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A solidariedade dá sobrevida a Manga e ao Retiro dos Artistas

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Retiro dos Artistas: conheça o lar da vida, que agora vai receber o 1º ex-jogador de futebol (13:05)

Manga, ex-goleiro de Sport, Botafogo, Internacional, seleção brasileira e outros tantos times, é o protagonista desta história (13:05)

A história que será contada agora bem que poderia ser o roteiro de um filme, mas, não, é a pura realidade e graças ao jornalismo.

O início de tudo foi em janeiro. Duurante as férias recebi um vídeo de um amigo via WhatsApp com uma gravação do sociólogo Paulo Escobar, colaborador do “Museu da Pelada”, com o Manga, ex-goleiro de Sport, Botafogo, Internacional, seleção brasileira e outros tantos times.

Manga fazia um pedido à torcida do Botafogo no vídeo. Desejava, antes de morrer, fazer uma viagem ao Rio de Janeiro para assistir a um jogo do clube da Estrela Solitária, pelo qual jogou por quase dez anos e conquistou 20 títulos.

Na época da gravação, Manga se recuperava de uma cirurgia na próstata, em Montevidéu, no Uruguai.

A operação só foi possível por causa de uma ação nobre e coletiva dos torcedores do Nacional, do Uruguai, equipe onde o brasileiro conquisotu títulos como a Copa Libertadores o Mundial de Clubes de 1971. Foi uma lição de coletividade.

Para ser sincero, foi algo jamais visto com um ídolo do futebol no Brasil, pelo menos nas minhas lembranças de jornalista.

Os uruguaios deram o exemplo. E que exemplo. Por iniciativa deles, arrecadaram a quantia necessária para operar um senhor de 82 anos, proporcionando qualidade à saúde dele e esperança para novamente ele ter dignidade nessa reta final da vida.

Aqui no Brasil, além do “Museu da Pelada”, que resgatou parte de sua grandiosa história, outros jornalistas enalteceram não só sua trajetória futebolística como também o drama de vida de Manga, em parte resolvido pelos amigos uruguaios, ávidos em respeitar e preservar a memória dos seus heróis esportistas. Lindas reportagens realizadas pela “Folha de S.Paulo”, pelo “Blog do PVC” e pelo “Esporte Espetacular”, da TV Globo, me despertaram a missão de trazer o ídolo ao Brasil para concretizar, talvez, o último pedido dele.

Mas a concretização desse sonho não era tão fácil de realizar. Manga e sua esposa Maria Cecilia já tinham voltado para Quito, no Equador.

Confesso que assistindo de longe a mobilização dos vizinhos uruguaios me bateu uma certa dor de cotovelo e logo me veio à cabeça o desejo de tentar fazer igual, ou melhor, tentar mobilizar, por intermédio da minha profissão o maior número de pessoas que pudessem ajudá-lo.

No início dessa jornada entramos em contato com o Botafogo, a fim de tentar uma parceria, mas a resposta foi:

“O Manga é um dos maiores ídolos do clube, mas estamos com dois meses de salários atrasados e é inimaginável ajudar a custear a vinda dele ao Brasil. O Botafogo poderia ajudar numa homenagem, agendando uma visita a um treino e uma visita a um jogo, no qual ele pudesse ser ovacionado pela torcida, no estádio Nilton Santos”, disse um funcionário do clube à nossa reportagem.

Aqui começava um trabalho de convencimento jornalístico junto à chefia de redação dos canais ESPN.

A produtora Clara Gomes fez vários tipos de orçamento até chegar a um valor viável para que fossemos encontrar Manga.

Com a aprovação e a sensibilidade da chefia, seguimos, eu e o repórter cinematográfico Fábio Lonardi, para Quito. Saímos de São Paulo no dia 9 de março. Nosso voo tinha uma escala prevista na Cidade do Panamá.

No dia seguinte, já em solo equatoriano, encontramos o nosso entrevistado numa cidade vizinha a Quito.

Encontramos Manga numa casinha sustentada pelo enteado Yoryi, filho mais velho de Maria Cecilia.

Curioso. É diferente encontrar um ídolo, mas fora do Brasil, é muito mais. Chega a ser emocionante, parece até que estamos marcando um golaço, um sonho para todo jornalista inquieto e garimpeiro de grandes histórias.

Confesso que logo de cara a voz ficou embargada, os olhos supermarejados. Foi impossível conter a emoção. Estávamos cara a cara com um dos mais brilhantes goleiros do mundo.

Sabia que a situação financeira do casal não era das melhores, sabia que ali, com o perdão do trocadilho, nossa entrevista daria muito pano pra manga. E como deu.

De tudo que falamos ali, naquela entrevista e, que logo assistiremos na nos canais ESPN, uma resposta do Manga desviou completamente o foco inicial da reportagem.

Depois de ouvir tantas histórias deliciosas que o tempo certamente não apagará, de repente, numa pergunta que faço, Manga desaba a chorar.

Perguntei por que ele achava que os torcedores deviam o ajudar, já que ele um dia foi muito famoso e acabou se perdendo financeiramente na aposentadoria. Chorando como se fosse uma criança, Manga falou das glórias, das alegrias que deu aos torcedores e que não estava pedindo milhões em ajuda, mas sim uma oportunidade de voltar a morar e terminar a sua vida, ao lado da esposa, no Brasil.

A verdade é que aquela cena, aquele pedido, me deixaram muito comovido e pensante, tanto que ao final da entrevista, sem pestanejar, mandei uma mensagem para a administradora do Retiro do Artistas, Cida Cabral. Contei toda a história de Manga e Cecília, que estavam passando sérias dificuldades financeiras no Equador, disse que logo o único filho que ainda morava no país iria embora e que o casal sonhava viver os últimos dias da vida no Rio de Janeiro, perto do Botafogo e perto de um filho que Manga deixou de ver e conviver há mais de 40 anos.

De cara Cida respondeu que a missão não seria fácil, mas que levaria o caso para o ator Stepan Nercessian, um botafoguense roxo, presidente do Retiro dos Artistas há 20 anos.

A resposta veio três dias depois, quando estávamos indo para a casa de Manga buscar o casal para a tão sonhada viagem de volta ao Brasil. E, claro, muito feliz com o sinal verde do Retiro, guardamos segredo para os dois que só vieram a saber da notícia na manhã de 16 de março, um dia pra lá de emocionante e especial que separamos com exclusividade para os fãs de esportes, leitores dessa reportagem do ESPN.com.br.

Depois da casa, outras batalhas...

Com a notícia da casa garantida para o casal, começava uma outra batalha, essa mais fácil e mais engajadora e surpreendente.

Para que Manga pudesse viver no Retiro, como o primeiro ex-jogador da instituição, era preciso ser realizada uma força-tarefa para reformar e mobiliar a casa. Era preciso ser feito uma mobilização, uma vaquinha, para que o sonho definitivamente se realizasse.

Acontece que, quando a imprensa brasileira ficou sabendo que o Manga estava no Brasil, muitos jornalistas me procuraram para ajudar/fazer entrevistas. O doido dessa história é que, por mais que nós repórteres não devamos nos envolver na vida dos personagens, chega uma hora que é inevitável. Não tem como não misturar as coisas. E, no caso do Manga, pior ainda, pois a questão humanitária não estava apenas nas lágrimas que ele despejou, como também no fato de sabermos que o casal veio para o Brasil com apenas uma nota de 10 dólares.

O dinheirinho foi dado por uma das netas de Maria Cecilia antes de embarcar para o Brasil.

Pensando nessa ação coletiva e no papel fundamental do jornalismo que, além de informar e educar, também pode ser uma ferramenta na transformação de vidas, encarei o papel de assessor de um cara que deixou de brilhar nos campos e ganhar dinheiro há quase meio século.

Portanto, sem esconder o ex-goleiro, fruto da especulação de muitos profissionais que só querem vender a desgraça alheia, propus a cada jornalista que o procurava para que nos juntássemos, independente de bandeira, empresa ou concorrência, que entrássemos junto na campanha para reformar e mobiliar a casa que Manga havia adquirido na Casa dos Artistas.

Para isso, contamos com um parceiro, um torcedor fanático do Botafogo, no Rio de Janeiro. O músico Léo Russo usou suas redes sociais para divulgar a causa junto a outros tantos torcedores do Botafogo, enquanto eu, em quarentena, já de volta a São Paulo, mobilizava amigos jornalistas para ajudarem por intermédio de suas reportagens não só o Manga mas também o Retiro dos Artistas, instituição centenária.

Deu certo, pois vários amigos conseguiram publicar em suas reportagens o pedido para que ajudassem o ex-goleiro e o Retiro.

Foi uma vitória da união dos jornalistas como PVC, do grupo Globo, dos amigos do SBT, do repórter Vanderlei Lima, do Uol, da Ana Beatriz Venceslau, do Correio de Pernambuco, do Fred Gomes e do Thyuan Leiras, do Globo.com, como outros tantos companheiro de profissão que, além de generosos foram corajosos em divulgar, não só as causas como a conta bancária do Retiro para que as pessoas pudessem contribuir.

Por que essa campanha para o Retiro?

A resposta parece ser mais simples do que se imagina. Para entender o trabalho fantástico que é realizado por lá, aconselho que você vá ao local, visite a instituição e veja de perto a vida que existe e que é muito valorizada por lá.

Estive no Retiro dos Artistas no ano passado, quando, ao lado do jornalista Rafael Valente e do repórter cinematográfico Marcelo D’Sants, fizemos uma reportagem especial contando a história do jornalista Sérgio Noronha, um dos primeiros repórteres não-artista a ser acolhido por lá.

Na época, conhecemos vários residentes, entrevistamos a cantora Leny Andrade, uma moradora entusiasta daquela cidadezinha com 52 idosos que tantas alegrias nos deram no cinema, na música, no teatro, no circo ou na televisão.

A verdade é que ali, inspirado pela força que o ex-árbitro e empresário Arnaldo Cézar Coelho deu a Ségio Noronha, reformando a casinha dele e pagando duas cuidadoras para o Sérgio, fiquei com essa atitude generosa na cabeça.

Aliás, se fosse rico, acredito que, sozinho e sem alarde teria resolvido a vida do Manga, da Maria Cecilia e do Retiro sozinho.

Mas como sou apenas um jornalista que não deixa de sonhar com um mundo melhor para todos, deixo aqui uma outra inédita entrevista que fizemos com o ator Stepan Nercessian e sua braço direito, Maria Aparecida Cabral, para falarem de gente, coletivo, humanidade, amor e apoio que nunca é demais para uma instituição que nunca fecha a conta com o que gasta e arrecada, por intermédio de muitos anônimos e outros famosos com o brilhante Caetano Veloso.

Assistam e se puderem visitem um local que sempre sente a falta de apoio financeiro, mas nunca de amor ao próximo. E para quem quer ajudar, mesmo que a distância, não é difícil. Eles recebem doações pelo Bradesco (agência 2957-2; conta corrente 2720-0; CNPJ 39.140.264/0001-86).

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Retiro dos Artistas: conheça o lar da vida, que agora vai receber o 1º ex-jogador de futebol

Manga, ex-goleiro de Sport, Botafogo, Internacional, seleção brasileira e outros tantos times, é o protagonista desta história

Lar doce lar…

A saga do grande Manga está próxima do ato final, ou seja, do final feliz na casinha dos artistas onde poderá receber a visita de seu único filho, Wilson, um biólogo de 56 anos que, como o pai, passa por dificuldades financeiras e está a procura de um emprego.

Manga tinha passagens marcadas para voltar a Quito há mais de uma semana. Lá, ele buscaria algumas mudas de roupa e daria um abraço no filho e nas netas de Cecilia para em seguida, mais ou menos lá pelo fim de abril, meio de maio, regressar em definitivo para o Rio de Janeiro.

Acontece que, por causa da pandemia mundial do novo coronavírus, Manga não pôde embarcar para Quito, pois no dia da volta, marcado para 17 de março, o governo equatoriano fechou o aeroporto de Quito e as fronteiras.

Manga está no Brasil, em um hotel de São Paulo com a esposa Cecilia, em quarentena preventiva. Está bem cuidado por nós, que nos responsabilizamos pela vinda dele ao Brasil.

Essa pandemia mundial é apenas mais um obstáculo na dura vida de um goleiro que nos ensinou muito ao se jogar contra os atacantes, sempre com o intuito de defender suas cores, sua bandeiras.

Já a lição que aprendemos com essa repatriação do ídolo brasileiro é: no coletivo é muito mais bonito e prazeroso vencer os jogos e os desafios da vida.