A situação na tabela de classificação preocupa. Penúltimo lugar, pior defesa do campeonato e quatro derrotas nos últimos quatro jogos. Como se não bastasse o pesadelo da pandemia, o ano do retorno do Aston Villa à Premier League decepciona o torcedor.
Tudo é muito diferente de 1982, o ano da glória. O Aston Villa havia levantado a taça de campeão da Inglaterra na temporada 1980-81 e estava na disputa da Champions League. Após passar com folga pelo Valur, campeão da Islândia, o Villa eliminou o Dynamo Berlin e o Dínamo de Kiev. Uma vitória por 1 a 0 sobre o Anderlecht, que havia eliminado a Juventus no primeiro jogo da semifinal, e um empate sem gols fora de casa garantiram o Villa na grande final contra o Bayern de Munique.
Dean Smith, um menino de 11 anos e dois meses de idade, encarou a loucura de ir até Roterdã e viu, logo no início da partida, os sonhos de título ficarem distantes. O Bayern tinha uma seleção em campo. Augenthaler, Breitner, Hoenes, Durnberger e Rummenigge viviam ótimos momentos e, para complicar ainda mais, Jimmy Rimmer, o goleiro titular, foi substituído aos 9 minutos de jogo pelo inexperiente Nigel Spink.
Aos 22 minutos do segundo tempo, Tony Morley driblou duas vezes e rolou para o meio da área, Peter Wihte bateu e a bola ainda tocou na trave esquerda para enfim entrar. Sim, é verdade que o Bayern ainda continuou atacando e que até mesmo marcou um gol invalidado por impedimento. Aston Villa campeão.
Ron Smith, pai de Dean, trabalhava como mordomo do clube e era responsável por cuidar de algumas áreas do Villa Park, estádio do Aston Villa. Era ele quem conduzia Doug Ellis, histórico presidente do clube, ao seu assento e à tribuna principal do estádio. Dean Smith e Dave, seu irmão, também tinham lá as suas tarefas e davam uma força e na limpeza dos assentos em troca de ingressos na Holte End, espaço conhecido por receber os torcedores mais empolgados.
O tempo passou a Dean Smith se tornou jogador. Líder, o torcedor confesso do Aston Villa foi capitão do Walsall aos 19 anos e também defendeu o Leyton Orient e Sheffield Wednesday até se tornar treinador do Walsall e Brentford.
Chegar a dirigir o Brentford era entender que o caminho estava certo. A alegria só não era completa por causa do velho Ron, que já não tinha mais condições de trabalhar e nem de tocar a vida sozinho. Sofrendo com uma demência, o pai de Dean Smith passou a viver em um lar para idosos.
As ótimas campanhas à frente do Brentford despertaram os olhares do seu clube de coração e Dean Smith realizou seu sonho e de sua família. O velho Ron nunca soube disso. Ele já não entendia mais o que o filho falava.
Após decepções na segunda divisão da Inglaterra, o dia 27 de maio de 2019 foi de dar a volta por cima. Em Wembley, El Ghazi e McGinn marcaram e o time de Dean Smith bateu o Derby County.
O pequeno torcedor que viu seu time ser campeão da Europa e devolveu o clube de coração ao topo do futebol inglês, agora convivia com a alegria de honrar uma promessa feita ao pai.
Ron Smith, já idoso e portador de uma doença degenerativa, vive em um lar de idosos em Birmingham e tem poucas horas de lucidez por dia. Dean, em uma de suas visitas, viu os olhos do pai se abrindo por alguns minutos e não perdeu a chance de prometer que a próxima conversa deles seria já com o time de coração na Premier League. Dean sabe que o pai já nem o reconhece mais, mas tratou de cumprir a promessa.
*Atualizada em 28 de maio de 2020.
