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O outro lado do tetra: da pressão à mágoa com técnico, como Baggio não aceita derrota para o Brasil nos pênaltis

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Há 25 anos, o Brasil conquistava o quarto título de Copa do Mundo de sua história. Talvez não haja imagem mais icônica daquela conquista do que a de Roberto Baggio, então melhor jogador do planeta, desolado após perder o pênalti decisivo naquela final contra o Brasil.

Enquanto para o lado brasileiro aquela imagem foi motivo para sorriso, para a Itália representava a tristeza. E ninguém certamente queria estar na pele de Baggio, que aos 27 anos se tornava “vilão” em final de Copa do Mundo.

Em sua autobiografia “Uma Porta Nel Cielo” (Um Gol No Céu), de 2001, o ex-camisa 10 italiano relatou aquela Copa do Mundo. Leia abaixo um trecho do livro:

Foi o momento mais difícil da minha carreira. Antes de eu sair para a final, meu mestre budaespiritual me disse que eu seria confrontado com muitos problemas e que tudo seria decidido no último minuto. Na hora eu não percebi que a previsão dele estava tão precisa.

A final não começou bem, e eu senti a pressão. Tinha muita responsabilidade. Afinal de contas, era para ser a ‘minha’ Copa do Mundo. Estava caindo diante de mim e eu não consegui deixar minha marca nela. Se eu não tivesse minha fé no Gohonzon (entidade budista), teria sido um pesadelo terrível. Eu rezei muito. Quanto mais difícil as coisas ficavam, mais eu me resguardava e tentava achar minha força interior, geralmente cantando o Daimoku em silêncio absoluto.

Mas tudo mudou desde o momento em que eu empatei no último minuto contra a Nigéria. Eu peguei a bola, chutei e ela passou entre as pernas do zagueiro e parou na trave direita. Era impossível defender. Muitas pessoas acham que foi sorte, mas novamente...talvez houvesse algo especial no momento. Talvez, daquela vez meu mestre me deu um pouco mais de ajuda do que de costume. Ou talvez a fé tenha me ajudado, minha fé em mim mesmo, minha paz interna.

Depois daquele gol, eu parei de me sentir tão ansioso. Eu comecei a jogar mais calmo. Eu me libertei de novo. Foi um momento fundamental. Dali em diante minha Copa do Mundo ficou bem melhor. Mas eu me lesionei na semifinal contra a Bulgária. Não foi nada grave, só uma fadiga muscular, mas afetou minha preparação para a final. O que seria uma lesão menor em qualquer outra situação se tornou mais séria por conta da situação. Mas eu estava desesperado para jogar. Eu teria jogado mesmo se tivessem cortado minha perna fora.

Minha aparência naquele jogo ainda causa polêmica, mas eu me sentia bem, senão não teria jogado. Eu treinei a manhã inteira. Eu treinei no hotel, num quarto usado para recepções de casamento. Eu estava junto com meus fisioterapeutas chutando a bola contra a parede até cansar. Meus músculos e pernas estavam bem, independente das lesões. Mas o time da Itália teve um voo de seis horas para a Califórnia enquanto o Brasil já estava lá e isso era vantajoso para eles. E eles tiveram um caminho mais fácil até a final. Talvez no começo do jogo eu não conseguia deixar para lá, subconscientemente eu estava preocupado em me lesionar de novo, mas depois de um tempo superei isso. No entanto eu não tive um bom jogo, nem o time teve.

Quanto ao pênalti, eu não quero me gabar, mas só errei alguns na minha carreira. E eles foram porque o goleiro chutou, não porque eu errei o alvo. Só para que você entenda que não há explicação fácil para o que aconteceu em Pasadena. Quando eu fui para a marca da cal, eu estava bem lúcido, o máximo que alguém poderia estar nessa situação. Eu sabia que Taffarel sempre pulava para um canto, então tentei chutar no meio, a meia altura, para ele não poder pegar com os pés. Foi uma decisão inteligente porque Taffarel foi para a esquerda e nunca teria defendido o chute do jeito que eu havia planejado.

Infelizmente, e eu não sei como, a bola subiu uns 3m e foi por cima do travessão. E sobre bater o pênalti, eu era o batedor oficial. Eu nunca fugiria das minhas responsabilidades. Só aqueles que têm coragem de bater um pênalti erram. Eu fracassei dessa vez. Ponto. E me afetou por anos. Foi o pior momento da minha carreira. Eu ainda sonho com isso. Se eu pudesse apagar um momento da minha carreira, seria esse.

O que muitos esquecem é que mesmo se eu tivesse feito o gol, o Brasil ainda poderia ter vencido porque antes de mim Baresi e Massaro havia perdido seus pênaltis. Isso faz parte do jogo. Eu perdi o último pênalti, ‘cancelando’ assim os de Baresi e Massaro. Eles tinham que escolher uma imagem da final e escolheram o meu erro. Para variar. Eles queriam um bode expiatório e me escolheram, esquecendo que sem mim eles jamais chegariam à final. Depois do meu erro, eu fiquei perplexo e esse olhar permaneceu em mim por muito tempo. Eu não conseguia aceitar como tinha acabado. Eu me tranquei no quarto.

Mas olhando para trás, eu tenho que dizer que perder uma Copa do Mundo nos pênaltis é algo que eu nunca vou concordar. Se você perder no campo, tudo bem, está certo. Mesmo se você merecesse algo diferente. Mas nos pênaltis, não, isso não está certo. É correto que quatro anos de sacrifício sejam decididos por três minutos de pênaltis? Eu acho que não. Perder dessa forma não é certo e nem vencer. O gol de ouro é bem melhor. Ou então fazer o que faziam antes – jogar uma revanche.

Depois da final, a atitude de Arrigo Sacchi perante a mim mudou completamente. Eu tinha 27 anos, mas Sacchi passou a me convocar cada vez menos. A última vez foi em 6 de setembro de 1994. Eu joguei os últimos minutos e depois nada. Eu esperava mais gratidão dele. Eu teria entendido se fosse uma decisão técnica, mas não foi. Parecia mais pessoal.

Nós nos vimos em Como, há um tempo, para filmar um comercial onde o pênalti em Pasadena acontecia e nós venceríamos a Copa do Mundo. E o abraço entre nós foi verdadeiro. Durante a filmagem, toda vez que tínhamos um intervalo, tudo que ele fazia era falar comigo e tentar explicar. Nós estávamos sentados em duas bolas de futebol e jogamos novamente a final da Copa. E dessa vez ganhamos.