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Pelé e um verdadeiro tesouro: a história por trás do 1º álbum de figurinhas da Copa do Mundo, em 1970

Tenho, tenho, tenho, preciso, tenho, preciso. Essas duas palavras em um ciclo aleatório evocam certos sentimentos pelos colecionadores de figurinhas da Panini, especialmente quando se trata de Copas do Mundo. A sensação de ser uma criança (ou adulto) empolgada, contando os dias e minutos para o início do torneio, com uma pilha de figurinhas na mão, negociando suas "trocas" como se sua vida dependesse disso para completar seu álbum, é um sentimento único.

Ao longo dos anos, a coleção de álbuns da Copa se tornou um ritual pré-torneio, agora compartilhado em mais de 120 países, e inclui nomes como Ed Sheeran, Kobe Bryant, Gianluigi Buffon e até políticos de destaque.

A emoção de comprar um pacotinho e encontrar um jogador muito procurado remonta ao primeiro álbum da Copa da Panini que surgiu há 50 anos: México, 1970.

O sonho maluco de uma criança se torna a herança de uma família

Emilio López se lembra vividamente da tarefa de completar o álbum original da Copa de 1970.

No bairro de Mixcoac, na Cidade do México, López foi uma das primeiras pessoas envolvidas no vício da Panini, tentando desesperadamente juntar as figurinhas para completar seu álbum. Pelé, Franz Beckenbauer, Bobby Moore e o atacante mexicano Enrique Borja foram difíceis de encontrar exatamente da mesma maneira que Lionel Messi, Cristiano Ronaldo ou Mohamed Salah são hoje.

O álbum de 1970 custava cerca de dois pesos mexicanos na época, lembra López, com um pacote de cinco figurinhas custando em torno de 20 ou 25 centavos, o que ainda era substancial para uma criança de 10 anos que economizava seu dinheiro para comprar figurinhas e cards (aquele álbum foi uma mistura dos dois).

Avançando rapidamente para a Rússia-2018, um estudo da Universidade de Cardiff estimou que custaria cerca de US$ 1 mil para encontrar todos os 682 adesivos do álbum e completá-lo apenas comprando pacotinhos (a um custo de quase US$ 1 para cada cinco figurinhas). Em reais, cerca de R$ 5 mil o álbum, quase R$ 5 por pacotinho.

Em 1970, assim como hoje, sempre houve maneiras de cortar custos.

"Lançávamos uma moeda ao ar, e foi assim que fizemos para completar o álbum, foi a maneira mais econômica", disse López. Moedas sendo lançadas para decidir o destino das pilhas de "trocas", ou a troca de várias figurinhas por outras muito necessárias foi um dos primeiros truques que as pessoas usaram para completar seus álbuns.

O método que López usou não é muito diferente do de hoje, embora sites como LastSticker e SwapStick, que surgiram para atender a "trocas" globais, facilitem as coisas, assim como a hashtag #gotgotneed nas redes sociais para o álbum da Copa da Rússia.

"Os adultos não têm mais o parquinho da escola, mas o parquinho virtual oferece um número muito maior de trocadores em potencial em todo o mundo", disse Greg Lansdowne, autor de "Stuck on You: The Rise & Fall... & Rise of Panini Stickers", algo como “Grudado em você: Ascensão e Queda... E Ascensão das figurinhas da Panini".

López sabe que o valor do álbum que ele colecionou em 1970 aumentou muitas vezes nos últimos 50 anos. Poderia valer mais de US$ 2,7 mil (cerca de R$ 13.500), dependendo da condição, de acordo com Wouter Waaijer, especialista em itens de colecionador esportivos na Catawiki, site de leilões. Agora, a preciosidade está na posse de seu filho, Fernando (nota: Fernando é editor da ESPN Deportes), e López não considerará vender.

"Tem um valor muito, muito sentimental", disse López.

Nenhum sinal de que o ritmo vai diminuir

O álbum de 1970 era um pouco diferente daqueles com os quais nos acostumamos nas edições recentes, embora a semelhança esteja ali, considerando que já faz meio século desde que foi criado.

"Uma das atrações da Panini, especialmente para colecionadores, é a consistência e o padrão dos álbuns ao longo dos anos", disse Lansdowne. "Em geral, eles se apegaram às fotos tradicionais que vão até os ombros e – ainda mais importante – mantiveram as licenças para a maioria das equipes apresentadas, para garantir uma autenticidade aos seus álbuns."

A primeira página do álbum de 1970 é dedicada à Copa do Mundo do México, com as próximas oito contendo uma breve história de cada um dos oito Mundiais até aquela data, com três dos principais jogadores de cada uma recebendo um card cada. Em seguida, vem a maior parte do álbum que terá uma sensação familiar, com a primeira seleção, o México.

Hoje, cada um dos 32 times – que em breve serão 48, em 2026 – recebe 18 vagas para jogadores, mas, em 1970, apenas México, Rússia, Itália, Brasil, Inglaterra e Alemanha Ocidental tinham 14 lugares para jogadores. As outras 10 equipes recebem apenas 11.

As fotos dos jogadores foram impressas em cards que precisavam ser colados no álbum, com cerca de 40 figurinhas pertencentes a bandeiras, pôsteres e fotos da equipe. No total, havia 288 cards e figurinhas para colecionar, 394 a menos do que no álbum da última Copa.

"Desde a Copa de 1974, eles são totalmente feitos de figurinhas", disse Lansdowne. "Os primeiros escudos 'brilhantes' de um álbum da Copa da Panini não chegaram até 1982."

Enquanto a Panini entra em sua sexta década de fabricação de figurinhas para a Copa, o mercado mostra poucos sinais de que vai desacelerar, com novas avenidas se abrindo fora do torneio masculino. Waaijers diz que o álbum da Copa do Mundo Feminina de 2011 pode se tornar o que o álbum da Copa de 1970 se tornou para os colecionadores de hoje.

"Para resumir: a popularidade do futebol feminino está aumentando muito rapidamente", disse Waaijers, acrescentando que agora existem mais duas edições da Copa do Mundo Feminina (2015 e 2019) e que a edição de 2011 foi vendida apenas na Alemanha.

A ascensão de um império colecionável

A Panini foi fundada em 1961 pelos irmãos Giuseppe e Benito Panini na cidade italiana de Modena, onde ainda está a sede da empresa. O negócio da família começou com a coleção Calciatori / Football Players, com os irmãos saindo de sua empresa de distribuição de jornais. As figurinhas logo se tornaram mais populares que os próprios jornais.

Não foi uma trajetória perfeita para a Panini, mas a empresa agora afirma ser "a líder mundial no mercado de figurinhas colecionáveis", empregando mais de 1.200 pessoas e relatando um faturamento acima da marca de US$ 1 bilhão acima dos 150 territórios em 2018, ano de Copa do Mundo (perto de R$ 3,8 bilhões, em valores da época).

As coisas poderiam ter sido diferentes se os irmãos Panini não tivessem se arriscado. Obter uma licença da Fifa para lançar as três edições (internacional, italiana e inglesa) do álbum de 1970 abriu o caminho para que a empresa se tornasse o que é hoje.

"[O álbum de 1970] foi o ponto de partida para que colecionadores e amantes do futebol tivessem uma alternativa única, diferente e divertida de ter seus jogadores favoritos na palma de suas mãos", disse Francisco Poch, da Panini México, que trabalha com marketing. "A Panini pode ter produzido álbuns para o Campeonato Italiano, mas foi a Copa do Mundo de 1970 que expôs a marca e o produto internacionalmente, onde obteve uma ótima resposta e formou a base para os próximos anos".

Um lance final resulta em uma compra recorde

À primeira vista, o álbum da Copa de 1970 tem muito pouco em comum, em termos de geração ou geografia, com Lorenzo Vandelli, de 12 anos, em Sassuolo, na Itália, mas isso não o impediu de ser o dono da versão mais desejada.

Lorenzo e seu pai, Maurizio, ficaram emocionados quando venceram o leilão em 2017 para um álbum completo da Copa do Mundo de 1970 autografado duas vezes por Pelé, exceto por uma coisa: eles não haviam contado a ninguém da família que planejavam fazer isso. E eles acabaram de quebrar o recorde de um álbum da Panini, gastando 12.038 euros (cerca de R$ 47 mil, de acordo com a cotação do euro para real em dezembro de 2017).

"Nesse momento, nosso problema não era ter vencido o leilão, mas ter que nos justificar com minha esposa e filha", disse Maurizio à ESPN. "Lorenzo disse: 'Não se preocupe, pai. Nós podemos dormir no hotel!'."

Lorenzo, então com 9 anos, conseguiu convencer seu pai a fazer uma oferta final, mas, apesar das despesas, o álbum especial assinado por Pelé e outros craques de 1970 deve ter um valor ainda maior. "Minha expectativa é que o valor [dos álbuns] ainda aumente", disse Waaijer. "Uma vez que você começa a colecionar, quase não há caminho de volta!"

O ‘Santo Graal’ dos álbuns da Panini

Lorenzo é uma espécie de celebridade no mundo dos colecionadores e possui uma coleção que inclui "muitos milhares" de adesivos, vários álbuns completos, uma camisa do Santos usada por Pelé (ele adoraria que fosse assinada) e outras recordações. E ele tem um interesse especial na lenda brasileira, apesar da famosa equipe brasileira de 1970 ter derrotado a Itália na final daquela Copa do Mundo por 4 a 1 no Estádio Azteca.

"Meus amigos dizem que eu sou louco, mas quando tenho as figurinhas na mão, é uma sensação única!", disse Lorenzo.

O leilão do álbum assinado por Pelé chamou a atenção da mídia internacional – foram recebidas ofertas de 17 países diferentes –, e o álbum se tornou o mais caro da história, o que era previsto, mas era algo que a Catawiki não estava totalmente preparada para que acontecesse.

"Eu esperava que muitos colecionadores desejassem este álbum, e foi incrível que o vendedor confiasse em nossa 'gama de colecionadores' ao oferecer esse álbum sem um preço mínimo", disse Waaijer. "Mas eu não esperava a atenção de dezenas de jornais e canais de televisão internacionais e nem podia sonhar que agora, em 2020, ainda seja o álbum mais caro da história da Panini e do mundo".

Eu troco o meu Pelé pelo seu Egwuekwe

Finalmente, essa matéria não poderia ser escrita sem perguntar para a Panini sobre o debate de 50 anos que une (ou divide) todas as gerações de colecionadores: a empresa realmente produz menos figurinhas de jogadores como Pelé, Johan Cruyff ou Cristiano Ronaldo do que Igor Belanov, Egidio Arévalo ou Azubuike Egwuekwe?

"A Panini produz a mesma quantidade de figurinhas de cada jogador ou escudo, seja para uma Copa do Mundo ou qualquer outra coleção", disse Poch, da Panini México.

Ele argumenta que os jogadores populares, como Messi, sempre têm alta demanda e podem ser usados em computadores, paredes e telefones celulares, e não no álbum, fazendo parecer que há menos deles por aí.

"É a demanda que provoca a ideia de que alguns jogadores ou escudos são mais complicados de conseguir. Isso faz parte de colecionar", acrescentou.

Há pouca chance de que esse debate em particular seja resolvido com tanta facilidade, mas isso faz parte da nostalgia e da diversão de cinco décadas de “tenho, tenho, preciso, tenho, preciso”...