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Torcedores de Bragantino e Red Bull declaram tristeza, apreensão e dúvida com projeto de parceria e fusão dos clubes

Um time para chegar à Série A e disputar competições continentais. Planos de novo estádio e centro de treinamentos e um orçamento inicial de R$ 45 milhões para montagem da equipe. As vantagens da parceria entre Red Bull Brasil e Bragantino parecem muitas, mas não suficientes para contentar totalmente a todos.

Torcedores dos dois clubes envolvidos expressam sentimentos mistos em relação à mudança que fará surgir o RB Bragantino. Em especial porque dizem ainda não ter entendido totalmente o que vai acontecer.

Para alguns, estão em risco até mesmo suas identidades.

"O QUE DIGO AO MEU FILHO?"

Em Campinas, onde o Red Bull Brasil mandava seus jogos, embora tenha sede em Jarinu, há sentimento de tristeza.

Cleber Alves, 38, gerente de eletrônicos de uma loja de departamentos, é gaúcho e colorado, mas adotou o Red Bull como seu time quando se mudou para o interior de São Paulo. Mais do que isso, apresentou o time aos filhos, que se tornaram torcedores.

"Sou bem sincero: com o torcedor que vai e acompanha, houve total falta de respeito, não se importaram", diz.

"Hoje, o que digo para os meus filhos?", questiona. "Eles não entendem o porquê. O adulto ainda consegue entender, mas as crianças não. Ontem, um deles me perguntou 'nunca mais vai ter jogo do Red Bull pai, acabou?'. É complicado, quando se cria expectativas, e o clube vai embora", lamenta.

Alves teme por algo ainda pior.

"Em caso de ruptura do acordo entre o Bragantino, qual divisão o Red Bull vai jogar? Porque a vaga na Série B é do Bragantino", diz ele. "Com quem fica a vaga na Série A, ou B, se a parceria não funcionar?", completa.

Vale frisar que se os dois times se mantiverem unidos para a disputa da A-1 do Campeonato Paulista de 2020, o terceiro colocado da A-2 será promovido juntamente com campeão e vice, como previsto. Ou seja: uma das vagas será perdida.

Natan Santos é corintiano e nem mesmo mora em Campinas. Mas acompanha o time diretamente da cidade de Santos, onde mora.

"Hoje, digo que tenho dois times grandes. Tenho muito carinho pelo Red Bull, tenho diversas camisas", revela.

Santos também está um pouco desconfortável, embora esperançoso. "Para o clube, vai ser ótimo jogar a Série B, o time vai crescer, especialmente se mantiver o elenco que jogou o Paulista", diz ele.

"Mas vai ser esquisito ver o time ali. Você vai saber que seu time está em campo, mas não está carregando suas cores, nem sua camisa", pondera. "Como vai ser isso?"

A promessa das diretorias, que ainda são duas, por enquanto, é explicar todos os detalhes ainda no início de abril.

BETO TOURO?

O nome oficial é Roberto Dias, 61. Mas, em Bragança Paulista, todo mundo o conhece mesmo como Beto Leão, pelos mais de 36 anos de atuação dele como mascote do clube do qual seu tio-avô José Assis Gonzales foi o primeiro presidente.

Torcedor fanático, evidentemente, Beto até evita falar sobre a possibilidade de o mascote do Braga deixar de ser o animal que lhe dá sobrenome. Indagado se toparia ser rebatizado como "Beto Touro", em alusão ao mascote do Red Bull, ele expressou preocupação.

"Essa pergunta é uma sinuca de bico. Sou conhecido há muitos anos como Beto Leão, não me vejo com outro nome", diz ele, tão doente pelo "Massa Bruta", apelido do clube, que chegou a antecipar o horário do velório de um irmão para não perder um jogo do time, há alguns anos.

"Minha mãe morreu me esconjurando, mas sei que meu irmão teria concordado", conta ele, entre risos.

Leão, cujos filhos Tiago, 35, e Rafael, 29, também são fanáticos pelo clube, demonstra entusiasmo com ressalvas pela parceria.

"Eu vejo com bons olhos", afirma. "Só não podem mudar o nome e as cores", diz, com um misto de esperança e temor.

A julgar pelo que disseram até agora Tiago Scuro, CEO do Red Bull, e Marquinho Chedid, atual presidente do Bragantino, Beto, ainda Leão, pode ficar tranquilo. A ideia, ao menos por agora, é manter escudo e cores, abrindo espaço para um uniforme alternativo vermelho.

Mas, até tudo de fato acontecer, a torcida ficará preocupada.

"Eu percebo que tem uma ala contrária e outra a favor", diz.

91 ANOS DE HISTÓRIA

Laércio Tarciso da Silva, 57 é mineiro e nasceu cruzeirense. Mas percebeu, em um confronto do time celeste com o seu Braga, há mais de duas décadas, na cidade em que mora há mais de 30 anos, que tinha o coração alvinegro.

"Eu queria que a Red Bull viesse e esclarecesse tudo de uma vez, como é que vai ser", diz ele.

"O Bragantino tem quase 100 anos (fundado em 1928, soma 91). A gente tem torcedor fanático, de 80 anos de idade, que não entende essas modernidades. Tá todo mundo com medo de o Bragantino acabar, mudarem o escudo, sabe-se lá", diz ele.

"Foi tudo assim, dia para a noite", diz. Informado de que diretores do dois clubes disseram que o nome “Bragantino” seguirá vivo, ele disse que a informação não chegou a todos.

Dono de uma tradicional padaria da cidade, ponto de encontro de torcedores, Laércio relata que são muitos os clientes que o procuram em busca de informações.

"O pessoal chega aqui e quer saber, mas eu sei tanto quanto eles, porque ninguém explicou direito", afirma o empresário, que já colaborou muito com o clube, com lanches para os jogadores em viagens e para os operários, na época da construção do estádio Nabi Abi Chedid.

Estádio, que vale, aliás, citar, será inicialmente reformado e pode até ser demolido, segundo apurou o ESPN.com.br.

"Já apanhei muito em estádio pelo interior viajando com o time", conta ele, que passou para a filha Tainá e o neto Enrico, o amor pelo clube.

Tanto Beto Leão quanto Laércio fazem parte de um grupo de cerca de mil torcedores que comparece a todos os jogos do time.

"Quando o time está ruim, vamos só nós. Com um time melhor, com essa parceria aí, tomara que aumente", espera.

Na fase de classificação do Paulista, o Bragantino teve público médio de 2.465 torcedores por jogo. Já o Red Bull teve 1.858, a mais baixa do Paulistão.