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São Paulo tri da Libertadores, 15 anos - Duelo com Mascherano, 1º gol e 'Morumtri': Amoroso recorda épica semifinal contra o River Plate

Contratado na sexta-feira, apresentado no sábado, regularizado na segunda e em campo na quarta. Os primeiros dias de Amoroso no São Paulo foram, sem dúvida, bastante agitados. Recrutado após o fim do contrato com o Málaga, o atacante era a esperança de 'cereja do bolo' em um time ajeitado e a quatro jogos de conquistar a Libertadores da América pela terceira vez na história.

O casamento entre jogador e clube, todos sabem, foi breve, mas deu muito certo. E começou em uma fogueira: uma semifinal contra o poderoso River Plate. Na quarta reportagem do especial São Paulo tri da Libertadores, 15 anos* contamos a visão de Amoroso sobre aqueles dois jogos que acabaram com vitórias tricolores: 2 a 0 no Morumbi, na ida, e 3 a 2 no Monumental de Nuñez, na volta, em que o atacante anotou o primeiro gol pelo clube.

Nesta entrevista exclusiva, ele lembra o contato com o elenco são-paulino logo na chegada, memórias dos duelos contra Mascherano e Lucho González em campo, a recepção hostil da torcida argentina em Buenos Aires e a frase cunhada por ele logo após carimbar a vaga na decisão: "Já pode mudar o nome de Morumbi para Morumtri".

"Joga no papai"

Foi com a frase acima que Amoroso foi recepcionado no vestiário do Centro de Treinamento da Barra Funda naquele sábado 18 de maio de 2005. Horas antes, o atacante havia sido anunciado pelo São Paulo como substituto de Grafite, fora da reta final da Libertadores por uma lesão grave no joelho direito.

"Brincadeiras à parte, era um grupo que tinha jogadores importantes, como Luizão, Rogério, Júnior. Quando cheguei, vi que o São Paulo tinha condições de poder realmente ganhar com folga do River Plate. Via o foco, aquela determinação, concentração para essa partida superimportante. Tanto que, no túnel, falei: 'Se estiver difícil, joga no papai que está tudo tranquilo' (risos). Ai já dá aquela relaxada", contou o ex-atacante.

Amoroso treinou quatro dias com o grupo, de sábado até terça-feira, e foi escalado por Paulo Autuori como titular na primeira partida contra o River, dia 22 de maio, no Morumbi. Diante de 61 mil pessoas, o time tricolor defendia a invencibilidade em seu estádio, mas também precisava superar o retrospecto ruim contra os argentinos, que só haviam perdido um dos oito confrontos para brasileiros.

Com a camisa 9, Amoroso não resolveu diretamente, mas ajudou o São Paulo a conquistar uma importante vitória. O gol de Danilo, já aos 31 minutos do segundo tempo, abriu caminho para Rogério Ceni, de pênalti, aumentar a vantagem para a segunda partida, uma semana depois, em Buenos Aires. Era um passo decisivo para conquistar a América de novo.

"Foi um dos grandes jogos da minha vida, por estar parado há um mês, quase um mês praticamente só jogando pelada para não perder a forma. Nosso time tinha garra, experiência, malandragem e velocidade. E chega no Danilo, que era o cérebro daquele time. Fazia diferença para que a gente pudesse jogar", contou Amoroso.

Batalha dentro e fora do Monumental

Uma semana depois da estreia, Amoroso estava novamente em campo para fazer sua segunda partida pelo São Paulo. Defendendo a vantagem de dois gols conquistada em casa, a equipe brasileira tinha exata noção do que encontraria em Buenos Aires, principalmente após um confronto entre torcedores do River e a Polícia Militar marcar a ida no Morumbi.

"A gente sabia que ia encontrar um ambiente hostil, mas que, na hora que chegasse em campo, eram 11 contra 11. Nosso ônibus foi apedrejado, todo mundo segurando cortininha e dando risada. A gente brincava um com o outro: quem não quiser entrar, manda o fax pra Federação e diga que não veio", recorda, aos risos, o ex-artilheiro tricolor.

Na escalação, Paulo Autuori decidiu mexer. Ainda sem Cicinho, que horas antes acabara de vencer a Copa das Confederações pela seleção brasileira contra a Argentina, o São Paulo foi com Souza improvisado na ala direita. Mudança certa, já que o camisa 21 participou do primeiro gol, ao cobrar escanteio para Danilo escorar, e do terceiro, com assistência para Fabão.

Entre os dois gols, saiu o de Amoroso. O placar estava em 1 a 1, quando, a 14 minutos do segundo tempo, Rogério Ceni puxou contra-ataque com as mãos e lançou Júnior.

O lateral partiu em disparada pela esquerda e cruzou para Amoroso, de primeira, estufar as redes de Constanzo. Um lance que coroou a atuação individual do camisa 9 e lhe deu a certeza das vitórias: do time, coletivamente, e sua, individual, nos confrontos com os então jovens Mascherano e Lucho González.

"Nesses jogos, ele [Mascherano] não conseguiu ter sucesso na marcação. Me parava com muita falta. Eu deixava o corpo, caia, adiantava, dava aquela provocada (risos). Ele estava começando a carreira, com uma projeção gigantesca de um grande jogador. Mas quando encontrou comigo, era contra um jogador que tinha certa experiência no futebol europeu."

"Ali já tem os atalhos, as estradas da vida da bola. Não foi muito difícil de ler o jogo naquele momento, de mapear onde eu poderia ser mais importante e fundamental. Depois que eles empataram, eu faço 2 a 1, em seguida vem o gol do Fabão. A gente fez praticamente um jogo perfeito. Foi um dos jogos que o São Paulo fez que nunca um time brasileiro tinha conseguido. A gente ganhou com muita superioridade", opinou Amoroso.

A frase eternizada

A classificação garantida à decisão animou o elenco. A ponto de Amoroso, no desembarque da delegação em São Paulo, já soltar que era hora de mudar o nome do estádio tricolor de Morumbi para 'Morumtri', em referência ao título que, ele tinha certeza, acabaria na galeria de troféus do clube.

Tal declaração foi dada antes mesmo da definição do adversário na final. No fim, o Athletico-PR passou pelo Chivas, do México, e garantiu a primeira final 100% brasileira. Antônio Lopes, técnico da equipe paranaense, até usou a frase de Amoroso como forma de motivar seus jogadores. Hoje, 15 anos depois, o craque não se arrepende.

"Foi logo depois do jogo que a gente classificou, lá na Argentina, que surgiu aquele papo de que já podia mudar o nome de Morumbi para Morumtri (risos). Não sabia quem ia enfrentar, mas já sabia que o título viria para a gente", explicou o ex-jogador.

E veio, de fato, nos confrontos finais contra o Athletico-PR. Na primeira partida, disputada em uma quarta 6 de julho em Porto Alegre, no estádio Beira-Rio, do Internacional, porque a Arena da Baixada, em Curitiba, não tinha a capacidade mínima necessária estabelecida no regulamento, empate por 1 a 1. Na volta, na quinta 14 de julho, goleada por 4 a 0 no Morumbi.

Amoroso também tem memórias da decisão. Mas isso fica para o próximo capítulo...

* Esta reportagem é a quarta de uma série de conteúdos especiais que o ESPN.com.br publicará até 14 de julho sobre a conquista da Libertadores pelo São Paulo em 2005.