Um dos destaques da defesa do Porto nas últimas três temporadas, o zagueiro Felipe tem uma trajetória quase inacreditável no futebol.
Nesta terça-feira, ele estará em campo na partida contra a Roma, válida pelas oitavas de final da Uefa Champions League, mas menos de dez anos atrás sua realidade era completamente diferente.
Até os 19 anos, ele nunca tinha feito categorias de base e havia praticamente desistido da carreira de jogador.
"Eu havia passado muitos anos tentando entrar em algum clube e, aos 18 anos, pensei que já estava tarde. Então escolhi trabalhar em outra coisa. Comecei a trabalhar com meus sogros no mercadão, entregava cogumelo para restaurantes e buffets. Não era exatamente o que eu queria, mas eu fazia com prazer, estava com pessoas próximas e trabalhando dignamente", disse, ao ESPN.com.br.
A chance de começar no profissional veio após jogar pelo time de uma empresa de tratores que fez parceria com o União Mogi, clube que jogava quarta divisão paulista.
"Quando eu estava trabalhando com meus sogros, eles voltaram a me procurar perguntando se eu queria jogar pelo time profissional. Como era meu maior sonho, eu aceitei", contou.
Após a competição, ele conseguiu mostrar um DVD com seus lances para o Bragantino, que resolveu contratá-lo. Ele se destacou na Série B do Brasileiro de 2011 e foi negociado com o Corinthians no fim do ano.
"Aprendi muita coisa. Treinei bastante, saída de jogo, rebatida, cabeçada, todos os fundamentos, posicionamento... Eu não tive base, então mesmo que tivesse jogado por União Mogi e Bragantino, não tive tempo de aprender muita coisa. Então no Corinthians tive todo esse trabalho de base, mas já como profissional, em um clube grande, com pressão, cobrança... Mas graças a Deus as coisas deram certo", afirmou.
Após passar algumas temporadas na reserva, ele se firmou como titular com o técnico Tite e foi campeão brasileiro em 2015.
Após 116 jogos, Felipe foi vendido ao Porto no ano seguinte. Na última temporada, venceu a Liga Portuguesa, quebrando uma hegemonia de quatro títulos seguidos do Benfica. Desde então, são 124 jogos e 10 gols marcados e algumas convocações para a seleção brasileira. Em 2019, o jogador entrou em campo nove vezes e ainda não foi derrotado.
Veja a entrevista com Felipe:
- Como você começou no futebol? Você fez testes em quais equipes até conseguir uma oportunidade? Onde fez base?
Não fiz base. Eu cheguei a fazer um teste no próprio Corinthians, quando tinha 14 anos, mas não passei. Também fiz na Portuguesa, Palmeiras... Não consegui passar em nenhum clube durante a infância. Antes, eu só jogava por hobby mesmo. Mas jogava futebol, vôlei, basquete, andava de skate... eu tinha essa veia esportiva mesmo. Até tive um convite de um professor de basquete para me tornar profissional, mas eu gostava mais de futebol. Meu pai me incentivou a jogar, porque ele também sempre gostou de futebol, e eu comecei a tentar.
- Aos 19 anos, você jogava na várzea e trabalhava fora do futebol. Quais empregos teve fora do futebol e como eram?
Eu havia passado muitos anos tentando entrar em algum clube e, aos 18 anos, pensei que já estava tarde. Então escolhi trabalhar em outra coisa. Comecei a trabalhar com meus sogros no mercadão, entregava cogumelo para restaurantes e buffets. Não era exatamente o que eu queria, mas eu fazia com prazer, estava com pessoas próximas e trabalhando dignamente.
- Como foi descoberto pelo União Mogi? Como foi o período por lá e jogar a quarta divisão paulista?
Eu tinha jogado em 2009 no Sub-20 do União Mogi. Na verdade, era um time de uma empresa de tratores de Mogi, a Valtra, que depois fechou parceria com o União Mogi. Quando eu estava trabalhando com meus sogros, eles voltaram a me procurar perguntando se eu queria jogar pelo time profissional, para disputar o Paulistão da Quarta Divisão. Como era meu maior sonho, eu aceitei. As dificuldades são as comuns em times menores, é uma realidade que muitos jogadores brasileiros vivem, então quem vai para um clube grande é privilegiado e tem que agradecer.
- Como foi parar no Bragantino? Quais os maiores aprendizados que tirou lá com Marcelo Veiga?
Nesse ano no União Mogi, acabamos montando um DVD com alguns lances meus. Um rapaz, chamado Samuel, me ajudou a chegar ao Bragantino. O Marcelo me ajudou muito também. Tive mais oportunidades na Série B, em 2011, joguei bastante. O esquema era mais com três zagueiros, mas pude começar a aprender mais sobre a função de zagueiros e os esquemas.
- Como surgiu o Corinthians na tua vida?
O pessoal começou a me falar do interesse durante a disputa da Série B ainda, mas não tinha nada concreto. Depois, quando acabou o campeonato, me falaram da possibilidade e não pensei duas vezes. Era um sonho pra mim jogar por um clube grande e eu poderia ter essa chance. Depois, o pessoal da comissão técnica falou que eles já tinham ido observar alguns jogos do Bragantino e gostaram de mim.
- Você enfrentou dificuldades no começo. Fale sobre a sua evolução no Corinthians...
Aprendi muita coisa. Treinei bastante, saída de jogo, rebatida, cabeçada, todos os fundamentos, posicionamento... Eu não tive base, então mesmo que tivesse jogado por União Mogi e Bragantino, não tive tempo de aprender muita coisa. Então no Corinthians tive todo esse trabalho de base, mas já como profissional, em um clube grande, com pressão, cobrança... Mas graças a Deus as coisas deram certo.
- Quais os melhores momentos que passou lá?
Os títulos e as amizades. É o que guardo pra sempre comigo.
- Fale sobre os grandes jogos que fez e o título brasileiro que foi destaque e titular...
É difícil lembrar de um especificamente, foram muitos jogos especiais, conquistas... Pude treinar muito e evoluir nos anos em que não tive muitas oportunidades, e em 2015 comecei a ter uma sequência maior. Foi muito importante para colocar tudo em prática do que eu havia aprendido antes. Com mais regularidade, acabei me firmando no clube.
- Olhando hoje como tua vida está. Quando tinha 19 anos, imaginou que chegaria tão longe?
Eu sempre coloquei na minha cabeça: acreditar. Meu pai e minha mãe nunca me deixaram desistir dos sonhos, minha esposa sempre esteve ao meu lado, e a família é base de tudo. Você passa por dificuldades, mas eles estão sempre lá por você. Naquela época, não era possível saber como tudo seria, não dava para imaginar que tudo seria tão bom assim. Graças a Deus, as coisas foram maravilhosas para mim. Eu poderia ter começado mais cedo no futebol? Poderia. Mas não me arrependo de nenhuma escolha que fiz e cada etapa foi um grande aprendizado.
