125 anos do início do futebol no Brasil: bastidores de um documentário que reuniu e se despediu de grandes amigos

O pontapé inicial dessa história foi um telefonema de Osmar Santos.

Minha relação com Osmar começou há cinco anos quando produzimos um documentário para os canais ESPN em homenagem a carreira do extraordinário narrador. De lá pra cá nunca mais nos largamos, pois conversamos, do jeito que dá, quase todos os dias por telefone.

Para quem não convive com o “Pai da matéria”, não é fácil se comunicar com ele após o grave acidente que ele sofreu próximo ao Natal de 1994. A tragédia automobilística ocorrida há 26 anos o deixou com um vocabulário de no máximo cem palavras.

Desde que nos conhecemos, na gravação de “Vai Garotinho que a Vida é Sua”, em 2015, desenvolvemos uma maneira particular de conversar por telefone. Na verdade, eu procuro introduzir alguns assuntos, ele responde com frases curtas e assim a gente dá risada, relembra histórias e tocamos o barco numa amizade que há cada dia se torna mais fortalecida e extremamente respeitosa.

Já estou acostumado com as ligações do meu grande amigo Osmar. Muitas vezes ele inicia a conversa e, em seguida, coloca alguém para falar comigo. Acostumado com essas situações, logo me apresento a pessoa que não sei quem é como um amigo. E assim seguimos a nossa amizade, até que um dia, em mais uma das ligações de Osmar, um verdadeiro time de amigos foi formado a fim de realizar uma missão.

Foi em 2016. Osmar me ligou e falou várias vezes a palavra "filme". A princípio achei que ele estava falando do documentário que fizemos, mas não. Logo, Osmar me colocou para falar com um amigo dele, um empresário que o patrocinava nos tempos de rádio Globo, Omar Jamal.

Ele me disse que o Osmar Santos havia me indicado para fazer um trabalho comercial. Como sou avesso à área (propaganda e marketing), sem mesmo ouvir até o final a proposta, fui me esquivando e dando ponto final à conversa, afirmando que era jornalista e não publicitário.

Sorte a minha e de muita gente que Omar insistiu para que nos encontrássemos para um almoço onde ele, com mais calma, explicaria o projeto que ainda estava meio confuso na cabeça dele. Me disse apenas que tinha em suas mãos uma história jamais contada na televisão. Aí o assunto já começou a me interessar, pois, como todo jornalista que se preza, jamais deixo passar batido uma boa história, se for inédita, então…

Passada uma semana fui ao encontro de Osmar e Omar em um restaurante armênio dentro de uma empresa cheia de galpões, na maioria alugados para chineses comerciantes no Brasil, no bairro do Brás.

O local, na rua da Alfândega, guarda uma das mais belas obras arquitetônicas do início dos anos 1900. O prédio, que toma conta de quase um quarteirão, foi uma das maiores fábricas de tecidos do Brasil. A Tecelagem Mariângela foi construída pela família Matarazzo para confeccionar sacos para farinha confeccionada por outra empresa da família. Acontece que essa fábrica faliu, ficou fechada por anos até que o pai de Omar Jamal a adquiriu, mantendo a fachada do prédio histórico intacta, remodelando a sua parte interior.

Ha alguns anos foi transformado em um espaço com quase 90 galpões de distribuição de vários tipos de comércio.

Nesse encontro, Omar Jamal me disse que ali, naquele local, sido realizado, em 1895 o primeiro jogo de futebol com regras oficiais da história do Brasil. Jogo esse introduzido e organizado por Charles Miller, o "pai do futebol brasileiro".

De cara desconfiei da história, até porque não dá para embarcar nas verdades de cada um se elas não forem comprovadamente documentadas.

Acontece que, depois da história ser contada, Jamal me trouxe uma reportagem da “Folha de S.Paulo” com fatos que narravam que, naquele endereço onde estávamos, havia mesmo sido realizada essa primeira partida com regras oficiais. Na reportagem, o depoimento que validava o fato era de John Mills, o maior e mais respeitado pesquisador da vida de Charles Miller e dos primórdios do futebol no país.

A reportagem trazia dois mapas, um antigo e um novo, com um traçado feito por Mills mostrando a área mais plausível para o jogo ter sido disputado. O local era então uma fazenda com bois, vacas, porcos etc.

Diante do que vi, não tive dúvida, estávamos com ouro nas mãos para fazer, quem sabe um documentário.

Ao final do nosso encontro, sugeri que estudássemos uma forma de contar tudo isso em vídeo, lembrando que fazer filmes, documentários ou reportagens especiais para televisão custa muito caro. Parece fácil, mas não é.

No final dessa nossa primeira conversa, lembro-me bem do Jamal sugerindo que procurássemos o repórter da “Folha de S.Paulo”, responsável pela reportagem. Algo que já estava nos meus planos, desde sempre.

Lembro também de chegar à redação da ESPN Brasil já com a ideia de convidar o repórter Helvidio Mattos a participar da equipe que começaria a ser formada. Perguntei a ele se ele tinha ideia de quem era o repórter Rafael Valente, autor da matéria no jornal.

“Espera um pouco aqui”,disse. Em seguida, caminhou dez passos e gritou: “Rafael, por favor, vem aqui”.

Não deram 30 segundos para o repórter aparecer na nossa frente e o Helvidio nos apresentar. Rafael tinha sido contratado pela ESPN no final de 2015 e nós, infelizmente ainda não tínhamos sido apresentados. Logo de cara pensei: “Veja só como a vida é. O cara que contou a história que aconteceu na empresa do Jamal está aqui ao lado. Isso só pode ser um sinal de que nada é por acaso”.

Dali pra frente o desafio era fazer um orçamento para a realização do documentário.

Conversando com o Helvidio decidimos priorizar os amigos que estavam desempregados, como Bigode, Silvio Valente, Luis Alberto Volpe, enfim, comecei a fazer uma planilha de gastos, custos e cachês, coisas que jamais fiz com as minhas contas próprias.

O maior cachê do projeto, claro, foi para Osmar Santos, afinal foi ele que fez a ponte, que juntou os idealizadores do projeto. Depois fui destrinchando a verba para cada profissional que fosse participar. Desde o cara do áudio, da arte gráfica, produção, edição, filmagem, roteiro, pesquisa, decupagem, iluminação, transporte, verba para água, lanche, papelaria, enfim... Menos de R$ 100 mil.

Confesso que logo achei que seria tudo fogo de palha, que o Jamal jamais conseguiria viabilizar o projeto, até porque, além do custo, teríamos outros quase R$ 20 mil de impostos. E nem produtora tínhamos para fazer o trabalho que seria estritamente independente.

Para nossa surpresa Jamal, como é muito bem relacionado no mundo empresarial, conseguiu um patrocinador que bancou. E assim saímos a campo para tentar contar uma história da qual, evidentemente não se têm registros, muito menos imagens em movimento.

Em reuniões de pauta com Rafael e Helvidio decidimos colocar no projeto, com cachê também, o pesquisador John Mills e chamar o neto de Charles Miller, Carlos Miller Neto, para entrarem na confecção dessa história com provas, documentos e depoimentos.

Foram dias maravilhosos de gravações onde pudemos, além de trabalhar com o que a gente ama, se relacionar com pessoas que passaram a vida inteira tentando homenagear o pai do futebol no Brasil, Charles Miller.

Foi um período de descobertas e novas amizades. Para todos uma sensação de que aquele trabalho poderia durar a vida toda.

Para nós ficam as lembranças do convívio com o grande John Mills que à época já travava uma dura batalha contra o câncer, infelizmente vencida pela doença, em 24 de dezembro de 2018, véspera de Natal.

O documentário que será apresentado em breve nos canais ESPN também é uma homenagem a um dos maiores locutores da crônica esportiva brasileira. “Raízes da Bola, Pintando a história do futebol no Brasil” foi o último trabalho do jornalista Luis Alberto Volpe, que infelizmente nos deixou em fevereiro deste ano.

O documentário é uma prova de que vale a pena brigar pelo resgate da memória esportiva do nosso país, mas não só isso. Uma prova de que Osmar Santos, o "Pai da Matéria" está mais vivo, produtivo e ativo do que nunca.

Esperamos que gostem deste trabalho feito por várias mãos e pela doce sensibilidade expressado nos pincéis do imortal, Osmar Santos.

Que joguinho bom!

Foi há 125 anos, em um domingo de outono, como agora, que a primeira partida de futebol com as 13 regras vigentes foi jogada no Brasil.

O jogo foi em 14 de abril de 1895, em uma fazenda no bairro do Brás. O idealizador foi um jovem brasileiro, filho de pai escocês e mãe paulistana, Charles Miller, que reuniu amigos, quase todos funcionários da São Paulo Railway, a empresa que operava a estrada de ferro Santos-Jundiaí e da qual também era funcionário, e da Gás Company, responsável pela iluminação municipal.

Miller tinha 21 anos e aprendera sobre o esporte durante os dez anos em que viveu e estudou na Inglaterra.

John Mills, homem que se dedicou a pesquisar a origem e a vida do “pai do futebol no Brasil”, escreveu dois livros narrando que o jovem ficou realmente desapontado ao retornar ao Brasil e ver que ninguém praticava futebol.

Como se fosse membro de uma missão e buscasse catequizar os “pagãos”, Miller reuniu os amigos na chácara de um familiar, na várzea do Carmo, em uma região hoje tomada pelo comércio, e os ensinou as regras do futebol.

O local foi escolhido por apresentar a área exata para a demarcação do campo, plano, sem árvores e movimento.

"Nada sobreviveu daquele jogo. A única informação que restou foi um depoimento dado por Miller ao jornalista Thomaz Mazzoni para 'A Gazeta Esportiva' anos depois", explicou Mills, em encontro com os autores há alguns anos.

O depoimento foi publicado na edição de 1942 do jornal e mostra que o jogo impressionou os companheiros de Miller.

"Ao chegar ao campo, a primeira tarefa que realizamos foi enxotar os animais que ali pastavam. Logo depois iniciávamos nosso jogo, que transcorreu interessante, sendo que alguns jogaram mesmo de calças, por falta de uniforme adequado", disse.

"Quando deixamos o campo já estava assumido o compromisso de promovermos um segundo jogo, sendo que a exclamação geral foi esta: 'Que ótimo esporte, que joguinho bom'", relatou Charles Miller ao jornalista Thomaz Mazzoni.

O feito daquele jogo é de grande relevância para a história nacional.

“Foi a primeira vez que se disputou uma partida de futebol com regras no Brasil. E isso é o que tornou aquele jogo o marco zero no país”, disse Mills aos autores, anos antes de morrer, reforçando a informação que consta em seus livros.

É um dado importante porque até abril de 1895 já existiam relatos de jogos de futebol em outras partes do Brasil. Por exemplo, existem publicações que atestam que marinheiros britânicos jogavam bola nas praias do Rio de Janeiro, em 1878.

Um dos relatos mais fortes e possivelmente o maior concorrente à versão de Mills/Miller é do historiador José Moraes dos Santos Neto. Ele publicou o livro “Visão do Jogo – Primórdios do Futebol no Brasil”, no qual diz que os jesuítas de um colégio em Itu tiveram contato com o futebol durante uma viagem para a Europa e passaram a ensinar os alunos do Colégio São Luís, em 1880.

No Rio, a versão que Charles Miller introduziu o futebol no país também é refutada. Lá, o “pai” é o escocês Thomas Donohue, que difundiu a prática entre os funcionários da fábrica em que trabalhava em Bangu, em 1894.

“Todas essas versões têm méritos, mas tratam do jogo puramente como atividade recreativa, enquanto a partida realizada por Miller, em 1895, seguiu as regras existentes na Inglaterra. Portanto, foi a primeira no Brasil”, dizia Mills.

Algo que reforça o pioneirismo de Miller é que a cidade de São Paulo, anos depois também foi pioneira.

A Liga Paulista nasceu em 1901. No ano seguinte, reuniu cinco equipes da capital para a disputa do Campeonato Paulista, a primeira competição ofocial do país. Miller não só foi o responsável principal pela ideia, como foi artilheiro (dez gols) e campeão pelo SPAC.

De lá pra cá, a história é conhecida. Foram cinco títulos de Copa do Mundo, fora as conquistas mundiais dos clubes, e uma legião de craques, tendo como Rei do Futebol da nação, reconhecido mundialmente, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.