Indagado sobre o que o Palmeiras representa para ele, o ex-goleiro Valdir Joaquim de Morais, 88, não titubeou, apesar das dificuldades que tem hoje para falar: "Uma vida".
Aos 88 anos, o jogador vivo mais velho dentre os que vestiram a camisa do clube continua pensando rápido. É por isso que ele se ressente de o seu corpo, por conta de um AVC e de uma fratura de fêmur, já não acompanhar seu raciocínio como outrora.
Ele se lembra de tudo, jura, embora não soubesse ser o mais velho a ter jogado no clube. "Eu me sinto envaidecido com isso, lisonjeado", disse ele, por telefone, ao ESPN.com.br.
Um dos atletas que mais atuou no velho Parque Antárctica - onde também treinava diariamente na época -, Sr. Valdir, porém, não conhece o Allianz Parque.
"Eu gostaria muito de conhecer", completa Valdir.
"Estamos esperando o Palmeiras mandar o convite e a passagem", completa Denise Carvalho de Morais, 59, filha do Sr. Valdir. Denise, por causa do pai, é palmeirense desde pequena. (Nota: o Palmeiras mandou uma declaração à reportagem sobre convites ao Sr. Valdir Joaquim de Morais, que está no final desta reportagem).
"Ele fez a vida inteira dele no Palmeiras", diz ela.
Valdir, que tem o lado de esquerdo do corpo um tanto paralisado, mora em Porto Alegre, no seu Rio Grande do Sul natal, desde 2012. Um ano antes, ainda trabalhara como observador técnico do Palmeiras - seu último emprego antes da aposentadoria.
Como goleiro, baixo para a posição (1,75 m), ele foi uma lenda sob as traves do Palmeiras entre os anos de 1958 e 1968. Foi o titular no único jogo em que um time representou a seleção brasileira, na inauguração do Mineirão, em 1965 (Brasil/Palmeiras 3 x 0 Uruguai).
"Não adianta ser alto e não ser inteligente. Eu sempre soube fazer a leitura do jogo, antecipar a jogada", diz.
Mas foi depois que deixou de jogar que sua influência no futebol tornou-se ainda maior.
Morais, cujo nome é comumente grafado erradamente como "Moraes", é nacionalmente tido como o inventor de uma profissão cuja existência, há décadas, é fundamental no futebol: foi ele, o primeiro treinador específico para goleiros.
"Depois que eu parei (em 1970), o Sr. (Oswaldo) Brandão me chamou para ser auxiliar técnico. Eu topei trabalhar com ele, mas sugeri trabalhar de um outro modo", contou ele.
"Eu não sei se fui que inventei a profissão, mas eu nunca tinha visto ninguém fazendo esse trabalho nos clubes do Brasil. Eu mesmo sempre treinei junto com os demais atletas", afirma.
Oriundo da primeira Academia (anos 1960), Valdir passou a década seguinte trabalhando no Palmeiras. Primeiro, com Oswaldo Brandão. Depois, além de assumir como interino em diversas ocasiões, integrou as comissões técnicas do ex-colega Dudu, de Helio Maffia, Dino Sani, Jorge Vieira, do uruguaio Filpo Nuñez e, por fim, de Telê Santana.
Telê, que o levou para o São Paulo como seu auxiliar na década seguinte, é o segundo, após Brandão, dentre os "grandes do futebol", nas palavras dele, com quem Valdir trabalhou.
O terceiro é Vanderlei Luxemburgo. Foi com ele, que Morais conheceu já em uma de suas muitas voltas ao Palmeiras, que o gaúcho foi parar no rival Corinthians, nos anos 2000, como coordenador de futebol.
"TENHO TEMPO"
Sr. Valdir só se locomove por meio de uma cadeira de rodas e, por conta disso, passa boa parte dos seus dias em casa. Sempre que possível, assistindo futebol. Principalmente ao seu Palmeiras.
"Eu tenho tempo, né?", diverte-se, mostrando manter o bom humor.
"Está ganhando dentro da filosofia do treinador", respondeu ele, quando indagado sobre o que achava do time atual do clube alviverde.
"Só posso dizer que está bom. Está ganhando, fazendo boas campanhas, se defende bem", diz, deixando transparecer uma certa ressalva com o estilo.
No seu tempo de Palmeiras, Valdir treinou nomes como Leão, Velloso, Marcos e Sérgio. Era muito querido por todos.
"Ele é como um pai", disse um jovem e ainda cabeludo Marcos, em 1997, em reportagem para a ESPN.
No São Paulo, trabalhou com Zetti e Rogério Ceni. No Corinthians, com Doni, Maurício e Dida.
Valdir de Morais também foi o responsável pela preparação dos goleiros da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982 - Waldir Peres, Paulo Sérgio e Carlos.
A CARREIRA DE VALDIR JOAQUIM DE MORAIS *
Nome: Valdir Joaquim de Morais
Nascimento: 23/11/1931
Naturalidade: Porto Alegre-RS
Período: 1958 a 1968
Clube anterior: Renner-RS
Jogos: 480 (291 vitórias, 96 empates e 93 derrotas)
Estreia: Palmeiras 7x1 Ituano (28/09/1958)
Último jogo: Palmeiras 0x2 Estudiantes-ARG (16/05/1968)
Principais títulos: Campeonato Paulista em 1959, 1963 e 1966; Campeonato Brasileiro em 1960, 1967 (Torneio Roberto Gomes Pedrosa) e 1967 (Taça Brasil); Torneio Rio-São Paulo em 1965
*Informações do site oficial do Palmeiras
PALMEIRAS: "PORTAS ABERTAS":
As portas do Palmeiras sempre estarão abertas para Valdir Joaquim de Morais. Infelizmente, a última vez que ele pôde estar conosco em São Paulo foi em 2014. Após essa data, o clube fez outros convites para que ele viesse à capital paulista novamente, mas não houve a possibilidade por conta de orientação médica. Durante esse período, a sala da comissão técnica na Academia de Futebol foi batizada com o nome Valdir Joaquim de Morais em homenagem à toda trajetória dele no clube e, como ele não pôde vir para inaugurá-la, a Revista Palmeiras o entrevistou e publicou uma reportagem especial. No ano passado, representantes da diretoria o visitaram em Porto Alegre e, na oportunidade, a TV Palmeiras aproveitou para gravar um capítulo do quadro "Academia de Craques". No banquete de aniversário desta segunda-feira (26), Valdir será lembrado pela conquista do título brasileiro de 1960, tanto que um vídeo a ser exibido no telão da festa foi gravado com nosso eterno ídolo. Recebê-lo no Palmeiras será sempre uma questão de honra e gratidão.
