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Jair Ventura conta como Rodrygo deslanchou no Santos e atraiu Real Madrid e Barcelona

Com apenas 18 anos, Rodrygo virou destaque do Real Madrid e chegou à seleção brasileira principal, que jogará contra a Argentina, nesta sexta-feira, às 14h (de Brasília), com acompanhamento em tempo real do ESPN.com.br. Desde seus primeiros jogos pelo profissional do Santos, o jovem já demonstrava ter um grande potencial.

Jair Ventura, treinador que promoveu o atacante a titular, lembra como ficou admirado pelo futebol do jovem jogador.

"Nos primeiros trabalhos, ele me chamou atenção porque era muito diferente. Os próprios jogadores do Santos ficavam encantados com o menino", contou o técnico, ao ESPN.com.br.

Mesmo com pouco tempo na equipe principal, o atacante já era cobiçado pelos dois maiores clubes da Espanha.

"Ele poderia escolher entre o Real Madrid e o Barcelona! Imagine como é isso na cabeça do menino que precisa decidir a vida com apenas 16 anos?", questionou.

Veja a entrevista Jair Ventura sobre Rodrygo:

Como você conheceu o Rodrygo?
Eu já conhecia o Rodrygo por que ele tinha feito alguns jogos com o Elano, quase sempre entrando no final. Ele já estava integrado ao nosso grupo. Nos primeiros trabalhos, ele me chamou atenção por que era muito diferente. Os próprios jogadores do Santos, como Victor Ferraz e David Braz, ficavam encantados com o menino. Um talento muito acima da média, poder de finalização, drible, mudança de direção e uma grande velocidade com a bola muito próxima do corpo.

Como foi que você o lançou entre os titulares?
Eu perdi o Bruno Henrique na minha estreia contra o Linense, pelo Paulista, com seis minutos do primeiro tempo. Ele levou uma bolada no rosto e ficou seis meses fora dos gramados. O reserva imediato não era o Rodrygo ainda, era o Arthur Gomes, que entrou e fez dois gols. Nisso, o Rodrygo foi melhorando nos treinos e pedindo seu espaço. Tivemos um jogo muito complicado contra a Ponte, que estávamos perdendo. Ele entrou e fez o gol da virada. Depois, começou a fazer mais gols e a resistir na parte física, de fazer a marcação alta e voltar. Por ser um menino, fui lançando de forma gradativa. Lógico que eu sabia da qualidade, mas futebol tem outras coisas. A torcida é imediatista e quer logo que você o lance como titular.

Como foi isso?
Para essa adaptação do juvenil para o profissional você precisa conversar muito com o menino. Ele gostava de jogar pelo lado esquerdo, que era o preferido do Bruno Henrique e do Arthur Gomes. Eu expliquei: ‘Rodrygo, se você for para a seleção, esse é o lado [esquerdo] que o Neymar joga lá. Se você for chamado, não vai jogar? Vamos trabalhar pela direita, pelo meio e como falso 9’. A gente conversava muito, eu mostrava vídeos, que ele tinha que recompor e fazer a marcação alta.

Ele entendeu isso de forma fácil?
Foi muito fácil trabalhar com o Rodrygo por que ele tem uma estrutura familiar muito boa. O pai dele foi jogador e está muito presente. Ele é extremante profissional e educado. Tem uma parte cognitiva muito boa, você explica para ele uma vez e ele já entende. Não tinha que ficar repetindo ou dando bronca. A leitura de jogo dele é ótima, é muito inteligente. Eu também me preocupava em não passar muitas informações de uma vez para a cabeça dele não travar (risos). Ia soltando de forma gradativa.

E quando ele ganhou a posição?
Na semifinal do Paulista, contra o Palmeiras, nós entramos com quatro atacantes: Rodrygo, Gabigol, Arthur Gomes e Sasha. Vencemos o jogo, mas caímos nos pênaltis. Rodrygo foi muito bem jogando de camisa 10 [meia]. Ele virou o brasileiro mais jovem a marcar um gol na Libertadores, contra o Nacional. Foi um golaço, levando a bola do meio e batendo de esquerda! A gente tinha perdido o Gabigol, que havia sido expulso, mas conseguimos vencer por 3 a 1. O Rodrygo arrebentou! Neste jogo, eu o coloquei como falso 9 e exploramos a velocidade dele nos contra-ataques.

Como era a sua relação com o Rodrygo?
Meu relacionamento com ele era ótimo. Depois desta partida, ele brincou que eu era paizão, pegava muito no pé. Toda preleção eu coloco uma palavra que eles precisam adivinhar porque será o tema da palestra. Quando ele errava, os colegas brincavam. Era para deixar o clima mais leve antes de jogos grandes. Logo no começo, eu brincava com o Rodrygo por ele ser mais jovem, e ficou aquela coisa de pai e filho. O Gabigol e o pessoal do elenco brincava que o Rodrygo era meu filho.

Rodrygo tem versatilidade...
Ele bate falta, pênalti, tem último passe para jogar como um meia centralizado. Tem o drible, a velocidade e a condução de bola para jogar pelos dois lados do campo. Rodrygo pode fazer várias funções em campo. Nós tínhamos grandes jogadores no elenco e foi muito bom para ele ser assim. Fez ele sair à frente demais.

Como ele reagia a tudo isso?
Nunca ouvi nada de ruim sobre o comportamento dele. É tudo mérito da família dele. Eu fiquei com medo de ele mudar como pessoa, é uma preocupação que os jovens se percam por conta do que o futebol profissional os proporciona com a fama. Ele poderia escolher entre o Real Madrid e o Barcelona! Imagine como é isso na cabeça do menino que precisa decidir a vida com apenas 16 anos? Eu conversava com ele, para que permanecesse a mesma pessoa. E ele é um menino muito sério e concentrado. Um garoto assim facilita a vida de um treinador.

Vocês conversavam sobre esta situação?
Sim, teve a situação [de negociação] do pagamento da multa ou parcelada. Foi um momento delicado, e a gente estava no meio de Libertadores, Brasileiro e Copa do Brasil. Isso interfere. A gente, como treinador, líder e educador, precisa participar de tudo. Sempre que tinha oportunidade, eu conversava com ele. Eu lembro que era um desejo de infância dele ir para o Real Madrid. E eu acho que a escolha foi dele, por que tinha o Barcelona. Lembro que até brinquei: 'Que dúvida ruim que ele está, né?' (risos). Ele foi ao Real e hoje está só começando o grande sucesso que vai ter.

O que mais te marcou neste tempo?
A qualidade individual que ele tem. O dia a dia era mais gostoso por que no jogo você não consegue ver o jogador em todas as situações. Eu tive esse privilégio de ver o que ele fazia nos treinos, era fantástico. Marcou a minha vida e a de quem trabalhou com ele. Era motivo de risada. Um jogador chegava para mim e dizia: ‘Caraca, professor! Que moleque é esse?’ Eu respondia. ‘Pois é’. Ele era tratado com muito carinho pela pessoa que é.

E como foi quando você saiu?
Quando fui demitido do Santos, eu fiquei chateado. Eu voltei ao clube para buscar meus pertences e veio o Rodrygo na minha sala, muito triste. Ele me entregou a camisa dele e quase choramos. Ele me agradeceu por tudo que passamos. Eu guardo essa camisa com muito carinho até hoje. Depois, quando fui jogar contra o Santos pelo Corinthians, teve uma fila grande de jogadores para me cumprimentar. Essa é a parte boa da vida de técnico, pois a gente perde o emprego, é chamado de "burro", mas tem essa parte da formação de homens e atletas. Isso eu levo para a vida. Fico feliz de vê-lo saindo para brilhar na Champions. Ele sempre terá um amigo que ficará na torcida por ele.