Genaro Marino: Crefisa sob controle, conversas com 2 empresas e 'risco de impeachment' para Galiotte

Neste sábado, o Palmeiras terá eleição para presidente. Na estreia do novo mandato de três anos, o atual mandatário, Maurício Galiotte, tentará a reeleição contra seu próprio vice, um homem que conhece o Verdão como poucos: Genaro Marino.

Sócio alviverde desde 1984, ele tornou-se conselheiro em 1997 e trabalhou em diversas funções, com destaque para o cargo de diretor social do clube e depois diretor de futebol na gestão Afonso Della Monica.

Mais recentemente, enveredou-se com força na vida política da agremiação e foi vice tanto da gestão Paulo Nobre quanto da gestão Galiotte, com quem agora está rachado por conta das mudanças nos contratos entre o time e a Crefisa, sua patrocinadora, que geraram uma dívida de R$ 150 milhões ao time, segundo Genaro.

"Nossa gestão tinha três pilares básicos: ética, transparência e auto sustentabilidade. [...] Passamos a não ter tanta ética e tanta transparência, e a auto sustentabilidade está em um caminho perigoso...", disse, em entrevista à ESPN na última quinta-feira.

O opositor disse concordar com tudo o que foi escrito na polêmica carta divulgada por Paulo Nobre, na última quarta-feira, que balançou os bastidores do clube. Marino diz que a Crefisa pode até seguir no clube, mas só se for melhor "controlada".

"Pode até haver continuidade, mas muita coisa teremos que discutir... Principalmente o conflito de interesses que existe hoje e a forma com que todos se relacionam", observou.

As alterações feitas nos contratos entre Palmeiras e patrocinadora, aliás, podem até abrir caminho para um possível impeachment de Galiotte no ano que vem, alertou o candidato da oposição.

"Pode até ser solicitado o afastamento, por conta do ato ilegal que ele praticou", disparou.

E caso a operadora de crédito deixe a equipe, o que seria trágico na opinião de Galiotte, Genaro garantiu ter duas alternativas já "na manga".

"Algumas empresas já nos procuraram perguntando se, caso a gente vença a eleição e a Crefisa saia, se nós ouviríamos (propostas de patrocínio). Eu já ouvi duas empresas", revelou.

"Nós informamos o patamar que temos hoje, e ela entende que é possível investir", garantiu.

Leia a entrevista de Genaro Marino à ESPN:

ESPN: Por que Genaro Marino rompeu com Maurício Galiotte e resolveu buscar a presidência do Palmeiras?
Genaro Marino: Minha principal motivação para buscar a presidência é porque estávamos nesse eixo desde 2013 que tinha três pilares básicos que queríamos manter: ética, transparência e auto sustentabilidade. Então, o que me fez querer ser candidato foi perceber que, do ano passado para cá, esse Norte estava sendo desviado. Passamos a não ter tanta ética e tanta transparência assim, e a auto sustentabilidade está indo por um caminho perigoso... Então, a situação que me fez buscar ser presidente é voltar aos trilhos de 2013, 2014, 2015 e 2016, continuando esse crescimento e fazendo o Palmeiras protagonista de todos os campeonatos que disputar.

ESPN: O senhor concorda com tudo o que o Paulo Nobre escreveu na carta de quarta-feira? Acha que as mudanças nos contratos entre Palmeiras e Crefisa podem deixar o clube "na lama", como disse o ex-presidente no documento?
GM: A princípio, pelo o que acompanhamos em todos esses anos, o que ele escreveu na carta é a pura verdade. Está narrando os fatos, e não escrevendo estórias ou interpretações. Eu concordo com tudo e destaco: nós, quando nos tornamos dirigentes de um clube, temos responsabilidade em seguir o Estatuto, as regras e manter a soberania do clube. Essa é a função do presidente. E o que eu tenho visto desde dezembro de 2016 [início da gestão Galiotte] até agora é que não estamos cumprindo nossas regras e nosso Estatuto. Então, eu pergunto ao sócio e ao torcedor: qual a função do dirigente? Não é cumprir as regras? No meu ponto de vista, tem situações em que você, mesmo não sendo a medida mais popular, ou mesmo não atendendo o interesse da maioria, tem que defender o interesse da instituição. E a nossa instituição, nos últimos dois anos, não teve suas regras seguidas.

ESPN: Então, caso o senhor seja eleito, a tendência é a Crefisa sair ou ficar?
GM: No caso específico do nosso patrocinador, todo mundo sabe que há um conflito de interesses, pelo fato dos patrocinadores serem também conselheiros. Dependendo da situação, nós tivemos neste ano a presença da Leila (Pereira, dona da Crefisa) no COF (Conselho de Orientação e Fiscalização) tentando justificar a alteração do contrato dela em relação ao balanço dela e do Palmeiras. Lá, ela se colocou como presidente da Crefisa e da FAM, e não como conselheira, e disse: se o Palmeiras quiser manter a Crefisa, ele que mude o contrato, porque eu não vou mudar. E, na minha visão, estamos expostos em relação à forma com que eles contabilizaram um valor que era de investimento em marketing, porque ela usava a imagem dos jogadores em propagandas, como empréstimo corrigido. Pelo valor da época, era de R$ 120 milhões, e hoje, com todos os aportes, é de R$ 150 milhões. Isso é uma dívida que o Palmeiras assumiu com seu maior patrocinador. Não é uma relação adequada ou correta. Todos acompanharam os depoimentos dela desde o início, em que ela falou que não emprestava (dinheiro), ela doava. Tem gravações disso. E depois, por um problema de lançamento contábil dela, o nosso presidente, sem autorização do COF e sem comunicação para nenhum de nós (vice-presidentes), alterou o investimento de marketing e transformou em uma dívida corrigida. Ele não tinha autonomia para fazer isso, porque nosso Estatuto diz que uma dívida dessa proporção deveria ter sido submetida primeiro ao Conselho. E nós só soubemos de tudo isso depois que o COF criou uma comissão e essa comissão detectou que havia duas alterações: o contrato de 2018 e um retroativo de 2017. Nossa filosofia de 'Palmeiras em primeiro lugar' foi por água abaixo, porque se transformou o risco do patrocinador em um risco do Palmeiras. O presidente é do Palmeiras, não da patrocinadora! Nós temos que defender nossos interesses, mas ele colocou todo o risco para o clube! Isso para mim não foi inteligente. E esse foi um dos motivos que, a partir de fevereiro deste anos, nós passamos a não compactuar mais, e por isso vim me tornar candidato, para recolocar as coisas nos eixos.

ESPN: Mas então a Crefisa fica ou sai caso o senhor seja eleito?
GM: A patrocinadora é muito importante. Ninguém é maluco de falar que um valor desse não é importante nesse cenário. Mas, hoje, o Palmeira tem quatro principais fontes de receita, e o patrocínio é só a 3ª maior. Antes, tem televisão e bilheteria. As rendas dos jogos são superiores aos patrocínios da Crefisa. E isso que nosso Avanti não está sendo bem administrado! Perdemos 40% de adimplência em dois anos, e todos só estão pensando na Crefisa, como se não existissem outras fontes de renda. A Crefisa representa 13,5% de nossa receita. Então, podemos administrar isso de uma forma sempre preservando os nossos interesses, os interesses da nossa instituição, e não os interesses dos outros. Nosso objetivo é ter a Crefisa como patrocinador, isso é importante, mas se todo o amor que ela falou que existia se mantiver, independentemente de quem for presidente. Queremos que possa ser continuado, mas muita coisa teremos que discutir, principalmente esse conflito de interesses que já citei, além da forma como todos se relacionam. Todos falam de compliance no país. Então, por que num clube que atingiu um patamar de quase auto sustentação essa diretoria trabalha as coisas dessa forma?

ESPN: O senhor foi processado pela Leila Pereira por danos morais depois da carta que escreveu contra ela ao lado de outros vices do Palmeiras. Considera a situação justa? Como reconduzir a relação com ela?
GM: Não enxergo como justo, e também não houve apoio do clube para que fosse solucionado de uma forma melhor. A declaração que ela deu ao blog (do Ohata, no UOL) dizia que se não fosse a pessoa que ela queria, no caso o Maurício, a vencer a eleição, ela sairia do clube. Ela, por ser patrocinadora e ter a fortaleza financeira que todos conhecem, eu entendi como uma pressão: ou é do jeito que ela quer ou ela sai. Então, nosso comentário foi em defesa da instituição. Eu usei o termo "revólver financeiro na cabeça", e acho que foi isso que a incomodou. Mas ela veio com a força de quem tem uma arma para cima de nós, e isso para mim é inibir outras pessoas de olharem de forma igual para A ou B. Ela quer o A, então todo mundo tem que seguir o A. Como está sendo agora. Hoje, a política aqui dentro do clube funciona assim: quem está com eles (Leila e Galiotte), eles colocam em cargos de diretores. Se estão contra, eles tiram e trocam os diretores. Então, essa forma de barganha de cargos é política antiga. Tudo o que combatemos no passado, de trocar cargos por apoio político, de dar benefícios de ir em shows, camarotes de jogos, dar ingressos, eles estão praticando. Então, para mim essa não é a boa política. Como gestor, tenho que avaliar o que é certo e o que é errado. Não dá para fazer o certo e ter o mesmo resultado? Não dá para fazer o certo e ter ganhos de forma natural? Essa velha política tem que ser combatida. Já passamos por várias fases, altos e baixos, e, agora que estabilizamos, voltaremos para a velha política? Todos sabem que a velha política em certo momento vai minar os alicerces que construímos. Minha maior preocupação é que o clube não saia dos trilhos.

ESPN: É possível encontrar um novo patrocinador que pague o mesmo valor que a Crefisa paga? Como o senhor agiria caso a operadora de crédito deixasse o clube?
GM: Quando nós vimos a notícia de que a Leila disse que, se a situação não ganhasse, ela sairia, nós tínhamos que analisar e colocar a mão na consciência. Para ser oposição, ou você tem que ter um bom motivo ou ser maluco. Como eu não me sinto maluco, começamos a analisar essa possibilidade. Temos quatro principais receitas. Se a Crefisa sair, teremos que melhorar as outras e buscar alternativas. O principal patrocinador do Palmeiras é o torcedor, que consome, que vem aos jogadores, impulsiona a receita, paga o Avanti. E o conjunto pode e deve ser melhorado. No mercado nacional, se existir um patrocinador de porte menor, que paga metade da Crefisa, e você conseguir melhorar as outras receitas, você não vai diminuir esse estágio que atingimos hoje. Não há por que o palmeirense pensar que vamos voltar aos anos anteriores, quando passamos por dificuldades. O clube está reestruturado. Agora, algumas empresas já nos procuraram perguntando se, caso a gente consiga vencer a eleição e a Crefisa sair, se nós ouviríamos (propostas). Eu já ouvi duas empresas. Pedi que uma delas faça carta de intenção, e pedi para que o advogado constate que é uma multinacional, uma holding. Nós informamos o patamar que temos hoje, e ela entende que é possível investir. Então, na medida do possível, quando tiver essa carta de intenção concluída, mesmo não sendo a tempo da eleição de sábado, vamos oferecer e registrar no clube como uma oferta de mercado, para que o clube analise caso a patrocinadora atual queira sair. Para nós, é importante ter relacionamento de longo prazo com patrocinadores, como houve com a Parmalat, a Pirelli... Mas os patrocinadores passam e a instituição continua. Por isso eu falo que não podemos ser dependentes de patrocinador. Temos que andar com as próprias pernas. Patrocinador é só um conjunto de variáveis que fará o Palmeiras continuar a ser forte como nos últimos anos.

ESPN: E como o senhor planeja pagar essa dívida que agora existe com a Crefisa, que, segundo o senhor mesmo disse, é de R$ 150 milhões?
GM: Esse aspecto está sendo analisado pelo COF. Quando o Galiotte assumiu essa dívida sem consultar os órgãos internos do clube, o COF começou a analisar o balanço da foram aprovados em 2017 e 2018. Se todos os balanços foram aprovados de uma forma, por que um mês depois ele mudou os contratos? Alguma coisa não está certa. O balanço de 2017 da nossa patrocinadora diz que o valor é empréstimo corrigido, e o do Palmeiras diz que é investimento em marketing. Se ele alterou o contrato retroativo neste ano, quem está correto é o patrocinador. E quem fez isso foi o presidente, sem falar com ninguém. Quando o COF começou a rejeitas as contas porque as bases não estavam adequadas, ele achou que o COF foi político e quis levar a questão para o Conselho Deliberativo. Só que, nessa fase, quem comanda é o COF. O Conselho Deliberativo só vai se manifestar sobre as contas deste ano no início de 2019. As contas mês a mês são analisadas pelo COF, que rejeitou porque as bases estão erradas. Então, dentro deste aspecto, existe uma situação não definida no clube. Quando se pensou em ter essas discussões no Conselho ou externar para a imprensa, o Palmeiras estava disputando a Copa do Brasil e a Libertadores, e por experiência do passado, quando se discute isso, acaba afetando o futebol mesmo que indiretamente. Então, tentamos postergar ao máximo essa informação, justamente para não provocar isso. Como saímos da Libertadores, o Deca está encaminhado e a eleição próxima, é oportuno falar agora. É o momento decisivo, e tem que falar, porque o sócio pode no sábado tomar uma decisão não adequada, gerando um problema futuro. E qual é esse problema futuro? Em função de todas as opções do presidente atual, ele pode, agora com a análise e ações que ocorrerão, ter seu mandato comprometido. Pode até ser solicitado o afastamento, por conta de um ato ilegal que ele praticou. Não discutimos isso antes porque, se atrapalhasse no futebol, todos iriam colocar a culpa na parte política. Mas quero deixar aqui esse aviso.

ESPN: Então o senhor diz que Maurício Galiotte pode sofrer impeachment por conta da questão Crefisa?
GM: Sim.

ESPN: Existe a possibilidade do Paulo Nobre, que está rompido com Galiotte e totalmente afastado da vida política do Palmeiras, voltar a atuar no clube se o senhor for eleito?
GM: Hoje o Paulo não tem vontade de participar porque se sentiu traído por todos. Ele trabalhou com todo mundo, recuperou o clube, colocando a vida dele, tanto física quanto financeira, em risco, porque arriscou seu patrimônio familiar. E, na hora da transição, quando pensou que haveria continuidade dessa forma moderna de administrar o clube, ele viu a velha política voltar. Eu, chegando à presidência, garanto que, com o tempo, o Nobre estará de volta, de uma forma ou de outra. A figura dele é positiva para o clube. Estando o Nobre junto em uma negociação com um possível patrocinador, no relacionamento com as instituições que fazemos parte, a chance de sucesso é muito maior. Ele é uma figura de representatividade na Federação Paulista, na CBF, na Conmebol, na Fifa. Convidaria para estar conosco, não com um cargo. Ele seria mais um consultor, um embaixador. Gostaria e tenho certeza que ele, pela amizade que tem comigo, nos ajudaria no que fosse possível. Se ele sentir vontade de participar, gostaria que ele voltasse. Temos que nos relacionar bem com os outros clubes também. É lógico que existe rivalidade e competitividade, e isso é até salutar. Mas devemos ter também respeito e bom relacionamento com todos. E eu gostaria de ter uma pessoa específica para esse tipo de relacionamento, por isso que eu falei da figura do Paulo Nobre. Quando eu participei de reuniões da CBF na Conmebol, a maioria dos dirigentes perguntava dele. Ele tem uma característica que poderia ser muito útil para o Palmeiras nessa função. Eu teria o melhor relacionamento possível com cada clube, sem nenhum preconceito.

ESPN: Mas o Nobre também sempre foi marcado por ser estourado, vivendo um momento muito difícil principalmente com o São Paulo e o ex-presidente Carlos Miguel Aidar. O senhor acha mesmo que ele tem um perfil de embaixador, um conciliador?
GM: O Nobre é movido por ação e reação. Teve uma ação, que foi negativa, pois a pessoa tripudiou conosco [N.R.: Em 2014, Aidar disse que o Palmeiras havia 'se apequenado'], e ele respondeu na medida do possível. É uma característica dele. E, no momento, concordo que tinha que responder dessa forma. Não vejo no Palmeiras uma figura que possa ser um embaixador a não ser o Nobre. Pode até ter outros indicados, mas acho que só ele teria essa característica.

ESPN: A situação diz que o ex-presidente Mustafá Contursi apoia a sua chapa. O senhor conta com o apoio dele? Vê espaço para ele na sua gestão?
GM: Mustafá não faz parte do nosso projeto. Nossa chapa é formada por quatro pessoas que são originárias de departamentos de planejamento estratégico do Paulo Nobre. Qual deles é do grupo do Mustafá. Agora, olhe os vice-presidentes da outra chapa... O Mustafá é uma figura tradicional no clube, todos estão envolvidos de alguma forma com ele. Quem organizou para que a Leila se tornasse conselheira? Mustafá. Quem sugeriu ao Paulo Nobre para indicar um dos vices à presidência? Mustafá. Então eu pergunto: quem está com Mustafá? O Mustafá está com ele mesmo. Deveriam perguntar para ele quem foi que ele apoiou... Tem uma parte do grupo dele que sei que votou conosco por entender que a nossa proposta é a correta, mas a maior parte está na diretoria do Galiotte, porque ofereceram cargos. O Seraphim Del Grande (presidente do Conselho Deliberativo) foi eleito presidente por apoio do Mustafá, que o trouxe de volta. Você vê que todo movimento político tem apoio do Mustafá. Agora que o Mustafá os apoiou e eles viram que não serve mais, querem colocar o Mustafá conosco. Analisem o que eles estão fazendo e se está correto ou não.

ESPN: E qual será o perfil do Genaro Marino presidente? Enérgico? Conciliador?
GM: Depende sempre da situação. Você tem que ser o que é. Eu, como descendente de italianos, muita gente acha até calmo... Mas, dependendo dos interesses, coloco sempre o Palmeiras em primeiro lugar. Tudo tem forma de se manifestar e se colocar. Tem coisas que tem que ser mais criterioso. Mas, quando formos prejudicados, aí tem que ser mais sanguíneo mesmo.

ESPN: E caso o senhor não vença, como será sua oposição no próximo triênio, agora fora da diretoria?
GM: Não pode ser oposição só por ser oposição. Tem coisas que todos devem acompanhar. Não podemos achar que só porque agora temos dinheiro nós podemos gastar como estamos gastando. Isso não é ser da oposição, mas sim sempre buscar o melhor para a instituição. Tem que fazer o melhor para o clube a todo custo. Não pode gastar o que não pode gastar, como aconteceu por muitos anos no Palmeiras e em outras equipes. Ter dinheiro é importante, mas saber gastar é mais importante ainda.