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Arsenal: A história de Bernd Leno, alemão que trocou a meia pelo gol, aprendeu com ídolos e hoje dá segurança à reformulação do time

Se tudo, absolutamente tudo, der errado. Se todos os jogadores de meio-campo estiverem ausentes, Mikel Arteta, além de poder entrar no gramado, terá uma outra carta na manga para tentar controlar o jogo e fazer a bola rolar no setor de maior criatividade do Arsenal: o goleiro Bernd Leno. Mas mantenha a calma! O departamento do médico não está tão lotado assim.

Leno é natural de Bietigheim-Bissingen, uma cidade com pouco mais de 40 mil habitantes, no Sul da Alemanha, vizinha de Stuttgart. O número baixo de habitantes da cidade chega a surpreender pela riqueza cultural e de eventos que ela recebe ou recebeu. Uma cidade que sofreu destruições, incêndios, guerras e se recuperou para ser novamente reconstruída. Hoje acolhe diferentes modos de pensar. Por lá, além de Leno, nasceram Shindy, RIN e Bausa, expoentes do rap alemão. Quem nasce ou vive em Bietigheim-Bissingen se acostuma desde cedo a valorizar a vida na cidade e a conviver com culturas diferentes.

Os primeiros passos de Leno no futebol foram como jogador de linha. E no meio-campo. Dá até para imaginar o desespero naqueles meninos de nove ou dez anos quando, pouco antes de a bola rolar, o goleiro ainda não tinha chegado ao estádio. Leno, ainda um pequeno cidadão de Bietigheim-Bissingen e acostumado a se reinventar, não teve dúvida e apresentou a sua candidatura ao cargo. Do gol ele nunca mais saiu.

Sair do SV Germania Bietigheim para tentar jogar na base do Stuttgart era o próximo passo. Pense bem: Leno havia trocado de posição há um ou dois anos e já estava em testes em um clube grande, disputando uma vaga contra outros 100 meninos. Parecendo não conhecer o que significa a palavra medo, ele agarrou a oportunidade.

O tempo ia passando. Aos 16 anos, Leno já participava de treinamentos com os goleiros do time principal. Ele estava, de novo, na hora certa e no lugar certo. Coincidência ou não, o titular do Stuttgart era a lenda dos Gunners Jens Lehmann, ele mesmo. O goleiro dos Invincibles, daquele Arsenal maravilhoso. Foi justamente ali que Leno passou a entender um pouco mais sobre o gigantismo do clube londrino.

Outro filho da cidade, o rapper Shindy, ganhou espaço nacional gravando uma música que se tornou tema da seleção na campanha da Eurocopa 2012. “Finale wir kommen”, que quer dizer algo como "Final, estamos chegando", é uma música que exalta a força do futebol alemão, da confiança no trabalho que estava sendo feito e no orgulho de torcer por aqueles jogadores. A Alemanha acabou sendo eliminada pela Itália. É bem verdade que as lições foram muito bem assimiladas, e os alemães, dois anos depois, venceram a Copa do Mundo. Leno acompanhou a campanha de longe. Na época da Euro, ele havia conquistado outro objetivo e já era titular do Bayer Leverkusen.

A chegada dele no Leverkusen foi desafiadora. Foi chegar e jogar. E logo no primeiro mês o calendário já mostrava um jogo pela Champions League contra o Chelsea, que na época tinha Petr Cech no gol. Leno mais uma vez foi brilhante. Cech, já consagrado, do alto de sua importância, caminhou até o menino e falou que estava empolgado com sua atuação e sua carreira. Quem diria que, anos mais tarde, os dois fossem dividir o vestiário do Arsenal?

Veio em outubro de 2015 a primeira convocação para defender a seleção. Leno deve ter celebrado o nome da lista. Mas dois dias depois, pelo Campeonato Alemão, ele cometeu o que talvez tenha sido o maior erro de sua carreira: acabou fazendo gol contra em uma partida contra o Augsburg. O placar final, 1 a 1, foi cruel com o jovem goleiro. Claro que ninguém vai se lembrar que, naquele mesmo jogo, Çalhanoglu perdeu um pênalti que daria a vitória ao Leverkusen e mais paz ao jovem goleiro.

Um filho de Bietigheim-Bissingen parece ter mais chances de se reconstruir, e Leno soube como dar a volta por cima.

Hoje, o time treinado por Arteta tem uma proposta diferente e tenta dar passos em busca da retomada da era de conquistas. O treinador sabe que pode contar com Leno iniciando bem com os pés as jogadas e o goleiro, que um dia trabalhou com Lehmann e Cech, sabe o tamanho do clube e de desafios ele não costuma ter medo. Com as mãos ou com os pés.