Em 16 de maio de 1992, a cidade de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, comemorava a reinauguração do estádio Professor Dario Rodrigues Leite. Era lá que a tradicional Esportiva mandava seus jogos.
Muito influenciado pela imigração italiana para a região, o município escolheu o Palmeiras para ser o adversário daquela festa.
E a fácil vitória por 4 a 0 - gols de Toninho Cecílio, Biro, Marcinho e Edu Marangon - seria apenas nota de rodapé, não tivesse alinhado neste dia, pela primeira vez como titular, um jovem goleiro Marcos.
Há 28 anos, sem que ninguém no estádio soubesse, começou ali um dos capítulos mais importantes dos mais de 105 anos da história alviverde.
“Eu costumava brincar que ele só foi o que foi no Palmeiras porque estreou comigo à sua frente, na zaga”, disse ao ESPN.com.br Toninho Cecílio, camisa 3 do Verdão naquela noite.
A ligação de Toninho com Marcos é curiosa. Além da estreia, ele, por coincidência, foi o diretor de futebol responsável pelo último contrato de Marcos como atleta do Palmeiras, assinado em 2008. E técnico do Avaí, na última partida do arqueiro como profissional - 1 a 1, em 18 de setembro de 2011.
Ao seu lado naquele noite em Guaratinguetá, Toninho tinha a companhia do xará Tonhão.
“Foi um jogo normal para a gente, mesmo também tendo sido uma das minhas primeiras chances. Do Marcão, me lembro muito, do dia-a-dia do clube. Não dava para imaginar que aquele jogo ia ser tão importante”, diz Tonhão.
Mudou pouco
Marcão mudou pouco ao longo da carreira, dizem os ex-colegas. Era apenas mais tímido e cabeludo, mas já era brincalhão.
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“Nos treinos, dava para ver que ele ia estourar, porque era muito grande e ao mesmo tempo muito ágil”, lembra-se Toninho, que foi uma espécie de cicerone na chegada de Marcos ao clube - trocado por um saco de chuteira, como ele gosta de dizer -, e até lhe deu algumas caronas.
“Era algo que eu fazia sempre, como capitão, apresentar para os funcionários e o elenco, e fiz com ele”, conta.
“Por ser o quarto goleiro, ele era o cara que completava os treinamentos, quando precisava de alguém no gol para um trabalho de posicionamento ou finalização”, diz ele. Carlos, então na seleção brasileira, César e Sérgio estavam à sua frente.
Tonhão também se lembra do Marcos iniciante, nos trabalhos da Academia de Futebol.
“Uma coisa que eu não esqueço é que o Evair ficava depois do horário treinando pênaltis e cobranças de faltas. E normalmente era o Marcão que ficava treinando com ele”, conta Tonhão.
Isso talvez explique a enorme capacidade que a dupla, um cobrando, o outro defendendo, tinha nas penalidades.
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Bronca e gargalhada
Quando Toninho retornou ao clube, em 2007, como diretor de futebol, o status de Marcos já era outro. De quarto goleiro, ele já tinha se tornado o “dono do time”.
“Mas era o mesmo cara. Falava um pouco mais, brincava um pouco mais, mas era o mesmo cara. Tivemos uma relação muito boa”, conta o ex-diretor.
Mesmo assim, graças a língua afiada do goleiro, que gostava muito de dar declarações explosivas após derrotas doídas, houve algumas rusgas. Uma, em especial, ficou marcada.
“Foi a única vez que a temperatura subiu entre a gente”, diz.
“Eu peguei todo grupo, sem técnico sem nada, e comecei a falar. E ainda disse ‘Marcão, se você não gostar do que eu vou falar, eu sei que quem sai do clube sou eu, mas eu vou falar’”, conta Toninho, que se preparava para o pior.
Na ocasião, o diretor dava uma bronca após o goleiro ter deixado o campo reclamando de companheiros em uma jogada, depois de uma derrota. As declarações foram muito repercutidas.
Toninho conta que pediu a ele para dar uma respirada antes de dar entrevistas, esperar chegar ao vestiário para dizer algumas coisas, dar uma esfriada. Porque isso teria o mesmo efeito nos colegas e não daria munição para polêmicas. O clima estava tenso.
“Eu até dei razão a ele pela reclamação na época, mas eu tinha que dizer aquilo”, conta o ex-diretor.
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“Aí, ele pediu a palavra, e ninguém sabia o que viria. Então, ele levantou e falou: ‘Você quer saber de uma coisa, Toninho? Você está completamente certo! Eu vou me esforçar”.
A reação espontânea e humilde do jogador fez com que o grupo inteiro caísse na gargalhada.
“O Marcão era assim, ele falava algumas coisas sem pensar, mas era o primeiro a colocar o grupo para cima em caso de derrota, incentivava, dava força”, diz Toninho.
“Era difícil para um jogador como ele aceitar algumas derrotas, com a rodagem que ele tinha, com o nome dele. Mas ele só queria que o Palmeiras ganhasse. Era o que interessava para ele”, diz.
O Plano Marcos
Foi ainda em 2007 que Toninho começou a perceber Marcos um pouco mais inquieto que o normal e até oscilando em algumas partidas.
Preocupado com a maior estrela do seu elenco, o diretor decidiu colocar em prática o que chamou de “Plano Marcos”.
“A minha ideia era melhorar a vida dele de um modo geral, para que ele rendesse mais e ficasse feliz de jogar no Palmeiras”, conta.
Toninho então costurou três frentes.
Com o financeiro, pediu uma revisão do contrato com aumento e idealizou um acerto de três anos que, ao fim, dava ao jogador uma opção automática de renovação, com diminuição salarial, para seguir no clube em uma função fora das quatro linhas.
“Aí ele poderia escolher, se seria um dos preparadores de goleiro, auxiliar-técnico ou qualquer outra função”, conta Toninho. Em 2012, ele se tornou embaixador do clube, sob esse acordo.
À psicóloga Regina Brandão, pediu que se aproximasse mais do jogador, que sofria com dores, lesões, longos períodos sem jogar e os desgastes naturais da profissão.
E ao preparador de goleiros Cantarelle, sugeriu uma carga diferente de treinos, com mais dias de descanso em alguns momentos. O profissional gostou da ideia e aplicou.
“E deu certo, porque ele ficou mais calmo, mais feliz, e fez excelentes jogos em 2008 e 2009, conquistando o Paulista”.
Toninho, aliás, conta que o principal responsável pela volta de Marcos à titularidade, depois de 11 meses afastado por lesão, entre 2007 e 2008, foi o atual técnico do clube, Vanderlei Luxemburgo, que também comandava o Palmeiras na época.
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“O Diego Cavalieri estava arrebentando, mas o Vanderlei fez questão de voltar com o Marcos”, conta Toninho.
“Ele volta contra o Guaratinguetá, da cidade do primeiro jogo dele, em São José do Rio Preto. E toma três gols, o Palmeiras, perde por 3 a 0. E ele acaba criticado por parte da imprensa que diz que ele falhou em alguns lances. E ele falha mesmo”, lembra-se Toninho.
“Mas o Vanderlei bancou ele. Era a terceira derrota seguida do time. Mas o time entra no vestiário e ele não deixa nem os jogadores tomarem banho. Reúne o grupo e fala: ‘Hoje eu percebi que vamos ser campeões’”, relembra-se o então dirigente.
Um treinador com menos história talvez fosse mais vagaroso com a volta dele, talvez não aguentasse a pressão de bancá-lo. Mas era o Luxemburgo”, diz Toninho.
“Tanto eu quanto o Vanderlei demos a ele o status que ele merecia como um dos ídolos do clube”, diz Toninho, com a autoridade de quem viu de perto as primeiras e as últimas defesas do caipira falastrão da pequena cidade de Oriente, no interior de São Paulo.
O eterno São Marcos do Palestra Itália.
