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Eliminatórias: Rival do Brasil, Bolívia vive caos político, com clubes rachados e jogadores barrados da seleção

A seleção da Bolívia inicia sua trajetória nas eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo de 2022 contra o Brasil, nesta sexta-feira, na Neo Química Arena, em São Paulo.

Desde que participou da edição de 1994 nos Estados Unidos, La Verde vem fazendo campanhas fracas no qualificatório e ficando distante de jogar novamente o principal torneio do futebol.

Se depender de seus bastidores, o jejum boliviano em Copas vai continuar.

Após a morte do presidente da federação local (FBF) César Salinas em julho passado em decorrência de COVID-19, o futebol no país vive um verdadeiro caos na política, nos clubes e na seleção.

A disputa pelo poder da FBF entre Marco Rodríguez e Robert Blanco pode, inclusive, levar à intervenção da Fifa na situação, algo que o técnico da seleção, César Farías, revelou preocupação.

"Há um desconhecimento quanto aos regulamentos que é alarmante. A Bolívia está na corda bamba, beirando uma suspensão. Seria triste para a Conmebol ter uma de suas federações suspensas", afirmou o treinador.

"A intervenção da Fifa não está longe por tudo o que está acontecendo. Aos amigos do governo, saibam também que uma má decisão de ingerência pode deixar o país sem futebol, um membro da Conmebol", completou.

O imbróglio político na FBF não é o único problema no futebol boliviano: o campeonato nacional não retornou após a paralisação em decorrência da pandemia de coronavírus, e na última segunda-feira o "racha" entre clubes deixou a situação ainda mais complicada.

Há uma divisão entre os 14 principais times do país: o denominado G8 (The Strongest, San José, Aurora, Municipal Vinto, Nacional Potosí, Real Santa Cruz, Real Potosí e Always Ready) e o G6 (Bolívar, Jorge Wilstermann, Oriente Petrolero, Blooming, Guabirá e Royal Pari).

Os representantes de 13 dessas equipes se reuniram virtualmente com o vice-ministro de Esportes, Augusto Chávez, para tentar confirmar a data do retorno do torneio logo após as eleições nacionais (marcadas para 18 de outubro).

O encontro, porém, acabou fracassado após uma exigência feita pelo G6 para a presença do presidente do San José, Huáscar Antezana, e não Luis Cossío, membro do clube. Enquanto o "pedido" estava sendo analisado, os integrantes dos seis clubes deixaram a reunião, que terminou sem definições.

A seleção nacional, por sinal, também sofre com diversas situações.

César Farías está há 49 dias treinando com jogadores que atuam no futebol local e mantém um gigante mistério sobre quem escalará para o duelo com o Brasil. Diante da Argentina, na próxima terça-feira, em casa, ele já afirmou que contará com os jogadores "estrangeiros" que chegaram nesta semana a La Paz: Alejandro Chumacero, Boris Céspedes, Jaume Cuellar e Marcelo Moreno.

O treinador, porém, não vai contar com atletas de Bolívar e Jorge Wilstermann para esta primeira rodada dupla de eliminatórias - os dois times são os únicos em atividade por causa da Libertadores.

“Aqui tenho a carta de Grover Vargas (presidente do Wilstermann) e algumas declarações dele e de seu vice afirmando que não vão liberar seus jogadores, e não vou causar problemas com mais ninguém. O que aconteceu com Oriente (Petrolero) já está de bom tamanho, e aqui tenho a carta do clube Bolívar onde afirmam que não levemos em conta os seus jogadores", falou o técnico em entrevista coletiva no último final de semana.

Na semana passada, o presidente do Oriente Petrolero, Ronald Raldes, ordenou a saída de seus três jogadores que estavam na concentração nacional (Ferddy Roca, Mateo Zoch e Ronaldo Sánchez).

A situação fez com quem os atletas da seleção dessem uma entrevista coletiva em tom de desabafo e pediram o fim da "manipulação" do futebol no país.

"Nos deu pena como saíram chorando, chorando com justa razão. Os três meninos que se foram são jovens, e todos temos sonhos e objetivos por cumprir. O que queremos é que não se vá ninguém. Essa não é a maneira de fazer pressão sobre a seleção", disparou o goleiro Carlos Lampe, o mais experiente do plantel.

"Expressamos nossa mais profunda reprovação à atitude da direção do Oriente Petrolero, e para seu presidente, é bom lembrá-lo que por muitos anos foi o capitão e um dos jogadores que mais jogos teve na seleção. Nos causa estranheza sua falta de empatia, não se colocar ao lado desses meninos, que saíram tristes, quase chorando, porque eles têm um sonho", disse outro jogador, Jhasmani Campos.

E assim, com um terremoto extracampo, a Bolívia tentará iniciar de forma digna as eliminatórias contra as duas seleções consideradas favoritas da América do Sul.