As pessoas adoram Cristiano Ronaldo. Às vezes eu esqueço disso, algo que provavelmente diz mais sobre mim do que sobre o jogador. Há doze anos, quando o mundo era totalmente diferente e Cristiano e Messi ainda eram jovens, começou a ficar claro que na nova era do futebol só haviam duas opções. Elas eram:
(1) Tentar entender que Messi e Ronaldo, como todos os seres humanos, são complexos e estão em constante mudança. Dessa forma suas carreiras refletiriam as complexidades e ambiguidades da existência humana, estando assim além de qualquer interpretação simplista. Ou...
(2) Ser bem menos compreensivo.
Se você é uma das seis pessoas que escolheu a opção 1, parabéns. Agora por favor me ensine a ser um ser humano melhor. Eu escolhi a opção 2. Não foi de propósito, claro. Sempre foi muito mais divertido pensar em Ronaldo como a antítese de Messi. Eu entendia os dois dessa forma, assim como a maioria das pessoas próximas a mim. O Twitter nos países que falam inglês seguia essa tendência também, mas de uma hora para outra apareceram milhões de pessoas falando de Cristiano Ronaldo como se ele fosse um anjo. Não sei explicar como isso aconteceu.
Mas aconteceu. Se não um anjo, pelo menos alguém digno de compreensão. Depois da transferência de mais de 100 milhões de euros que o levou do Real Madrid para a Juventus em julho, milhares de torcedores compareceram para acompanhar a avaliação médica de Ronaldo em Turim. A polícia colocou barricadas. A multidão tentou forçar, todos querendo chegar perto do ídolo para pedir um autógrafo ou conseguir um aceno. As pessoas no fundo tentavam gravar alguma coisa com o celular, mas estavam tão longe que só conseguiam filmar outras pessoas segurando seus telefones. A torcida mostrava as camisetas de Ronaldo (conseguidas depois de horas de fila) e gritava seu nome. Quando ele passou, impecavelmente vestido como se tivesse acabado de sair de um helicóptero (o que provavelmente era o caso), a multidão foi ao delírio. Era como se Cristo tivesse voltado ao mundo vestindo roupa de marca.
É claro que essa histeria com as grandes contratações no futebol não é algo raro. A apresentação de Santi Cazorla no Villareal foi literalmente um show de mágica. Mas com Cristiano Ronaldo a coisa atinge outro nível. Os gritos são mais altos. A paixão é mais intensa. Ronaldo tem mais seguidores no Facebook (122 milhões) do que qualquer outra pessoa. E tem mais seguidores no Instagram (139 milhões) do que qualquer outra pessoa que não se chame Selena Gomez. Não sei bem por que alguém gostaria de saber o que o craque escreve no Twitter, mas o fato é que ele está no top 10 também nessa rede social, com a bagatela de 73,9 milhões de seguidores. Como se não bastasse, Ronaldo também lidera o ranking World Fame 100 da ESPN, que lista os atletas mais populares do planeta, na frente de LeBron James e Messi.
A atenção midiática que ele recebe é surreal, muito maior do que qualquer outro atleta. Mesmo LeBron ou Messi não podem ser comparados. Assim, quando Ronaldo chega em um novo clube a torcida ganha um novo ídolo, claro, mas a coisa vai bem além disso. É como se um acontecimento épico tivesse como cenário o estádio do seu time. Desculpe pela linguagem, mas o fenômeno é bombástico. Subitamente o time do seu coração se transforma no quartel-general de uma força-tarefa global. Você acaba participando, envolvido pelo clima. E se torna parte daquilo também.
Estou falando sobre Ronaldo porque agora seu fim de carreira está chegando e parece que eu ainda não consegui entender bem a personalidade desse jogador. Talvez falar em fim de carreira seja exagero. Ele não está prestes a pendurar as chuteiras. Cristiano continua parecendo uma máquina em campo. Ele ganhou a Bola de Ouro ano passado, meu Deus! Seria um absurdo dizer que ele não é um dos melhores jogadores do mundo e que não continuará a ser nos próximos anos.
Ainda. Ele tem 33 anos. Quatro filhos. E muitas responsabilidades. Talvez precise até começar a pagar seus impostos. Ele já não é mais aquele playboy que ia por aí batendo Ferraris. Hoje em dia, acho que ele dirige seus super carros de milhões de euros respeitando o limite de velocidade. Quem o viu jogando na temporada passada ficou com a impressão que ele tinha perdido a capacidade de antever a jogada. No futebol profissional, essa capacidade é que diferencia os jogadores muito bons dos verdadeiros craques.
Esse ano tem tudo para ser um divisor de águas na carreira de Ronaldo. Ele jogou com Portugal aquela que todos acreditam ser sua última Copa do Mundo, embora ele mesmo garanta que quer jogar mais. Além disso, saiu do clube que marcou o auge de sua carreira e onde ganhou inúmeros prêmios individuais e coletivos para jogar na Série A da Itália, um campeonato que pouca gente lembra que existe. Acho que podemos dizer que tudo que vier depois é parte do final de sua carreira.
Que lição podemos tirar desse momento?
Às vezes me pergunto qual seria nossa opinião sobre a carreira de Ronaldo se Messi não existisse como jogador de futebol. O Ronaldo que acompanho há mais de uma década, mais ou menos a partir do dia em que Messi marcou um gol maradoniano contra o Getafe, depende tanto da comparação com o argentino que imaginar Cristiano sem Leo parece quase impossível. Como entender um sem o outro? Eu sei que as pessoas estão cansadas dessa comparação. Mas é impossível resistir à tentação.
Pense nisso: De um lado temos um gênio da bola, alguém com uma conexão profunda com o clube em que se formou, algo poucas vezes visto no esporte. Um tipo baixinho, não muito forte ou veloz, mas capaz de fugir dos adversários criando espaços da mesma forma que um poeta cria seu texto. Do outro lado temos... exatamente o oposto disso. Um super-homem. Tão perfeito que parece um boneco de brinquedo. Um cara mais rápido, forte, brilhante e egoísta do que qualquer outro em campo. Às vezes me dava a impressão de que a presença dos companheiros de time incomodava Cristiano, como se ele fosse um desses astros de rock megalomaníacos que gostam de tocar todos os instrumentos nos discos da banda. Cristiano e seu reflexo: Nascidos um para o outro!
Essa imagem não saiu do nada. Ela foi cultivada. Talvez não de propósito, isso seria pouco provável, mas foi algo que aconteceu naturalmente. Sua vida parecia uma propaganda de moda verão para ricos: cheia de óculos escuros espelhados, camisas polo e barcos à vela. Foi quando apareceu Messi, uma espécie de E.T. incapaz de se comunicar com os humanos através da fala, mas que sabia fazer mágica com os pés. Ronaldo estava mais para o personagem de Leonardo di Caprio no filme "o Lobo de Wall Street", um cara com talento mas sem o menor senso de humor.
Se você entendesse Cristiano assim, aceitando a lógica de que ele é o oposto de Messi, a consequência natural seria enxergar seu desempenho em campo da mesma forma. Você prestaria atenção nos pequenos gestos. Talvez eles signifiquem alguma coisa, pensaria você. Por exemplo, por que Ronaldo sempre parecia tão isolado em campo? Bom, não sei se isolado seria a melhor palavra. Digo isso porque a ideia de isolamento implica de alguma forma privacidade, algo que seria impossível de conciliar com toda a ostentação que cerca o craque. É como se todos os olhares estivessem sempre voltados para ele. As câmeras acompanhando cada movimento. As luzes enfocando. A torcida querendo tocá-lo. Todos paravam para vê-lo em campo, mas não parecia haver uma contrapartida. Cristiano se mostrava incapaz de demonstrar interesse por algo que não fosse produzido por ele mesmo. Mas o que vemos como narcisismo nele na verdade é a repetição de nosso próprio comportamento. Somos seus espectadores e ele também é um espectador de si mesmo.
Eu não me importo se um atleta não me conhece, posso admirá-lo mesmo assim. Ronaldo tinha essa postura peculiar em campo. Às vezes ela se nota antes de uma cobrança de falta. Às vezes antes de começar o segundo tempo. Ele aparece com aquela cara impassível e dá para imaginar como está vendo as outras pessoas: um monte de alvos, os rostos marcados por um pequeno X vermelho. Lá vai o goleiro - X. Esse é o técnico - X. Volante, ponta, juiz - cada um com seu X. E nas arquibancadas, milhares de X. As únicas coisas que importam são ele e o gol.
É legal pensar que a pessoa pela qual você está torcendo se importa minimamente com as opiniões dos outros. Mas Ronaldo não dava pinta de se importar muito. Sua atenção sempre parecia estar voltada para o próprio umbigo.
Por outro lado, provavelmente ele foi o atleta mais talentoso da história a desafiar o padrão "macho alfa de queixo quadrado" que é tão caro aos jornalistas esportivos de língua inglesa. (O queixo de Ronaldo, embora seja marcante, é mais trapezoidal). Seu estilo micareteiro e sua vida de super astro não tinham nada a ver com a figura de um machão tradicional. Será que eu estava mesmo tentando entender Cristiano ou estava fazendo aquilo que o acusava de fazer - ignorar completamente a existência da outra pessoa?
Uma partida que não me sai da cabeça é a final da Champions League de 2008. Lembra daquele jogo? O Manchester United de Ronaldo contra o Chelsea no estádio Luzhniki, em Moscou. Naquela época ainda não havia tanto dinheiro no futebol. O Chelsea e seu dono milionário ainda eram uma exceção. Talvez você se lembre de quando Didier Drogba foi expulso por acertar Vidic. Um simples tapinha. Se um velhinho atacasse você do nada, um tapa assim seria considerado aceitável.
Voltando ao tema, me lembro que o jogo foi incrível, disputado debaixo de muita chuva. O campo virou um pasto. Ronaldo abriu o placar. Ele entrou em campo em 42 dos 49 jogos do time naquele ano, quando tinha 23 anos e enfrentava os duros zagueiros da Premier League. Frank Lampard empatou um pouco antes do fim do primeiro tempo. O segundo tempo foi muito truncado. Na hora das cobranças de pênalti, o campo estava impraticável. Anelka perdeu a última cobrança, mas quem ficou marcado foi John Terry, que escorregou um pouco antes de bater na bola e acabou errando o chute.
Mas não foram os pênaltis perdidos por eles que ficaram na minha memória. O de Ronaldo sim. Não o erro em si, na verdade (ele não errou a cobrança, Petr Cech defendeu), mas o que aconteceu depois. Lembro de Ronaldo ajoelhado em campo, chorando. Primeiro de tristeza, por ter perdido o pênalti, e depois de alegria pela vitória do time apesar de seu erro. O choro de alegria foi mais marcante que o de dor. Foi a primeira vez que ele me fez sentir alguma empatia (e não admiração, irritação, ou mesmo aquela sensação de surpresa que sentia quando ele fazia uma jogada improvável).
Mas o que me tocou foi sua evidente sensação de alívio. Eu estava vendo tudo pela TV, muito longe do estádio. Mas deu para perceber que aquela alegria não era motivada pela vitória, por algo bom que havia acontecido. Ao contrário, aquela alegria expressava o alívio de alguém que sentiu algo terrível e muito doloroso, mas subitamente descobriu que foi tudo um engano e nada de errado havia acontecido. Ele errou e o mundo quase desabou em sua cabeça, mas milagrosamente tudo deu certo, a vida seguiu em frente e ele chorou.
Eu me lembro de ler em uma de suas biografias, escrita por Luca Caioli, uma descrição do que aconteceu depois da partida: seus companheiros de equipe ficaram perto do gol comemorando enquanto ele estava perto da linha lateral, chorando sozinho. "Ele queria ficar sozinho", conta Caioli, "para curtir o momento mais importante de sua carreira até ali. 'No final foi o melhor dia da minha vida', disse ele mais tarde".
Ronaldo chora muito, na verdade. Quase sempre depois de partidas importantes. Sempre que isso acontece, dá a sensação de alguém se soltando depois de aguentar uma tensão próxima do insuportável. Quando ele perde, é o fracasso absoluto. Quando vence, é o alívio da pressão. Pela fama de egoísta que tem, seria de se esperar que em momentos como esse ele quisesse passar a imagem de um super-homem: "olhem como sou o cara". Em vez disso, o tom da coisa é mais “Fiz o que tinha que fazer, não decepcionei ninguém, não estraguei tudo".
Cada vez mais é assim que entendo Cristiano. Esqueça a comparação com Messi e o que temos não é um vilão de James Bond, mas alguém com uma vontade tão desesperadamente grande de ser perfeito que sobreviver a isso parece impossível. Pense no estilo de jogo dele: muita intensidade, entrega, arriscando sempre o máximo. Ou tudo ou nada. É algo apavorante: Acerte 100% ou você pode perder tudo. Trabalhe mais, treine mais, mostre as veias do pescoço quando sorrir. É claro que alguém que precisa se comportar assim vai parecer distante das outras pessoas. E ninguém pode realmente ajudá-lo. Tudo isso só gera mais oposição, julgamento e retaliação.
E se pudéssemos ampliar esse raciocínio? Me refiro a todas as coisas que entendemos como sinais de egocentrismo ou vaidade - as roupas, os carros, os iates, o logotipo estampado em todos os objetos. Não seria possível entender essas coisas como compensações para a personalidade frágil de alguém que só se sente seguro quando é aclamado o melhor e mais perfeito em tudo?
O que não quer dizer que meio bilhão de seguidores nas mídias sociais estejam lá por se identificar com alguém impiedoso. Mas é possível sentir alguma vulnerabilidade por trás de toda essa ostentação. E uma das coisas mais curiosas sobre a idolatria pública é que muitas vezes ela é oferecida para as pessoas que mais parecem precisar.
Ele já foi acusado de coisas terríveis. Segundo matérias contestadas por Ronaldo, pelo menos três mulheres já disseram que foram agredidas sexualmente por ele em 2005 e 2009. Eu acredito nelas, o que diminui muito da simpatia que sou capaz de sentir por ele. Mas os fãs de esportes têm uma capacidade assustadora de habitar universos paralelos, onde nunca existe certeza absoluta sobre os erros cometidos por um ídolo. Não há imagens gravadas? Então não dá para saber com certeza. Esse é um comportamento doentio, mas (estou falando apenas por mim) é difícil remar contra a maré. O próprio silêncio se torna persuasivo. Poderíamos debater com as pessoas que insistem na inocência dele ou que dizem que isso não importa. Mas como vamos lutar contra toda uma cultura que simplesmente insiste que tudo isso (que, afinal, você não pode ver ou ouvir) não acontece?
As acusações são retiradas e as provas não se tornam públicas. Ronaldo na verdade são duas pessoas em uma só, e é fácil supor que aquele que vemos na televisão é o real. Assim como acontece com Kobe Bryant, mesmo pessoas que não gostam de Ronaldo raramente dizem algo sobre esse possível crime que poderia manchar sua imagem pública.
É graças a essa imagem que ele é o jogador mais paradigmático de sua geração, muito mais do que Messi. Messi é uma exceção em quase todos os sentidos. Ronaldo é a norma, mas a norma exagerada, aumentada, levada ao extremo. Ele é o mais mercenário e o mais globalizado em uma era globalizada e mercenária. Moldou sua vida com base em uma conta no Instagram, sempre ostentando muito e escondendo tudo aquilo que poderia ser prejudicial. E soube fazer isso muito bem. Olhem para as fotos: Cristiano relaxando enquanto toma sol na sacada, com o boné de beisebol virado para trás. Cristiano em uma mesa enorme cheia de taças de vinho e amigos maravilhosos e elegantes. Cristiano vestindo um terno preto e fazendo pose. Cristiano de camiseta mostrando o bíceps trabalhado. Claro que milhões de pessoas o amam. Ele se preparou para receber essa admiração.
Eu não consigo amá-lo como essas pessoas, mas há um ponto em que também não concordo com seus críticos. Geralmente Cristiano é criticado por supostamente ser uma personalidade falsa. A coisa mais lamentável e ao mesmo tempo humanizadora que posso dizer sobre ele é que talvez seus críticos tenham razão.
* Brian Phillips é autor do livro Impossible Owls: Essays, que será publicado no começo do mês de outubro. Ele já escreveu para o blog esportivo Grantland e para a MTV News.
