que saiba jogar muito bem com os pés ou a intensa posse de bola.

Para entender um pouco das ideias do treinador, o ESPN.com.br conversou com o ex-goleiro Marcelo Moreira, que foi companheiro de Diniz no Palmeiras e comandado por ele no Votoraty-SP, em 2010.

Ele fala a língua do jogador

Formado em psicologia, Diniz sempre demonstrou uma preocupação com os atletas fora de campo.

“Ele fala a língua do jogador. O Fernando vê o lado humano porque tem dia que o atleta não está bem. O cara tem problemas na família e isso pode afetar o desempenho dentro de campo”.

Para Marcelo, o grande trunfo do treinador são as relações interpessoais.

“Quando percebe algo errado, o Diniz costuma chamar o jogador de canto para conversar e entender o que está acontecendo. Não chega te acusando, não é só aquela coisa de resultado e fazer o melhor dentro de campo. Ele entende como é a vida do jogador”.

“Ele gostava de botar música no vestiário sobre amizade e união. Ele tinha essa mentalidade e isso faz com que o cara jogue por ele. A gente entrava pilhado em campo. Diniz cobra bastante, mas é o primeiro a te apoiar quando você precisa”.

Todo mundo se sentia importante

“Ele falava que nós éramos os artistas e que precisávamos nos sentir bem para fazer o melhor dentro de campo. Por isso, queria uma boa estrutura. Ele valoriza muito os funcionários do clube porque sabe que, se estão felizes, eles fazem um trabalho melhor. Ele conversava com todo mundo no clube”.

Marcelo fraturou a mandíbula em uma dividida com um adversário logo na estreia pelo Votoraty. Na partida seguinte, Diniz usou o caso do goleiro para motivar ainda mais o elenco no vestiário.

“O Fernando falou: ‘Esse cara aqui quebrou a mandíbula jogando por vocês. A única coisa que vocês podem fazer é retribuir jogando da mesma forma que ele jogou. Dando o melhor!’”.

Treino, treino, treino...

Para implementar seu estilo de jogo, Diniz costuma fazer treinos um pouco mais demorados e explicativos.

“Ele sabia muito bem o que queria, mostrava que a proposta dele dava certo e era eficiente se fosse feita da forma correta. Era muita repetição. Ele parava as jogadas nos treinos muitas vezes para explicar o que queria. Quando dava certo, a galera via que ele tinha razão. Mesmo com tanta rotação no jogo, dava pra ver que conseguia tirar o melhor de cada um em campo”, afirmou.

“Ele explicava que a movimentação dos jogadores facilitava a vida dos companheiros do lado e na transição de jogo”.

Troca intensa de posições

Diniz gosta que o time tenha muita posse de bola e rode em campo, sem posição fixa. O objetivo é que os jogadores tenham o maior número de opções para trocar passes.

“Você via o volante na zaga e o zagueiro na ala. Era loucura porque os caras falavam: ‘Ou a gente ganha de cinco ou toma de cinco’ (risos). O esquema era uma rotação de posição. O volante jogava na zaga porque tinha uma saída de bola melhor, mas depois ele aparecia no ataque. O meia estava atrás e na ala estava um ponta”.

Goleiro que saiba jogar com os pés

“O Fernando já fazia os caras recuarem a bola para o goleiro na pressão alta e eu tinha que achar as opções de passe. Precisava ter frieza para dar um passe bom. Os companheiros se mexiam e me davam opões. Depois, fomos criando confiança e vendo onde cada um estaria. Nas primeiras semanas tive dificuldades, mas depois ficou fácil”.

Diniz costuma treinar diversas situações de jogos diferentes para que os jogadores saibam como agir.

“Muita gente o critica, mas ele é autêntico. O que ele faz hoje fazia há dez anos. Ele trabalha de forma intensa para o jogador saber o que precisa fazer naquela situação”.

Ele quer entrar em campo

O comportamento exaltado nos jogos é uma das marcas do treinador desde o começo.

“Ele parece que quer entrar em campo. Seja gritando, gesticulando ou conversando com o banco. Ele participa do jogo 100%. Está sempre pilhado porque faz com amor, com intensidade e quer resultado”.

“As coisas fluem no São Paulo de forma melhor sem tirar a ideia dele de jogo. Eu torço muito para o Fernando porque sei como ele é. A gente vê como está evoluindo e mostrando um futebol diferente”.