Diretor de futebol do Cruzeiro, Deivid desabafou sobre os desafios do trabalho durante a maior crise da história do clube mineiro. O ex-atacante falou sobre a dificuldade para contratar reforços, manter os salários em dia e ter um time que brigue para conquistar o acesso para a Série A do Campeonato Brasileiro.
Convidado pelo presidente Sérgio Rodrigues para integrar a diretoria em 2020, ele viu a equipe ter um começo muito ruim de Série B. Para piorar, foi punida com a perda de seis pontos na Fifa por causa das dívidas.
Desde a chegada do técnico Felipão, porém, o time saiu da zona de rebaixamento e ainda sonha com o acesso - a Ponte Preta, quarta colocada, está oito pontos a mais.
O Cruzeiro enfrenta o Guarani, nesta segunda-feira, às 20h (de Brasília), pela Série B.
Veja na íntegra a entrevista com Deivid:
Como surgiu o convite
Eu estava na base do Jabaquara-SP e o presidente Sérgio Rodriguues queria que eu fosse em 2017, quando ele perdeu para o Wagner. Vinha me preparando e estudando para que, quando ele fosse presidente, a gente pudesse fazer um trabalho bacana. Quando o Sérgio ganhou a eleição, a gente já sabia que o buraco que estava entrando era muito grande. Pegamos um grupo com seis meses de salários atrasados: quatro de CLT e dois de imagem. A gente conversava que teríamos que nos reinventar e usar nossa credibilidade no meio do futebol para trazer investidores para o clube. Estamos usando a criatividade par que possamos tirar o Cruzeiro desta situação.
Mudança de cargo no Cruzeiro
Eu iniciei o cargo como diretor técnico. No dia a dia o presidente viu qual era meu relacionamento extracampo com as empresas e captando recursos. Fiquei mais na parte de operação de venda e compra de jogadores e trazendo investidores. Deixamos o Ricardo na parte mais de campo. Depois, veio o Brunoro para trabalhar a situação de clube-empresa S.A. e temos feito uma parceria bacana para deixar o clube de forma bacana.
"CPF próprio na negociação"
É por conta da credibilidade. De assinar compromissos e honrarmos. A gente sabe que o momento que o Cruzeiro está vivendo, a gente tem que honrar a nossa credibilidade. Tudo que você assume, ou combina, você tem que cumprir. Tão vendo que tem gente séria no clube e que honra os compromissos. Não prometemos nada que não possamos cumprir. Temos sentado com todos os empresários e negociando, vamos honrar com todos os nossos compromissos.
Dificuldade de contratação de reforços
A gente teve dificuldade para contratar. Tanto da parte financeira quanto técnica. Temos trabalhado com o Felipão alguns nomes que ele colocou. Na situação que estamos, precisa vir alguém que se adeque. Sem regalias, sem altos salários, precisamos ter conhecimento da situação e tentar trazer jogadores que sejam competitivos e que tenham o tamanho do clube.
Dívidas e salários em dia
A gente está se reinventando. Se não pagamos a FIFA, a gente perde ponto. Então aparecem os problemas, nós vamos resolvendo. Se não pagarmos, vamos cair para a Série C. Nós estamos carregando os problemas dos outros, mas a partir desse momento, ela é nossa. Nós estamos reconstruindo algo do zero. Tudo isso demanda tempo e precisamos usar a nossa credibilidade no mercado. Pagar as dívidas, pagar salário em dia. Temos feito isso. O salário está em dia. Temos cumprido com as nossas obrigações. A partir do momento que estamos passando por isso, vamos cumprir com tudo.
Cruzeiro S.A. e investimentos árabes
A Cruzeiro S.A. ainda está engatinhando. É um projeto do presidente e que ele quer fazer, mas não é da noite para o dia. Precisa ser algo bom para o clube. Mas a tendência é que em cinco, dez anos, todos os clubes virem empresa. Hoje, pelo menos 15 grandes clubes devem e devem muito. A ideia é encontrar parceiros que nos ajudam a sanar as dívidas.
Troca de Maurício por Pottker
Mauricio a gente trocou pelo Pottker em definitivo, e nós ficamos com percentuais. Felipão queria e confia no Pottker. Ele subiu [para a Série A do Brasileiro] a Ponte e o Inter sendo artilheiro nas duas equipes. A operação durou uma semana e foi um sucesso.
Interesse do Palmeiras em Cacá
A troca pelo Scarpa nunca existiu. O Cacá tem 21 anos e está em evidência. No começo de julho, o Palmeiras consultou o Cruzeiro para uma eventual compra, mas não se concretizou. Na época ainda era o Vanderlei, mas hoje o Cacá está jogando e espero que seja um nome que nos ajude a subir.
Afastamento e reintegração de atletas
A diretoria não tem poder para afastar tecnicamente alguém. Se é desejo do treinador, a gente respeita. Naquele momento, o Ney Franco achava que o Patrick Brey não estava suprindo para as condições que ele queria e o afastou. O Felipão chegou, colocou ele para trabalhar, e agora está nos ajudando.
Temor pela Série C e planejamento para 2021
A gente sabe que o momento do clube é muito delicado. Todo momento tem ações na FIFA, de empresário, de jogador e temos cumprido nossos compromissos. Mas precisa honrar os compromissos, precisa montar um time. É difícil. Nós nunca tivemos medo do problema. Nós sabemos da capacidade dos nossos atletas, dos nossos colaboradores. Nós não vivemos um bom momento, mas a gente sempre confia que o time vai conseguir subir.
Desabafo de Fábio
Fábio é um ídolo do clube, está há 16 anos e já ganhou tudo e viveu todos os momentos. Tem que ter respeito e admiração. A gente fala muito com as lideranças: Fábio, Léo, Moreno, Manoel... Eu joguei por 20 anos e o pensamento é igual, tento ajudar da melhor forma. A gente sabe que a carga emocional é muito grande. Os mais velhos sentem mais porque não queriam deixar o clube cair e porque querem deixar o clube aonde ele merece. Temos tentado tirar o peso um pouco das costas deles para que possam treinar e jogar mais leves para colocar o time na primeira divisão.
