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Papai Joel diz sentir saudades do futebol: 'Um dia ia terminar, não posso ficar chorando'

"Quem não sente falta de um grande amor?". Joel Santana resume dessa forma a distância do mundo do futebol. Já são mais de dois anos parados desde que dirigiu seu último clube, o Boavista, entre janeiro e abril de 2017.

Um dos técnicos com mais equipes no currículo, além de títulos por todos os grandes do Rio de Janeiro, Joel atendeu a reportagem da ESPN a poucos metrôs da praia Copacabana, no restaurante Pigalle, do amigo Carlão.

O local é praticamente um QG para ele por ficar bem próximo de onde mora. Lá que se reúne com amigos e atende jornalistas.

Talvez seja o lugar onde ele mais se sente à vontade, tirando os campos de futebol, é claro. Foi ali que ele disse o que tem feito fora do futebol, analisou o Campeonato Brasileiro e foi questionado sobre a vinda do português Jorge Jesus para o Flamengo.

Confira a 2ª parte da entrevista com Joel Santana

ESPN - Você sente falta de trabalhar no dia a dia do futebol? Sente saudades?
Joel Santana:
Claro que eu sinto saudades. Eu trabalho há 50 anos no futebol. Você não abandona 50 anos da sua vida da noite para o dia. Claro que eu sinto falta de estar ali na beira do campo, de dar uma preleção, da convivência com o jogador, de traçar um plano tático. Isso foi minha vida toda. Eu vivo hoje daquilo que eu fiz dentro do futebol. E as coisas estão terminando, como um dia iam terminar, e eu não posso ficar em cima do muro chorando. Já passei dessa época. Mas eu sinto falta. Quem não sente falta de um grande amor?

ESPN - O que Joel Santana vem fazendo desde que deixou o Boavista?
Joel Santana: Tenho feito muita propaganda, muitas festas. Dia 30 de junho participei da festa do Deco em São Paulo e foi muito bacana. Revi jogadores que eu não via há 10 anos, 15 anos. Foi maravilhoso. Recordar é viver. Dou minhas entrevistas. Estou me segurando para não virar comentarista. Mas não tem jeito. Sabe por quê? Eu falo para o povo o que ele quer ouvir. Eu não fico enrolando. As pessoas que me acompanham sabem que eu falo o que as pessoas não tem coragem de dizer porque não tem conhecimento de causa. O público vai ouvir e vai falar 'ele está certo'. Eu vou virar comentarista. Está no sangue.

ESPN - Voltar a treinar ainda é um desejo? Aceitaria voltar a trabalhar no campo?
Joel Santana:
Se for uma coisa séria, eu aceito. Se não for, não. Não estou mais com tempo de arriscar. Hoje, na minha vida, as coisas são muito direitas, muito retas, sob todos os aspectos. Não tem mais ou menos. Ou é ou não é. Hoje sou avô. Tenho dois netos. Pô, meu neto quando crescer e tiver uma formação vai pesquisar: 'Quem foi o Papai Joel?". E ele vai achar: foi isso, isso e isso. Linha reta.

ESPN - Algum clube o procurou e você recusou?
Joel Santana:
A gente conversa. Mas só vou se for coisa séria.

ESPN - E quem trabalhou contigo te procura para conversar, mostrar gratidão, ver se precisa de algo?
Joel Santana:
Ligam e a gente conversa bastante. A gente se encontra. Brincamos um com o outro. São jogadores que fazem parte da minha vida. Eu vi um jogador no dia 30 de junho que não via há 15 anos. Foi o Ronaldão. Foi muito legal. Uma alegria. O Carlos Alberto beija a minha mão quando me vê. Você sabe como o Carlos Alberto é, mas eu chamo a atenção dele até hoje. Parece que eu sou o pai dele. Romário, Zico... não quero falar nomes porque vou esquecer alguém. Eu fico emocionado porque é um trabalho de uma vida. Não é um trabalho da noite para o dia. É um trabalho que as coisas foram acontecendo. Não é a toa que sou o maior vencedor do Rio. Não é a toa que os maiores jogadores do Brasil me chamam de Papai. As pessoas reconhecem o que eu representei para elas. E isso é o que me deixa muito emocionado.

ESPN - E como é o reconhecimento do público? Dos 12 grandes do país, só não treinou cinco.
Joel Santana:
A reação é essa daqui que você vê em Copacabana. O carinho das pessoas. Me param e falam: 'Poxa queria ver você em tal clube'. E eu sempre respondo: Vai lá no clube e reclama'. Não quero nem falar no time que me pedem. Você já pensou [Tenho uma ideia]. Tem? Mas nem fala nada. Vão dizer que eu to cavando vaga. Fala nada. Deixa como tá.

ESPN - Você está contente com o nível de jogos do Campeonato Brasileiro?
Joel Santana:
Ainda não atingiu aquele ponto que nós gostaríamos. O Palmeiras é o time que se organizou para saber disputar a competição. O Flamengo tem um time que ainda não se adaptou para responder aquilo que a torcida precisa. O Vasco está mal, o Fluminense está mal, o Botafogo está mal. Estão se recuperando. Aí você vai para São Paulo. O Santos está mais ou menos. O São Paulo não se organizou. Os clubes, os doze que são fortes, você vê, o Grêmio, o Inter, o Cruzeiro, o Atlético-MG... olha a posição que está o Cruzeiro hoje. Ainda não atingiram o grosso. Depois vai ser difícil pegar o Palmeiras.

ESPN - Joel Santana gosta de pontos corridos?
Joel Santana:
Acho que pontos corridos não serve para nós. São para competições europeias. Por quê? Porque nosso país é muito grande. E um Flamengo e os times grandes do Rio não suportam estar seis a oito meses juntos para ganhar um campeonato. O bom era o tempo que fazia grupos, se classificavam e iam se eliminando. Aí eu gostava porque você tinha oportunidade de se recuperar no meio da competição. Veja que o Flamengo já trocou de técnico três vezes. O CSA está trocando. O São Paulo está no terceiro técnico. Não adianta. O Brasil não comporta pontos corridos, cara. Eu já entrei no meio da confusão e é a pior coisa. Você não conhece o público, não conhece a torcida, não conhece o que envolve. É a pior coisa. Toda a vez que aconteceu isso eu quebrei a cara. Todas as vezes. Já trabalhei em lugar bom, mas quebrei a cara. Quando começava a entender, a batata já estava assando.

ESPN - Isso se aplica ao que o Jorge Jesus vai enfrentar no Flamengo, ele chegou em junho e...
Joel Santana:
Não quero nem falar sobre isso. Desculpa. Minha opinião é muito forte sobre esse assunto. Prefiro deixar de lado. Deixa acontecer...