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Eurico Miranda, em causos: Romário na micareta, Luxemburgo pescando e 'vocês gostam de dinheiro?'

Um dos personagens mais polêmicos e marcantes do futebol, Eurico Miranda faleceu vítima de câncer no cérebro nesta terça-feira, no Rio de Janeiro.

Ao longo dos 74 anos de vida - grande parte deles dedicados ao Vasco da Gama, ele colecionou grandes histórias. Algumas delas entraram para o folclore do futebol.

O ESPN.com.br conversou com antigos funcionários, amigos e jogadores do time carioca que trabalharam com Eurico.

Veja abaixo alguns dos melhores causos do antigo mandatário:

Luxemburgo na pescaria

Na última passagem como presidente do Vasco, Eurico tentou contratar Vanderlei Luxemburgo para ser o treinador. O causo teria ocorrido entre 2016 e 2017.

"Não sei se é verídico, mas me contaram essa história quando trabalhei lá. Ele tentou falar com Luxemburgo em um sábado, mas quem atendeu foi outra pessoa. O Eurico falou que tinha a intenção de contratar o treinador, que estava de folga pescando. Disseram que só trataria assuntos de trabalho de segunda a sexta, que foi assim com o Real Madrid. O Eurico ficou irritado e teria respondido: 'Ah, é? Fala para o Luxemburgo.'.. O resto você imagine (risos). E desligou o telefone", relatou aos risos, Evandro Costa, ex-assessor de imprensa do Vasco entre 2014 e 2018.

"O Eurico queria resolver o problema naquele dia e o Luxemburgo não foi para o Vasco. O próprio Luxemburgo tinha esse desejo de trabalhar com o Eurico", relatou.

Mudança para Sibéria

Em 2015, Eurico soltou uma de suas mais famosas bravatas. Ele havia prometido que o Vasco não cairia no Brasileiro. E prometeu ir para a Sibéria caso isso ocorresse.

O time caiu, e o presidente assumiu toda culpa, mas não se mudou para a Rússia.

"Uma coisa que as pessoas não entendiam é que o Eurico não deixava as coisas sem respostas. Quando ele falou aquilo, ele tinha convicção com a experiência dele, de que isso jamais aconteceria. Ele falou esse exemplo absurdo de ir para um lugar bem longe. Saiu na hora. Ele achava que seria impossível cair na mão dele. Infelizmente aconteceu e as pessoas fizeram aquele Carnaval todo", recordou Evandro.

'Palavra valia mais do que escrito'

"O que mais me marcou foi a sinceridade dele. A palavra do Eurico valia mais do que qualquer papel assinado. Ele honrava o que falava para você. Passei a conviver na campanha dele à presidência do Vasco em 2014. Eu tinha um problema pessoal e o Eurico me ajudou muito porque quis fazer, eu nem estava ainda no clube. Passamos a trabalhar juntos e ele era muito engraçado, sempre tinha umas tiradas engraçadas em coletivas", disse Evandro.

"Eurico gostava de usar sempre uma frase: 'Muita calma nessa hora'. Várias vezes ele tomava algumas decisão que nos assustava na hora, mas o tempo mostrava que ele estava certo", contou.

Provocações aos adversários

"Os adversários não gostavam dele (risos). Ele não provocava para subestimar ou humilhar, ele estava promovendo o jogo. Teve uma vez contra o Fluminense que ele falou que um time de terceira divisão tínhamos que vencer por no mínimo três gols. Se isso acontecesse, iria pagar o 'bicho'. E ocorreu (risos). As provocações com o Flamengo também não eram com objetivo de gerar conflito ou ódio", recordou Evandro.

Liberou Romário para Micareta

Nenhum outro jogador da história do Vasco foi tão amado por Eurico quanto Romário. Quando era presidente, ele chegou a fazer uma estátua do "Baixinho" em São Januário. Ele foi um dos maiores patrocinadores do projeto do atacante, que era seu amigo desde a base vascaína, em chegar aos mil gols na carreira, fato que ocorreu no Brasileiro de 2007 contra o Sport.

Um dos causos mais engraçados da dupla aconteceu em outubro 2005, dias antes da vitória por 2 a 1 do Vasco sobre o Flamengo, pelo Campeonato Brasileiro.

"A rivalidade entre o Romário e o [técnico] Renato Gaúcho era o tempo todo um querendo mandar no outro, mas muito engraçada. Antes desse Vasco x Fla, o Romário tinha ido a uma micareta em Minas e não tinha concentrado com a gente. O 'Baixinho' não bebe, só tomava água e foi lá curtir. No outro dia, no café da manhã, todo mundo comentando: 'Vocês viram? O 'Baixinho' tá aqui, chegou de helicóptero no campo em São Januário e o Renato tá doido de raiva!'", recorda William Xavier, ex-atacante do Vasco.

O hoje senador havia ido ao "Carnatal", em Juiz de Fora, e curtiu ao lado do global André Marques a principal atração do bloco naquela sexta-feira: a banda "Chiclete com Banana", que havia acabado de lançar o CD "Sou Chicleteiro". Na manhã do sábado, se mandou para o Rio de Janeiro de helicóptero.

Sentados à mesa do almoço, estavam Renato Gaúcho e Eurico Miranda. Segundo conta William Xavier, o treinador bradou em alto e bom som: "Ele não vai jogar amanhã, nem sequer treinou! Como é que ele foi à micareta e não concentrou com o grupo, nem dormiu aqui? Isso é falta de respeito, não vai jogar!". Enquanto isso, o cartola pedia calma e tentava colocar panos quentes.

Nisso, chega Romário.

"Nós todos já tínhamos terminado o almoço, mas ficamos esperando para ver a cena. O 'Baixinho' chegou de bermuda e chinelo e sentou à mesa. O Renato olhou para o Romário e falou: 'E aí, como está? Dá pra jogar?'. O Romário manda na lata: 'Tá doido, pô? Se eu deixei a micareta e vim pra cá, é claro que eu quero jogar'. O Eurico deu a palavra final: 'Então, você vai jogar'. E saiu da mesa", narrou William.

'Vocês gostam de dinheiro?'

No dia seguinte, o do clássico pelo Brasileirão, Renato Gaúcho estava soltando fogo pelas ventas. No vestiário, não quis fazer nem fazer a preleção, de tão irritado. Quem falou foi Eurico Miranda, que disse que o jogo contra o Flamengo era um "campeonato à parte" e que o "bicho" seria dobrado em caso de vitória sobre os rubro-negros.

"Daí o Eurico saiu e os jogadores perguntaram: 'E aí, Romário, não vai falar alguma coisa?'. E o 'Baixinho' manda essa: 'Vocês gostam de dinheiro? Eu gosto. Então, vamos ganhar esse jogo' (risos)", conta William, às gargalhadas, antes de completar.

"Resultado do jogo: 2 a 1 pra nós e o Romário guardou o dele".

Romário na 1ª classe

Além de poder festejar, o antigo camisa 11 tinha outras regalias com o ex-mandatário vascaíno. No fim de carreira, só treinava quando queria, não era obrigado a se concentrar com o resto do grupo e nem viajar para os jogos fora de casa. E, quando ia, era com luxos e regalias.

"Tivemos um jogo contra o Grêmio e estávamos no aeroporto. Ele estava há um tempão sentado na primeira classe e tomando uma champanhe (risos)", gargalha o zagueiro João Carlos, que atuou no Vasco entre 2001 e 2002.

"Ele gostava de andar na janelinha com a Coca-Cola dele lá, tranquilão. Aquilo ficou marcado porque a comissão técnica e todos os jogadores na classe econômica e só ele na primeira classe (risos). Ele tinha muita moral. Sempre que tinha uma primeira classe no avião ele ia lá", continuou.

Pegadinha do Mallandro

Em 2015, Eurico Miranda foi "aconselhado" por Sergio Mallandro para evitar a queda do Cruz-Maltino para a Série B. Em um vídeo que fez sucesso na web, ele escuta em silêncio e, após receber várias dicas do ex-apresentador do SBT, dispara, para delírio dos presentes: "Vai tomar no c...".

"Eu estava jantando em um restaurante da Barra da Tijuca que eu e o Eurico frequentamos. Ele é muito engraçado, e nós começamos a conversar em turma, eu, ele, os filhos dele e uns amigos, contando histórias e rindo. Aí sentamos na varanda e comecei a dar algumas dicas para ajudar o Vasco", contou Mallandro.

"Existem palavras mágicas para quando o time entra em campo. Se você falar 'rá!', a bola vai rolar mais redonda e os caras vão acertas os passes. Se você falar 'rá ié ié', aí o time vai disparar. Agora, meu amigo, se você falar 'rá ié ié glu glu', seu time vai para a final da Libertadores (risos). São palavras mágicas!", recordou.

Apesar disso, o Vasco foi rebaixado.