Ex-treinador do Real Madrid revela 'pecados mortais' do clube e diz que volante francês foi vendido para Beckham 'vender camisas'

Técnico dos Galáticos do Real Madrid durante uma temporada, Carlos Queiroz revelou quais foram os "pecados mortais" para que aquela equipe recheada de craques não confirmasse todo o potencial que tinha.

Refrescando a memória do fã de esporte, aquele Real Madrid tinha o goleiro Casillas, o lateral Roberto Carlos, os meias Beckham, Figo e Zidane e os atacantes Raúl e Ronaldo, apenas para citar parte do elenco estrelado dos madrilenhos.

Vinha de uma temporada vitoriosa com os títulos do Espanhol, da Uefa Champions League e do Mundial Interclubes.

No entanto, a temporada 2003/04 entrou para a história por ter sido um fiasco. O clube foi campeão somente da Supercopa da Espanha. Terminou o Campeonato Espanhol em um modesto quarto lugar, foi vice-campeão da Copa do Rei e parou nas quartas de final da Champions League, sendo eliminado pelo Monaco (equipe que acabou chegando até a final e perdendo a taça para o Porto).

Ficou para a história --até como uma das críticas recorrentes-- que o marketing tinha mais prioridade do que os compromissos esportivos. Havia muita vaidade e muita preocupação em encher estádios e vender camisas. Visões que são confirmadas hoje por Queiroz.

“Houve três pecados mortais cometidos quando eu estava em Madri. Foram os três M's: Milito, Makelele e Morientes. Esses três erros custaram os empregos dos três ou quatro treinadores depois de mim e muitos milhões de euros na reconstrução de Madrid. Esses três pecados mudaram tudo e foi a razão pela qual tudo correu mal", disse Queiroz, ao apontar o erros ao jornal "Tribuna Expresso".

Um convite especial

“Quando me disseram sobre o projeto e ofereceram o cargo de técnico, não me senti enganado. Eu sabia exatamente quais eram as implicações daquele trabalho, conforme [o diretor de futebol Jorge] Valdano me explicou. Ele me disse: 'Precisamos de um treinador para liderar este projeto e você é o homem que estamos procurando'", disse Queiroz.

"Quando você recebe uma oferta de trabalho do Real Madrid o seu primeiro pensamento é dizer sim. Depois você pensa nas consequências", prosseguiu o treinador de 65 anos.

Vendas erradas, muito marketing

“Durante o período em que eu estive no Real Madrid, vi que era um clube de vendas e não um clube de compras, pois a diretoria tinha uma meta, que era reduzir o déficit a zero, algo que o presidente havia prometido aos sócios. A política era basicamente: seis Galáticos - -todos no meio campo para atacar-- e os 'Pavones' ficavam na defesa. Mas naquela equipe, havia também [Claude] Makelele e [Fernando] Morientes e os dois saíram", disse Queiroz.

"Com o Morientes, logo após a conquista da Supercopa, tive uma conversa e disse: 'Vejo você na terça-feira'. E ele respondeu: 'Terça-feira? Você não ouviu? Fui emprestado para o Monaco'. Eu não fazia ideia", revelou o treinador.

“Na hora eu pensei que pelo menos eu ainda tinha Makelele e que assim poderia largar [Ivan] Helguera na defesa central, onde ele se saiu bem. Mas logo depois Makelele saiu para se juntar ao Chelsea porque ele não estava vendendo camisas e para que Beckham pudesse jogar no meio. A posição de Beckham era meia direita, mas quando entrei no Real Madrid, essa posição já estava preenchida por Figo”

Erro nas contratações

“Havia mais problemas. O Real contratou Gabriel Milito para substituir o capitão Fernando Hierro, que havia sido liberado apenas dois dias após vencer o time ter vencido o campeonato da temporada 2002/03".

“Nós perdemos Hierro. Eu precisava de um zagueiro, então trouxe Milito. Ele assinou o contrato depois de passar pelos exames médicos, mas na tarde em que tudo aconteceu, ele também foi rejeitado. Eu recomendei a contratação de Luisão, que estava no Benfica, e Pepe, que estava com o Maritimo --poderíamos ter assinado o Pepe por 1,5 milhões de euros e anos. Não foi feito. Anos depois o Real Madrid pagou 30 milhões de euros para trazer o Pepe [isso ocorreu em 2007]".

Arrependimentos?

“Não me arrependo do meu tempo no Real Madrid. Eu diria sim e faria tudo de novo. Você sabe, a ideia não foi ruim --misturar os melhores jogadores com jogadores jovens e em desenvolvimento. Hoje em dia, os jovens jogadores têm que ser bons”.