Se hoje a bola da vez no futebol mundial é a Juventus por causa de Cristiano Ronaldo, há 70 anos quem davas as cartas era seu rival de Turim. Tetracampeão italiano consecutivo e base da seleção, o Torino veio ao Brasil em julho de 1948 a convite do Palmeiras para fazer uma série de apresentações em São Paulo.
A estreia ocorreu na mesma data desta quarta-feira, 18 de julho, no Pacaembu, um empate por 1 a 1 com o time alviverde diante de 40.872 pessoas.
Além dos quatro títulos italianos, o Torino tinha dez dos onze titulares da Itália e era uma verdadeira máquina de gols. Na temporada de 1947/48, fez 125 em 40 jogos. Tanto que entrou para a história como o "Grande Torino".
Para trazer o esquadrão italiano, o Palmeiras arcou com todos os custos. A quantia equivale hoje a R$ 2,1 milhões, segundo o IGP-DI (Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna) da Fundação Getulio Vargas.
Para se ter ideia do frenesi causado em São Paulo pela vinda do Torino, mais de duas mil pessoas foram receber os italianos no aeroporto de Congonhas, segundo relatou "A Gazeta Esportiva" na época.
A estreia no Pacaembu bateu o recorde de renda vigente, com mais de R$ 1 milhão arrecado. O estádio contou com a colocação de cadeiras na pista de atletismo devido a demanda do público, criando 600 novos lugares.
O Torino fez mais três jogos na cidade. Perdeu para o Corinthians por 2 a 1, resultado que foi tratado pela imprensa como zebra por causa da má fase corintiana e pelo jejum de títulos. Goleou a Portuguesa por 4 a 1. E empatou com o São Paulo por 2 a 2, em um jogo que teve briga.
Tinha ainda convites para encarar Fluminense, Vasco, Cruzeiro etc.
Todos foram recusados. O esquadrão italiano, que chegou rodeado de expectativas, despediu-se sem pompas. Aquela equipe ainda seria lembrada novamente quase um ano depois, mas por um motivo trágico.
Em 4 de maio de 1949, todo o time morreu em um acidente aéreo. O avião que trazia a delegação de Lisboa, em Portugal, chocou-se com um muro da Basílica de Superga, no alto da colina de mesmo nome, nos arredores de Turim.
Foram 31 vítimas, sendo 18 jogadores, três membros da comissão técnica, três dirigentes, três jornalistas e quatro membros da comissão de bordo. Ao retornar de viagem, ainda faltavam quatro jogos no Italiano para o time confirmar o pentacampeonato. Diante da tragédia, a Federação Italiana decidiu nomear o Torino campeão, mas os diretores do clube optaram por jogar os jogos restantes para confirmar o título em campo (o que o time conseguiu jogando com alguns reservas e muitos garotos da base contra adversários que também escalaram seus jovens talentos).
No Brasil, o Corinthians relembrou do Torino jogando um amistoso contra a Portuguesa com uma camisa grená. Palmeiras, Portuguesa e São Paulo organizaram missas em memória do time italiano.
Confira abaixo um resumo da visita do Torino baseada nos relatos dos principais jornais paulistanos, em julho de 1948.
CHEGADA
O Torino deixou a Itália em 11 de julho, em um avião da Panair, às 11h50 de Roma. Chegou ao aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, no dia 13.
Quem recebeu a delegação do Torino foi Hygino Pellegrini, presidente do Palmeiras, além de representantes do consultado e da embaixada italiana.
Valentino Mazzola, camisa 10 e capitão do Torino e da Azzurra, foi o primeira a falar em nome do Torino tão logo a delegação granata deixou o aeroporto do Rio de Janeiro.
"Estamos muito satisfeitos com esta oportunidade de jogar no Brasil. Viemos bem preparados e dispostos a confirmar o título de campeões da Itália, com a responsabilidade também de sermos bicampeões do mundo. Entretanto, não desconhecemos que vamos ter pela frente conjuntos poderosos, possuindo jogo de improvisação e velocidade, e conheceremos jogadores de alta classe. De qualquer modo, temos a certeza de que proporcionaremos ao público brasileiro espetáculo de esportividade, que virão fortalecer os laços cordiais entre os nossos dois países", disse Mazzola, segundo relato de "A Gazeta Esportiva" da época.
A delegação do Torino passou uma noite no Rio de Janeiro, sendo hospedada no Hotel O.K., na Cinelândia. Na manhã seguinte (14) visitou o consulado e depois embarcou em outro voo da Panair para São Paulo. Ao chegar na capital paulista, a equipe foi recebida por pouco mais de 2.000 pessoas.
A DELEGAÇÃO
O Torino trouxe 14 jogadores, dos quais nove eram titulares da seleção: Valerio Bacigalupo, Sergio Bani, Aldo Ballarin, Angelo Rigamonti, Giuseppe Grezar, Eusebio Castigliano, Danilo Martelli, Romeo Menti, Ezio Loik, Valentino Mazzola, Pietro Ferraris, Pietro Rosetta, Sauro Tomà e Franco Ossola.
Além deles, vieram três dirigentes (Tottino Yora, Sylvio Turati e Roberto Copernico), o técnico (Mario Speroni) e um árbitro Ermanno Silvano).
O IMPACTO
Desde 1929 o Brasil não recebia uma equipe italiana, sendo que naquele ano o Torino foi ao lado do Bologna (campeão nacional) um dos representantes da Itália, que fizeram jogos até no Rio de Janeiro. Antes, apenas em 1914, quando estiveram em São Paulo a Pro Vercelli e o próprio Torino para uma série de jogos amistosos.
A presença de imigrantes no Brasil a partir da virado do século 19 para o 20 foi bem acentuada. O país recebeu cerca de 1,5 milhão de italianos, sendo que a maior concentração foi em São Paulo e na região sul. Só na década de 40 vieram quase 16 mil italianos fugidos da guerra e/ou pós-guerra.
A vinda do Torino animou e muito a colônia italiana.
Para que a viagem do Torino fosse possível, o Palmeiras arcou com as despesas, mas não fez tudo sozinho. Contou com a ajuda de Corinthians, Portuguesa e São Paulo. Uma das formas para levantar o dinheiro foi a renda dos jogos e por isso o quarteto investiu até em publicidade nos jornais e nas rádios paulistas.
A Federação Paulista de Futebol não ajudou financeiramente, mas adiou as duas primeiras rodadas do Campeonato (nos dois primeiros domingos) para que todas as atenções ficassem centradas no Torino e jogos.
MAIS CONVITES
A vinda do Grande Torino ao Brasil atraiu muitos olhares e convites.
O Clube Ypiranga, um dos mais antigos da cidade paulistana, pretendia ser o quinto adversário dos italianos, que rejeitaram o convite. Fluminense, Vasco e até o Cruzeiro, que mandou um representante para tratar do assunto, foram outras equipes que se manifestaram com o mesmo interesse. Não tiveram sorte.
O Santos chegou a sondar, mas teve logo a possibilidade descartada. A Ponte Preta, cujo presidente foi ao Rio de Janeiro acompanhar a vinda do Torino, também não recebeu o tão desejado "sim".
Nem mesmo a possibilidade de se formar um combinado com jogadores de Corinthians e Palmeiras prosperou. O Torino queria retornar o quanto antes para a Itália, descartando até enfrentar o Boca Juniors, em Buenos Aires.
PROGRAMAÇÃO
Além dos quatro jogos no Pacaembu, o Palmeiras organizou uma agenda lotada de atividades para o Torino.
Os compromissos incluíam visitar as praias de Santos, Guarujá e Praia Grande; conhecer o Instituto Butantã; ir ao Horto Florestal e a reserva da Cantareira; visitar à penitenciária municipal, entre outros.
COPA TORINO
Uma taça chamada Copa Torino foi oferecida para ser disputada entre os times aspirantes de Corinthians, Palmeiras, Portuguesa e São Paulo. Essas equipes fizeram as preliminares dos jogos do Torino.
O destino da taça teve um desfecho curioso. Terminado a série de quatro jogos, Corinthians e Palmeiras somavam a mesma quantidade de pontos. Ambos tinham o mesmo saldo também. Assim, foi estabelecido que a posse do troféu seria decidido em setembro, quando os dois times se enfrentariam pelo Campeonato Paulista de aspirantes.
O clube do Parque São Jorge venceu por 2 a 1 e levou o troféu.
DIA 18, PALMEIRAS NA ESTREIA
A estreia do Torino ocorreu contra o Palmeiras em um domingo, 18 de julho. Foram 40.872 pagantes para uma renda, que em números atualizados, correspondeu a exatos R$ 1.170.592,39.
O valor foi recorde para época e não seria superado nos três jogos seguintes. Apesar de terem tido mais pagantes, os confrontos com Corinthians, Portuguesa e São Paulo tiveram rendas bem menores do que a estreia.
O duelo entre Torino e Palmeiras não chegou a cumprir tanto as expectativas. Terminou empatou por 1 a 1 --os gols foram de Gabetto, aos 29 minutos, e do palmeirense Lula, aos 43, ambos no primeiro tempo.
Algumas manchetes de "A Gazeta Esportiva" foram "Bacicagulpo: o único atrativo do prélio internacional; "O Pacaembu reviveu um dos seus maiores dias"; e "Não jogou o Torino um terço siquer [sic] do que pode", repercutindo declarações dos próprios jogadores do Torino após o confronto no Pacaembu.
A cobertura de a "Folha de S.Paulo" e "O Estado de S. Paulo", que tinham menos páginas e menos espaço dedicados para a cobertura esportiva, também refletiram essa decepção, especialmente com o Palmeiras.
A equipe alviverde era a detentora do título paulista de 1947 e jogou completa. Vale destacar que o texto de "A Gazeta Esportiva" destacou que acreditava em uma possível melhora do Torino nas apresentações seguintes.
E a partida ainda teve uma polêmica. O árbitro italiano Ermanno Silvano anulou um gol de cabeça de Lima, no final da partida, alegando que o palmeirense usou a mão para conseguir virar o placar.
DIA 21, DERROTA PARA O CORINTHIANS
O segundo jogo do Torino foi contra o Corinthians, clube que não era campeão estadual desde 1941, vinha de resultados não muito bons, com derrotas para Santos e São Paulo. Por isso todos esperavam triunfo dos italianos.
A surpresa foi grande com a vitória corintiana por 2 a 1 (gols de Baltazar, aos 43 do primeiro tempo, Colombo, aos 26 do segundo, e Gabetto descontando aos 36), diante de 45.946 pagantes para renda de R$ 775.038,59.
O duelo teve duas curiosidades. A primeira foi que os jornais paulistanos trataram o confronto como uma revanche de 34 anos. Isto porque o Torino enfrentou o Corinthians duas vezes em 1914 e venceu ambas: 3 a 0 e 2 a 1.
A outra foi que o jogo foi à noite, algo comum desde a década anterior no Brasil, mas uma novidade para os italianos. O Torino jamais havia jogado com iluminação artificial e ficou admirado com o avanço brasileiro.
DIA 25, GOLEADA NA PORTUGUESA
"Vitória clássica do Torino".
Assim descreveu a edição de segunda-feira de "A Gazeta Esportiva", após o Torino golear a Portuguesa apor 4 a 1, fazendo jus à força ofensiva.
Mazzola, Gabetto (duas vezes) e Castigliano fizeram os gols do Toro. Pinguinha chegou a empatar para a equipe lusitana no final do primeiro tempo, mas na etapa final ela acabou derrotada sofrendo mais três tentos.
O público decepcionou. Pouco mais de 30 mil para renda de R$ 643.818,48.
DIA 28, BRIGA COM O SÃO PAULO
O último amistoso do Torino em solo brasileiro em 1948 foi contra o São Paulo, equipe que dividia com o Palmeiras o domínio no futebol paulista nos anos 40, e contava com estrelas como Leônidas da Silva, artilheiro da Copa do Mundo de 1938, com sete gols anotados pela seleção brasileira.
Também à noite, a partida terminou 2 a 2, gols de Gabetto, aos 11 minutos, Ponce De Leon, aos 15, e Castigliano, aos 33, todos no primeiro tempo. Na etapa final, o São Paulo empatou com Lelé, aos 13, em cobrança de pênalti.
O que ficou mais marcado foi uma briga em campo durante o início da etapa final. Tudo começou com uma entrada mais dura de Leônidas em Rigamonti, que teve de ser substituído por Rosetta. Isso acirrou os ânimos.
Depois o goleiro Bacigalupo foi atingido por De Leon e revidou com uma agressão. Deu-se início a uma grande confusão. Leônidas entrou em cena e também agrediu o goleiro. O jogo foi parado por alguns minutos.
Os jogadores do Torino foram para o vestiário, desistindo do jogo. Acabaram convencidos a voltar em consideração ao público. Assim que a partida recomeçou, o árbitro Mario Gardelli expulsou Bacigalupo e Leônidas e marcou pênalti para o São Paulo. Sergio Bani foi improvisado na meta torinista. Chegou a espalmar a cobrança de Lelé, mas sofreu o gol no rebote.
DESPEDIDA SEM GLAMOUR
O Torino regressou para a Itália em 31 de julho, após 18 dias de estadia no Brasil. A tournée, que começou recheada de expectativas, terminou com saldo de uma vitória, dois empates e uma derrota. Oito gols marcados e seis sofridos.
Os jornais questionaram o poderio da equipe grená, base da seleção italiana. Antes de deixarem o Brasil, os torinistas chegaram a justificar terem vindo de uma temporada desgastante, com 45 jogos (40 pelo campeonato e cinco amistosos), e terem pouco tempo para treinar.
Como dito no início do texto, aquele time ainda brilharia na temporada 1948/49, mas sofreria um trágico fim em 4 de maio de 1949, quando o avião que trazia a equipe de volta de Lisboa chocou-se com um dos muros da Basílica de Superga, no alto da colina de mesmo nome. Todos morreram na hora.
*Um agradecimento especial para a biblioteca do Museu do Futebol, no estádio do Pacaembu, que permitiu que a reportagem consultasse os jornais da época.
