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São Paulo tri da Libertadores, 15 anos - Amoroso lembra clima de 'já ganhou' e crava: 'Se ficasse, não perderia para o Inter em 2006'

A final da Copa Libertadores da América de 2005 está viva na memória de cada são-paulino que pode acompanhar aquele time de perto e também na dos jogadores que entraram para a história tricolor, ao levantar o, por enquanto, último título do clube no torneio mais charmoso do continente. Amoroso, claro, é um deles.

Integrado ao elenco a partir da semifinal, por causa da lesão do então titular Grafite, o experiente atacante ajudou o São Paulo a eliminar o River Plate, com duas vitórias emblemáticas, e também fez sua parte na final contra o Athletico-PR, que completa 15 anos nesta terça-feira, 14 de julho.

Na sexta reportagem especial sobre o tri são-paulino na Libertadores*, o ESPN.com.br traz as memórias de Amoroso sobre os dois jogos contra o Furacão, a polêmica escolha do Beira-Rio para sediar a primeira partida da decisão e a certeza do craque: se tivesse continuado no Morumbi em 2006, o Tricolor não perderia a decisão para o Internacional.

Arena da Baixada ou Beira-Rio

Já contamos aqui que, antes da definição do Athletico-PR como adversário do São Paulo, Amoroso já havia dito que era hora de mudar o nome do estádio, de Morumbi para "Morumtri", em referência ao título que viria semanas depois. A confiança do elenco era grande e ainda aumentou com um imbróglio nos bastidores.

Pelo regulamento da Conmebol, o Athletico-PR não poderia jogar a final em sua casa, já que a Arena da Baixada não comportava o mínimo de 40 mil torcedores. O clube tentou instalar arquibancadas tubulares, mas perdeu a queda de braço para o São Paulo, que forçou o cumprimento da regra nos bastidores e viu a partida ser marcada para o Beira-Rio, em Porto Alegre.

"Regulamento é para ser respeitado. Se o São Paulo não tivesse dentro das regras, iria acontecer também", lembra Amoroso, que conta a reação do elenco ao descobrir que não atuaria na Arena da Baixada. "Se fosse ali, seria muito mais difícil. Quando saiu a determinação que jogaria em campo neutro, falo com toda segurança que, se nosso time não fosse muito concentrado, esperto e malandro, poderia ter achado que seria fácil ganhar o jogo".

De fato, o São Paulo não ganhou o jogo. Aloísio, de cabeça, abriu o placar aos 14 minutos do primeiro tempo, ao bater a defesa tricolor no alto e deixar Rogério Ceni imóvel no meio do gol. O empate veio aos seis da etapa final, após cobrança de falta de Júnior que Durval, sem querer, desviou contra as próprias redes.

Ou seja, o Tricolor seria campeão com uma simples vitória no Morumbi, onde havia vencido os seis jogos da campanha naquela Libertadores. Motivo que só aumentou a confiança dos jogadores.

"Depois do empate, não tinha jeito. Era já preparar a festa, pode preparar tudo que não tem jeito. Não menosprezando o Athletico, mas o time do São Paulo era muito melhor. Era um time que sobressaía posição por posição. Dentro da nossa casa, diante de 80 mil torcedores, era o momento que não poderia deixar de escapar".

Final histórica

Não escapou.

Apesar da tensão inicial natural, o São Paulo fez jus ao mando da casa e não deixou dúvidas de quem ficaria com o troféu. Amoroso abriu a conta aos 17 minutos de jogo aproveitando rebote de dividida entre Danilo e a zaga.

"Foi um dos grandes jogos da minha carreira. Desde o primeiro minuto consegui fazer o mesmo procedimento que fiz contra o River. de entender onde pode colocar a zaga deles em dificuldade. Quem ia me marcar era o Durval ou o Danilo. Só que eu não dava referência, essa facilidade de eles entenderem onde eu ia cair, entrar em profundidade. Comecei a jogar na zona do Cocito, tirar ele de perto dos dois zagueiros. Para que tivesse um buraco entre os dois zagueiros e o Luizão pudesse jogar ali", contou o camisa 9.

O único susto veio nos minutos finais da primeira etapa, em que o árbitro Horacio Elizondo deu pênalti de Alex Bruno em Lima. Na cobrança, Fabrício bateu firme no canto direito de Rogério Ceni, que estava na bola e a viu beijar o pé da trave e sair.

O título se confirmou com o passar do segundo tempo. Aos nove, Fabão escorou escanteio de Cicinho para ampliar a vitória, que ficou ainda maior aos 26, quando Amoroso fez jogada individual e deixou Luizão livre, quase na pequena área, para anotar seu último gol pelo São Paulo. Já acertado com o Nagoya Grampus, do Japão, o artilheiro deixou o campo aos prantos e amparado pelo amigo e parceiro de ataque.

"A gente se comunicava no assobio. Tinha a facilidade dos tempos do Guarani. No momento do jogo, por volta dos 30 minutos, Luizão já tava cansado. Eu sabia que ele não vai dar o pique, então pensei: vou cavar no segundo pau. Foi só fazer a jogada e deixar ela correr. Foi uma obra de amizade, de irmandade, de dois meninos que começaram juntos em 1991 no Guarani. Acabou tendo a consagração no São Paulo por essa conquista importante", disse Amoroso, que deu lugar a Diego Tardelli, responsável por fechar a conta.

Por que saiu?

Amoroso precisou de quatro jogos para eternizar seu nome na história do São Paulo. O atacante ficou mais o segundo semestre inteiro e, em dezembro, ajudou o time a sagrar-se tricampeão mundial, sobre o Liverpool. A história acabou ali, para tristeza do craque.

"Fiquei chateado da maneira que foi. Em agosto, falei que queria renovar por mais três anos e não queria mais sair. Infelizmente foram passando os meses, e no final de outubro assinei um pré-contrato com o FC Tokyo, do Japão, que só teria validade se o São Paulo não se interessasse. Se os japoneses depositassem um valor no pré-contrato, e o São Paulo renovasse, eu devolveria o dinheiro. No final das contas, os japoneses não me pagaram, o São Paulo não me fez uma proposta e o Milan me procurou. Acabei assinando".

Amoroso não cita nomes, mas diz que seu sucesso repentino causou inveja entre pessoas próximas à diretoria do São Paulo e que isso teria impedido sua continuidade no Morumbi. Hoje, 15 anos depois de levantar a única Libertadores de sua carreira, ele garante que poderia ter feito a diferença em 2006, quando o Tricolor novamente chegou à final, mas perdeu o título para o Internacional.

"Sabia que, se tivesse permanecido, poderia ter uma vaga na Copa de 2006. Acabou que o São Paulo não renovou meu contrato e eu acabei indo para a Itália, para o Milan. Se tivesse ficado, o São Paulo não teria perdido para o Internacional, mas infelizmente me tiraram essa possibilidade de ter o tetra da Libertadores e também um Campeonato Brasileiro no meu currículo. Às vezes agrada alguns e outros que veem seu sucesso querem te tirar aquela alegria".

A carreira de Amoroso seguiu no Milan durante o primeiro semestre de 2006, quando o atacante voltou ao Brasil. Jogou no Corinthians e no Grêmio, teve uma passagem conturbada pela Grécia e encerrou a carreira no Guarani, em 2009.

* Esta reportagem é a sexta de uma série de conteúdos especiais que o ESPN.com.br publicará até 14 de julho sobre a conquista da Libertadores pelo São Paulo em 2005.