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Enfim, o lar doce lar de Manga no Retiro dos Artistas

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Retiro dos Artistas: conheça o lar da vida, que agora vai receber o 1º ex-jogador de futebol (13:05)

Manga, ex-goleiro de Sport, Botafogo, Internacional, seleção brasileira e outros tantos times, é o protagonista desta história (13:05)

O sonho da casa própria não se realizou da noite para o dia, mas, diante da pandemia, podemos dizer que até foi rápido. Foram 2 meses e 16 dias do encontro com o ídolo até a grandiosa transformação da vida dele.

Muita coisa aconteceu desde a ida da reportagem da ESPN ao Equador para buscar o ex-goleiro Manga para a realização de um sonho no Brasil à entrada dele para morar em uma casa nova do Retiro dos Artistas. A pauta era viajarmos até Quito para contar a história de um senhor, um monstro das traves, que andava esquecido em uma cidadezinha chamada San Antonio de Pichincha, região metropolitana da capital. Nossa intenção era mostrar como vivia o pernambucano que há 40 anos havia trocado o Brasil pelo Equador.

Haílton Corrêa de Arruda estava com 82 anos, iria completar 83 em 26 de abril, data escolhida, por causa dele, como o Dia Nacional do Goleiro, celebrada desde 1976.

A motivação era trazê-lo para o país natal para a realização de um sonho: Manga queria assistir a um jogo e ser homenageado pela torcida do Botafogo. Ao seu lado, sua esposa há 42 anos, Maria Cecília Cisneros.

A história começou quando Manga foi entrevistado, ainda no Uruguai, pelo sociólogo Paulo Escobar. Até então, ninguém havia pensado em de alguma forma “repatriar” o ex-jogador.

A pauta era essa, repatriar Manga para a homenagem. Acontece que tudo mudou a partir da minha chegada com o repórter cinematográfico, Fábio Lonardi, à casa de Manga, em 10 de março, um dia antes de a pandemia ser anunciada mundialmente.

A ansiedade era enorme e nada poderia dar errado, já que a ESPN investiu para que a reportagem-documentário fosse feita com sucesso. Mas o sucesso foi muito além do que pudéssemos imaginar, um verdadeiro roteiro de filme. E dos bons.

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13:05

Retiro dos Artistas: conheça o lar da vida, que agora vai receber o 1º ex-jogador de futebol

Manga, ex-goleiro de Sport, Botafogo, Internacional, seleção brasileira e outros tantos times, é o protagonista desta história

O primeiro encontro

Na primeira entrevista em terras equatorianas, o ídolo de muitas gerações começou a chorar. Além de enfrentar uma grave crise financeira - Manga perdeu tudo que tinha -, o velho arqueiro das mãos tortas estava se recuperando de uma cirurgia para a retirada da próstata, realizada no fim do ano passado, no Uruguai. Todo o procedimento foi bancado pelos torcedores do Nacional, onde o brasileiro foi campeão da Libertadores e do Mundial Interclubes, em 1971.

Frágil e emocionado com a visita de uma equipe de reportagem do Brasil, o velho Manga, logo no começo do papo, confessou: “Meu sonho, na verdade, é voltar a viver os meus últimos dias da minha vida e da minha esposa no Brasil. Pode ser em Porto Alegre ou no Rio de Janeiro, onde ficaria próximo à torcida do Botafogo. Eu preciso de ajuda”, disse, extremamente emocionado.

Em horas como essa eu duvido que exista um ser humano, muito menos um jornalista, que não se comova com esse depoimento dilacerante. Neste momento, não tem como fechar os olhos e os ouvidos, não tem como ficar isento ao drama vivido por um ídolo do esporte brasileiro.

Um anjo botafoguense

No jornalismo, muitos dizem que a gente não pode se envolver nas histórias, mas se isso é regra, confesso que sou um tremendo contraventor. Aprendi com mestres como José Trajano, Roberto Salim e Helvídio Mattos que a ferramenta que temos nas mãos, aliada à nossa profissão, pode transformar vidas.

No caso de Manga, a única coisa que me veio à cabeça foi ligar para o Retiro do Artistas e pedir um auxílio, quem sabe um “sim” do fantástico ator e ser humano Stepan Nercessian, presidente da entidade.

Mandei um áudio para Cida Cabral, coordenadora da instituição e braço direito de Stepan, contando exatamente o que tinha ouvido de Manga há instantes. Ela respondeu que levaria o caso para Stepan, mas já adiantava que o Retiro nunca havia recebido um ex-jogador, mas que logo retornaria com uma resposta.

Em 12 de marco, dia da nossa viagem com Manga e Cecília para o Brasil, chega uma mensagem de voz do Stepan: “Marcelo, a Cida me contou a história do Manga. Quero lhe dizer que nós estamos de braços e portas abertas para receber o casal para vir morar com a gente aqui no Retiro do Artistas. É só marcar o dia para a gente recepcioná-los”, declarou, como se fosse um poema de punho, Stepan.

A notícia veio como um gol, sei lá, de um título mundial de qualquer coisa, mas grandioso e indescritível. Não era apenas o resultado de uma reportagem, e claro que todo jornalista vibra com isso, mas o significado era outro, pois se tratava de um resgate, uma repatriação de um ícone do esporte.

Era o resgate não só de um homem que deu muitas alegrias a multidões de torcedores, mas de uma memória vivíssima do nosso futebol. Provavelmente os deuses da bola e outros tantos fãs de Manga que já se foram possam ter ajudado a nossa equipe a entrar no caminho do anjo das mais variadas artes, Stepan Nercessian, um homem engajado a preservar os nossos ídolos do passado e, principalmente, aqueles que estão vivos sob sua administração e admiração no Retiro.

Stepan abraçou e entendeu a importância de se estender a mão a um ídolo sem julgá-lo, e sim, contemplá-lo. Se não fosse o Anjo do Retiro possivelmente essa história não teria os personagens com saúde impecáveis para finalizar esse belo conto da vida real. Se permanecessem no Equador, sem dinheiro e sem plano de saúde, Manga e Cecília estariam correndo sérios riscos de perder a vida.

A casita dos sonhos

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Toda essa história será contada em um documentário que irá nos canais ESPN, assim que a pandemia acabar. Na série de reportagens especiais “A última cartada de Manga”, acompanharemos todos os detalhes das gravações feitas no Equador e no Rio de Janeiro.

Hoje, a prioridade não é o documentário, e sim o dia em que Manga pôde, ao lado de sua amada Cecília, entrar e estrear a casa nova. Reformada, a casita com tudo novinho poderá dar ao casal a dignidade aos dias que lhe restam.

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O que deve se comemorar, no dia 26 de maio, exatamente um mês após o aniversário de Manga, é o retiro que ele conquistou, lá atrás, brilhando no Maracanã onde fez mais de 300 jogos, nos 20 títulos conquistados em quase 10 anos de Botafogo.

Um presente para ser vivido intensamente ao lado de artistas como ele foi, um astro da bola, um símbolo a ser respeitado por todos. Que a vida seja bela nesse Retiro merecido.

Sonhos e solidariedade

Foram 2 meses e 16 dias até que o ex-jogador pudesse, enfim, entrar definitivamente na tão desejada casita, como ele mesmo a chamava.

Mas é bom que todos olhem para a instituição, o Retiro dos Artistas, com olhos mais solidários e caridosos. Acontece que por lá, antes mesmo da pandemia, a instituição presidida há 22 anos pelo ator Stepan Nercessian já acumulava um déficit mensal de R$ 30 a 40 mil. A COVID-19, além de trazer a preocupação com a saúde dos mais de 52 residentes, por causa de suas avançadas idades, também tem castigando as contas, com o êxodo de doações.

Os custos são grandes para manter funcionando a entidade, que conta com profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e nutricionistas, à disposição dos moradores, além das cinco refeições que eles têm diariamente.

Aliás, além do apoio financeiro, o Retiro necessita de voluntários para que as ações artísticas, sociais e humanitárias ganhem ainda mais força. Difícil descrever o lugar e a energia que rolam sem visitar e conhecer o local.

Marque uma visita, claro, após a pandemia, no novo Retiro de Manga e de outras milhares de estrelas que brilharam por lá em mais de 100 anos de história. Entre também no site http://retirodosartistas.org.br/ e e saiba como ajudar com dinheiro, atenção, doações e carinho.

E que Manga e Cecília sejam muito felizes nesse tão sonhado Lar Doce Lar.