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Da 3ª divisão para campeão do mundo em 6 anos, Kanté ainda anda de patinete e carro batido

N'Golo Kanté não possui a mesma técnica de Mbappé, tampouco a marra de Pogba, mas isso não quer dizer que ele é menos importante na França que se sagrou campeã da Copa do Mundo. E o jogador, atualmente com 27 anos e grande destaque do Chelsea, por pouco nem virou jogador de futebol por causa de seu físico e, quando conseguiu uma oportunidade, penou em clubes pequenos antes de brilhar.

Filho de imigrantes de Mali, Kanté foi recusado em inúmeros clubes na infância, inclusive em Clairefontaine, o centro de treinamento da Federação Francesa fundado para formar jovens atletas e o motivo era sempre o mesmo: sua baixa estatura.

E seu 1,68m de altura foi um empecilho que atrapalhou sua carreira por bastante tempo. Isso porque, recusado na base do Paris Saint-Germain e do Bordeaux, ele só conseguiu espaço no modesto Boulogne, onde chegou com um contrato de amador e para jogar na equipe B.

Aos poucos, foi ganhando espaço, se tornando titular absoluto em 2012, quando o time estava na terceira divisão. O bom desempenho o levou ao Caen, da segunda divisão, onde atuou ao lado do brasileiro Felipe Saad, zagueiro com larga experiência no Campeonato Francês.

"Quando ele chegou, ninguém sabia quem ele era, mas logo no primeiro treino, todo mundo ficou impressionado. Em duas ou três pegadas na bola, a gente já vê que o jogador é diferenciado. Era sua primeira atividade e ninguém conseguia tirar a bola dele e ele ainda roubava todas as bolas. Foi engraçado que nós jogadores ficamos nos olhando e todo mundo se perguntou quem era esse fenômeno, que ele não ficaria seis meses no clube. Mas acabou ficando dois anos e depois foi para o Leicester. Mas realmente no primeiro treino já deu para ver que ele era diferenciado", disse o zagueiro, em contato com a reportagem do ESPN.com.br, explicando que na época o companheiro não atuava como primeiro volante e sim como meia pelo lado direito.

"Ele fez alguns meses nessa posição e o nosso time estava bem, em sexto ou sétimo colocado. No mercado de inverno a gente trouxe um jogador experiente, o José Saez, de 32 anos e ele fez o Kanté progredir ainda mais e a gente conseguiu subir para a primeira divisão", comentou, destacando a simplicidade e humildade do companheiro, que foi até "adotado" pela sua mãe.

"Ele morava perto do estádio e costumava ir de patinete para os jogos, só com uma mochilinha nas costas. Sempre foi um cara muito simples. Tenho certeza que hoje, jogando em times grandes e ganhando milhões, ele continua esse cara humilde. Um bom exemplo foi quando eu fiz aniversário, em setembro, fazia três meses que ele estava no Caen e não tinha muita intimidade com ninguém. Mas ele foi na minha festa e minha mãe, que estava me visitando na França, adorou ele. Eles ficaram bem amigos. Se abraçaram, conversaram bastante e até hoje, quando ela vê algum jogo da França ou do Chelsea ela comenta 'Ai que bonitinho o Kanté, meu xuxu'. Ela tem um carinho todo especial por ele", revelou Felipe, atualmente no Lorient.

Após dois anos no Caen, Kanté acabou negociado com o Leicester, time recém-promovido para a Premier League e que lutava quase que exclusivamente para escapar do rebaixamento. Porém, o time surpreendeu a todos e foi campeão da liga mais difícil do mundo. E a entrega do francês, eleito o melhor jogador da competição, pode ter sido um dos diferenciais. "Eu sempre achei que ele ia ter uma ótima carreira, mas foi algo muito rápido. Acho que a sorte que ele deu foi ter ido para o Leicester e ter sido campeão, né. Isso acelerou muito a progressão dele. A gente viu que ele era muito calmo e para ele todo jogo é igual, não importa se é um time da 8ª divisão ou se é o Paris Saint-Germain".

O sucesso o levou para o Chelsea, onde teve impacto imediato e participou da campanha que consagrou o time como campeão inglês e também à seleção francesa, onde estreou às vésperas da Eurocopa de 2016 e se tornou titular absoluto, algo que se mantém até hoje. Apesar disso, a sua simplicidade não mudou em nada. Nos tempos de Leicester, por exemplo, enquanto as estrelas do futebol mundial gastam uma fortuna com o visual, ele e seu companheiro Riyad Mahrez frequentavam um barbeiro em que, juntos, gastavam 10 libras. Seu carro era um simples Renault Mégane, que foi substituído por um Mini Cooper usado.

"Eu nunca fui alguém que ama carros. Quando eu era jovem, não tinha a ambição de ter um", revelou o volante, que sofreu um acidente com seu Mini, batendo o retrovisor antes de um jogo da Copa da Inglaterra. Ao invés de arrumar, ele apareceu no dia seguinte com o carro remendado com fita adesiva.

O 'MOTORZINHO' FRANCÊS

Quando passou a brilhar no Chelsea e na França, Kanté passou a ser considerado um dos melhores em sua posição em todo o mundo. Eden Hazard, seu companheiro de clube e rival derrotado nesta terça-feira, o descreve como "rato", em função da velocidade e da sua baixa estatura. Michael Ballack, que também atuou no clube inglês, se refere a Kanté como "uma mosca irritante", visto que ele não larga nunca os jogadores em que está marcando.

"Ele é totalmente fundamental para a França. Acredito que sem ele, a equipe não estaria aonde está. A gente vê como o Casemiro fez falta para o Brasil e durante uma participação em um programa aqui na França eu disse que considero que o N'Golo é mais importante para a França do que o Casemiro para o Brasil. Para mim hoje ele é um dos jogadores mais regulares e, para mim, o mais justo seria dar a ele o prêmio de craque da Copa. A França realmente depende muito dele", opinou Felipe Saad, que acredita até mesmo que Kanté "esconde" Paul Pogba, seu companheiro de meio campo na seleção.

"Acho que a parceria entre eles é muito boa, mas individualmente para o Pogba não acho tão boa, pois ele perde um pouco de influência. Ele está acostumado a dominar o meio campo no Manchester United e também nos tempos de Juventus e com o Kanté do lado, praticamente não sobra bola para ele recuperar. Então creio que individualmente ele some um pouco, mas coletivamente acho que os dois e mais o Matuidi formaram o melhor meio campo da Copa", disse ele, que acredita a França teve uma "ajudinha para chegar ao título".

"Sinceramente, acho que eles tiveram muita sorte em alguns jogos. A questão do pênalti com o VAR na estreia, a falha do Muslera, a lesão do Cavani. Então eles tem tido muita sorte e isso é até comentado aqui na França que o Deschamps tem muita sorte desde os tempos dele de jogador", disse. "Mas ele tem o mérito de ter feito um trabalho parecido com o do Tite. Ele motivou os jogadores, uniu o grupo, os fez atuar coletivamente e as individualidades de caras como o Kanté, Mbappé e Griezmann podem fazer diferença", completou.