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Ele superou a morte do irmão, o vício em apostas e os fantasmas pessoais para se reencontrar na Premier League

Aos 19 anos, ele realizou o sonho de jogar com a camisa do Tottenham, clube do coração dele e de toda a família. Aos 22 anos, jogou uma partida oficial pela seleção da Inglaterra. Foi chamado de “garoto de ouro” e realizou outro grande sonho. Entretanto, para Andros Townsend, apenas aos 28 anos ele começou a buscar paz.

O jovem Townsend amava futebol e tinha um grande ídolo que, à época, dava seus primeiros passos como futebolista no Wimbledon: Kurtis Towsend. Andros adorava ver Kurtis jogar. Ele era uma criança de 10 anos e tinha o irmão mais velho como referência, ídolo e herói. O sonho de Andros era jogar no Tottenham ao lado de Kurtis.

Um acidente de carro acabou fazendo Andros conviver com uma dor que nunca foi curada. Kurtis tinha 18 anos. O irmão mais novo não perdeu só o sonho, ele perdeu quase tudo o que aquela criança tinha.

O esporte era mesmo o caminho. Basquete, atletismo e, especialmente, o futebol. Townsend se destacava, e os amigos sabiam que ele não se conformava com a derrota, sua competitividade chegou até a ser confundida com arrogância durante um bom tempo.

Townsend teve muita dificuldade no início da carreira. Não foram poucos os empréstimos e quase sempre jogando em times que viviam dificuldades financeiras e estruturais. Foram oito clubes diferentes em quatro anos. Era o momento de suar, de aprender e de se conhecer da pior forma. A batalha por espaço era desgastante e Townsend, competitivo, não se permitia beber, fumar ou mesmo sair para dançar. Na cabeça de Townsend estava a competição, e ele ficou viciado em apostas. Chegou a perder R$ 253 mil em uma única noite.

Andros Townsend não conseguia parar de apostar e acabou sendo pego pela FA, entidade que dirige o futebol na Inglaterra. A punição foi até branda. Ele chegou a pensar que seria impedido de jogar futebol, mas ficou afastado por apenas quatro meses e ainda pagou uma multa.

A era de empréstimos parecia ter terminado. Townsend se tornou titular nos Spurs e também na seleção, mas a cabeça ainda remoía as derrotas pessoais. Após mais uma discussão com um membro da comissão técnica, Townsend viu que o tempo de Tottenham poderia estar perto do fim. Doeu. Ele sentiu o fim de uma relação que era cultivada em toda a família.

A passagem pelo Newcastle foi até boa, mas o time acabou rebaixado. A mãe de Andros já havia percebido que ele precisava de ajuda. Partiu de Katerina o desejo de encontrar apoio psicológico para o filho. Os pais de Townsend sempre apoiaram sua carreira.

Troy Townsend começou como voluntário na Kick It Out, uma organização com diversos projetos na educação e que luta pela igualdade e inclusão, combate ao racismo e à homofobia, além de buscar o diálogo com clubes de futebol e outras entidades. Hoje Troy é um dos líderes da entidade e viaja o país dando cursos e apoiando jovens jogadores e clubes.

Troy foi jogador de base do Crystal Palace e hoje vê seu filho repetindo os seus passos. No Palace, Andros Townsend tem a oportunidade de ser feliz e de conviver novamente com Roy Hodgson, o mesmo técnico que um dia o levou para a seleção da Inglaterra pela primeira vez.

Já são quatro temporadas no Selhurst Park. Andros Townsend talvez não tenha mais a mesma velocidade, mas ele ainda sabe o que fazer para ativar a potência de sua perna esquerda. Ele tem no corpo as marcas das muitas contusões que conheceu no futebol. Também guarda no coração a saudade de seu ídolo e irmão Kurtis. Outra coisa que agora ele parece ter percebido e que não dá para abrir mão é o desejo de ser uma pessoa melhor. É bem possível que o Palace ganhe com isso.