O Palmeiras não tem uma sala de troféus desde 2010, quando o antigo Palestra Itália começou a ser demolido. A sala ficava sob as arquibancadas do estádio, onde hoje fica parte do setor oeste do Allianz Parque.
Ao longo desse tempo, enquanto a história do clube segue encaixotada em algum depósito, o que há de mais parecido com um memorial é a coleção particular de um dos jogadores mais emblemáticos do clube em 105 anos. Um museu palestrino a poucos quilômetros da sede social alviverde, na Vila Pompeia.
Goleiro das mãos gigantes, o sorocabano Oberdan Cattani morreu em 2014, aos 95 anos, pouco mais de dois meses antes de o clube onde ele chegou em 1941 e jogou por 14 anos, completar um século de existência.
Não por acaso, Oberdan tem, junto com outras lendas, um busto seu nas alamedas do clube. Contar a história de Oberdan no clube é praticamente o mesmo que contar 14 anos anos do Palmeiras.
Palmeiras não, aliás. Palestra Italia. Oberdan foi o último a morrer entre os onze jogadores que participaram do primeiro jogo da Sociedade Esportiva Palmeiras, quando a Segunda Guerra Mundial obrigou o clube a mudar de nome.
"Alguns jogadores olhavam para nossa camisa e choravam. 'Mas essa não é nossa camisa, não é nosso nome'", contou, ao autor deste texto, o próprio Oberdan, em 2012, sobre a partida contra o São Paulo, em 20 de setembro de 1942. A "Arrancada Heroica", como o episódio ficou conhecido.
Walkyria Cattani continuou a cuidar da coleção do pai depois da partida dele. De mudança da casa na Vila Pompeia que Oberdan comprou quando ainda era jogador, para a cidade de Itu, no interior de São Paulo, ela já mandou construir um espaço de 100 metros quadrados para o memorial com as relíquias do seu pai.
"Já está lá o carro que ele ganhou como melhor goleiro do Campeonato Paulista do Século XX (prêmio concedido pela Federação Paulista em 2001)", conta ela.
Porque o Palmeiras e a WTorre podem ainda não ter conseguido se resolver para preservar a história do clube. Mas Walkyria faz questão de preservar a história de seu pai.
"Minha mãe Marcília (falecida em 1977) começou a juntar as coisas do meu pai. Aos poucos, a coleção foi se avolumando, até que decidimos construir o museu, que era o xodó dele", conta a filha.
Hoje, a casa dele na Pompeia, única onde Walkyria morou, tem apenas metade da coleção. As peças maiores, como a alegoria de seu pai usada no desfile de Carnaval da Mancha Verde, em 2014, já embarcaram para o interior de São Paulo.
UMA VIDA
Oberdan Cattani amava o Palmeiras como poucos. Walkyria conta que, mesmo no fim da vida, quando já discernia cada vez menos, ele fazia questão de assistir aos jogos.
"Ele assistia de madrugada aos videotapes. E xingava a televisão, sempre que o time estava jogando mal", conta ela. "Ele ficava muito nervoso e torcia, como se o jogo fosse ao vivo. Eu dizia: 'Não adianta mais, isso aí já foi'", diverte-se.
A quem o indagasse sobre isso, porém, ele dizia que já não acompanhava mais as partidas.
Talvez, como parte da mágoa que jamais digeriu, do presidente Paschoal Walter Byron Giuliano. O dirigente vendeu seu passe, contra a vontade dele, para o Juventus da Rua Javari, em 1954.
Oberdan, que chegou até mesmo a ter seu casamento celebrado no Palmeiras, jamais perdoou o dirigente. Contava, sem qualquer pudor, que fez questão de comparecer ao funeral de Giuliano, em 2003, também na sede do clube, para se certificar de que o desafeto seria mesmo enterrado.
"Eu dizia a ele que isso não podia ser dito, mas ele não queria nem saber", conta Walkyria, aos risos.
Se vivo, ele talvez ficasse muito nervoso de saber que sua filha foi barrada no clube recentemente.
"Eu quis entrar para ver o busto do meu pai e não deixaram. Disseram que eu tinha que pagar para fazer o tour oficial", conta ela. "Eu não sou mais sócia, mas meu pai era sócio-vitalício. Cadê esse título?". indaga ela.
Oberdan defendeu o Palestra Itália e o Palmeiras por 351 jogos, entre os anos de 1941 e 1954, além de servir a Seleção Paulista e a Seleção Brasileira.
Conquistou o Torneio Rio-São Paulo de 1951; os campeonato paulistas de 1942, 1944, 1947 e 1950; a Taça Cidade de São Paulo, em 1946, 1950 e 1951; e o Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais em 1941 e 1942
PROMESSA
Em novembro, Rogério Dezembro, CEO do Allianz Parque, disse ao ESPN.com.br que a ideia da construtora e do clube era inaugurar um memorial para os troféus ainda em 2019.
"O desafio era achar um modelo de negócio sustentável, que não fosse se tornar ônus nem para o clube, nem para a WTorre, como o Museu Pelé, em Santos, e o Museu da CBF, no Rio, que enfrentam dificuldades", explicou Dezembro.
"Além disso, a recessão econômica e as maiores urgências de outros projetos relativos ao estádio acabaram se sobrepondo", explica o executivo. "Já nos reunimos com a diretoria do clube e encontramos um modelo que possa nos atender", acrescenta.
A ESPN apurou que as relações entre WTorre e Palmeiras estão melhores do que já foram e que isso pode pesar positivamente para a construção do memorial.
Até agora, no entanto, nada foi feito.
