Em 12 de julho de 1998, a França faturou a primeira - e até agora única - Copa do Mundo após vencer Brasil por 3 a 0. Foi um dos momentos mais memoráveis e intensos que a nação já experimentou e transcendeu o futebol. O triunfo teve repercussão social e trouxe uma sensação de unidade que, sem dúvida, só acontecera anteriormente por causa da guerra.
Além disso, como alguns de seus protagonistas explicam, há uma natureza notável na glória da França, principalmente pelas perspectivas geradas nos anos que antecederam ao torneio.
Unidos contra os que duvidavam
Em 1994, Aimé Jacquet assumiu o cargo de técnico da França após ter ficado nos dois anos anteriores como assistente do então comandante Gérard Houllier.
A seleção tinha perdido a vaga na Copa daquele ano nos EUA de forma desastrosa. Precisando apenas de 1 ponto para carimbar o passaporte, eles conseguiram perder os dois últimos jogos em casa para Israel e Bulgária com gols no último minuto.
O trauma foi enorme e exigiu uma reconstrução antes do Mundial que a França sediaria quatro anos depois. Apesar de chegar às semifinais da Euro de 1996, na Inglaterra, a imprensa francesa tinha enormes desconfianças com Jacquet.
Robert Pires (meia francês campeão do mundo em 1998): "Sabíamos que o [jornal] L'Equipe não achava que ele era bom o suficiente. Eles questionaram tudo o que ele fez, todas as suas escolhas, todas as suas táticas. Tornou-se realmente desagradável e pessoal também. Você podia sentir como a atmosfera era negativa em torno da equipe. Sentia-se muito como se fôssemos contra o mundo."
"Para mim, o elemento-chave da unidade e solidariedade que os jogadores e a equipe criaram aconteceu em dezembro de 1997, quando Jacquet organizou um encontro em Tignes, a estação de esqui nos Alpes, para os jogadores e suas famílias no Natal. Jacquet teve um grande encontro com os jogadores e longas conversas com os líderes. Ele disse: 'É assim que eu trabalho, é o que farei, onde estamos indo juntos'. E ele terminou dizendo: 'Vamos fazer algo enorme nesta Copa do Mundo'. Agora, sabíamos que os jogadores estavam a bordo. Ele nos convenceu a dar tudo por ele, a acreditar nele e a segui-lo."
Bixente Lizarazu (lateral francês campeão do mundo em 1998): "Jacquet levou todas as críticas para ele, mas se certificou de que elas realmente não nos afetassem. Foi uma aula de mestre dele. Ele queria nos proteger tanto. Ele teria feito qualquer coisa para nos mantermos focados e confiantes. Ele nunca disse uma palavra. Ele poderia ter usado os críticos para nos tornar mais determinados ou com raiva ou para se vingar. Ele poderia ter dito: 'Olha, eles não acreditam em você, então vão lá e mostrem a eles que eles estão errados'. Mas ele não fez. Ele era tão digno. Nós não nos importamos com o mundo exterior. Nós só nos concentramos em nós mesmos. Nós nem sentimos nenhuma pressão. Nós estávamos tão prontos para chegar lá e nos preparar para competição da melhor maneira possível. Todos nós queríamos estar no nosso melhor quando tudo começou."
Stéphane Guivarc'h (atacante francês campeão do mundo em 1998): "Os resultados não foram bons o suficiente antes do início do torneio. Mesmo sem ler todos as notícias ou escutar todos os debates sobre a equipe, sabíamos o que as pessoas pensavam. Mas é parte do trabalho, e as críticas sempre melhoram você. Todos os jogadores estavam acostumados com a pressão, especialmente os líderes."
Desconfiança no começo
A França começou a fase de grupos com uma vitória por 3 a 0, que aliviou a pressão, frente à África do Sul, em Marselha. Veio nova goleada, contra a Arábia Saudita, 4 a 0. Por fim, 2 a 1 sobre a Dinamarca. Assim, a equipe chegou às oitavas de final com 100% de aproveitamento, 3 vitórias, 9 gols marcados e apenas 1 sofrido.
Nas oitavas, contra o Paraguai, a vitória por 1 a 0 foi obtida apenas na prorrogação, com direito a muito sofrimento. Já nas quartas, mais drama, e os franceses só eliminaram a Itália nas penalidades após empate sem gols no tempo normal e na prorrogação.
Lizarazu: "Havia sinais de que as coisas estavam indo em nossa direção. O primeiro jogo, a fase de grupos e depois a sensação de algo bom para nós nas oitavas de final: o gol de ouro de Laurent Blanc contra o Paraguai. Depois, nos pênaltis contra a Itália, Lilian Thuram e seus dois gols na semifinal contra a Croácia. A final parecia mesmo um jogo fácil por que nos sentíamos tão fortes e imparáveis. Nós podíamos sentir o quão forte nós éramos."
Philippe Tournon (assessor de imprensa da seleção francesa em 1998): "Deschamps não ficou satisfeito com a falta de apoio que recebemos no início da competição. Ele queria mais barulho, mais paixão. Percebemos que o país estava conosco quando viajávamos de nossa sede em Clairefontaine, 45 minutos ao sul de Paris, para Lens, no norte, para as oitavas. Chegamos lá de ônibus e, ao longo do caminho, vimos centenas de pessoas nas estradas, em seus carros, acenando para nós, encorajando-nos."
Thuram vai de vilão a herói
Pires: [Nas semifinais, Thuram] cometeu um erro no gol da Croácia, no passe de Aljosa Asanovic para Davor Suker marcar. Estávamos perdendo por 1 a 0 e podíamos ver que 'Tutu' não estava feliz. Então ele vai lá e marca duas vezes, do nada, nos dá a vitória e nos coloca na final. Quais eram as chances de isso acontecer? Foi incrível. Ele sempre costumava dizer que quando ele estava na frente do gol, ele nunca sabia onde chutar por que achava que o goleiro estava sempre ocupando muito espaço! Então, para ele, marcar dois gols na semi foi incrível. Ele sempre costumava comer uma tigela de salada todas as noites durante a Copa. Todos nós pensamos que esse era o segredo de seu sucesso. Então, entre a semifinal e a final, todos nós comemos uma tigela de salada!".
O drama de Ronaldo domina a final
A França chegou à final apoiada por uma nação fervorosa, mas o time de Jacquet era um azarão contra o campeão Brasil. No entanto, as horas antes do jogo viram uma saga se desenvolver que mudou o panorama do confronto.
Cesar Sampaio (volante do Brasil vice-campeão em 1998): "Nós ficávamos em um Château, com um andar todo para gente. O quarto do Ronaldo ficava dois quartos depois do meu, onde eu ficava com o lateral Zé Roberto. Por volta das duas horas da tarde, escuto uns gritos do Roberto Carlos no corredor dizendo que o Ronaldo estava passando mal. A gente sai no corredor, vejo o Roberto desesperado, entro no quarto, eu e o Edmundo fomos os primeiros a entrar. Aí, olhamos, e é uma cena chocante para a gente, como leigo. Eu vi o Ronaldo se debatendo, com dificuldade para respirar, cabeça roxa, musculatura contraída, babando um pouco. Eu já tinha passado por algo parecido, quando meu pai caiu em casa, ele teve uma convulsão. Depois aprendi com o médico o jeito certo de resolver, tem que virar a cabeça para evitar que o paciente engasgue. Mas na ignorância a gente puxou a língua dele para que ele pudesse respirar. Nisso começaram a chegar as pessoas, a seleção inteira viu. Ai chegaram o médicos, interviram, aplicaram um sedativo no Ronaldo. Ele então se controlou e dormiu. Daí em diante começou a conversa se o Ronaldo ia jogar ou não. Pelas lideranças do time ficou decidido que ele não jogaria."
Pires: "Foi apenas quando estávamos a caminho do Stade de France que alguém me disse que o Ronaldo tinha um problema e ele não podia jogar. Mas era tarde demais. Se ele jogaria ou não, não mudaria nada em nossa abordagem ou plano de jogo. Nós realmente queríamos que ele jogasse. Nós nos sentíamos tão prontos e tão fortes que estávamos prontos para qualquer coisa."
Sampaio: "A gente sempre ia fazendo um samba no ônibus, mas nesse dia foi todo mundo em silêncio, preocupado... Ele era o melhor jogador do time, mesmo com o Rivaldo e o Bebeto vivendo uma fase melhor, mas o Ronaldo era nosso diferencial ofensivo. Depois veio a informação que o Ronaldo não teve nada de mais sério, algo que até hoje falam várias coisas, que colocaram algo na comida, falam que estava tomando medicamento para o joelho, falaram de problema extracampo... Aí minutos antes do jogo, com a gente trocando de roupa, chega o Ronaldo no vestiário dizendo: 'Eu vou jogar, não deu nada no exame, eu quero jogar, pode ser minha última Copa'."
Pires: "Você poderia dizer que o Brasil e os jogadores foram afetados pelo que aconteceu com Ronaldo. Mas mesmo que ele estivesse apto 100%, estávamos tão confiantes de que venceríamos que ele não teria feito diferença para nós."
Sampaio: "Nós pensamos que ele poderia morrer em campo. Nós sentimos que ele arriscou sua vida na final. Não estávamos nem com 50% da habilidade que mostramos anteriormente. A gente estava, eu estava preocupado com o Ronaldo, por que para a gente... existem alianças que a gente forma. O Ronaldo era um membro da minha família que estava sendo exposto ao risco. Por maior que seja a conquista de uma Copa do Mundo, ou a perda dela, você pode reconquistar, pode ter uma nova oportunidade. A vida não, é uma só."
O triunfo francês
A Copa do Mundo de 1998 pode ser lembrada por muitos como o torneio de Zinedine Zidane, que marcou dois gols contra o Brasil na final. Emmanuel Petit fechou o marcador no fim do segundo tempo. Antes desse jogo, porém, o camisa 10 passou por maus bocados. O astro foi expulso de forma infantil na estreia contra a Arábia Saudita e pegou dois jogos de suspensão.
Pires: "Acho que ele realmente queria se redimir depois do cartão vermelho. Ele sabia que cometeu um erro, mas também queria fazer mais na final do que nas partidas anteriores."
Guivarc'h: "Zidane foi nosso melhor jogador, provavelmente o melhor jogador que a França já teve e sempre soubemos que ele era isso. Você sabia que, se existia alguém que pudesse nos fazer ganhar a Copa do Mundo, era ele. Até a final, a verdade é que ele não estava no seu melhor."
Lizarazu: "A força coletiva desse time fez a diferença. 'Zizou' era parte disso e ele tinha um grande papel a desempenhar. Mas fomos nós como equipe. Nós vencemos todos os desafios e obstáculos juntos."
Pires: "Grandes jogos pertencem a grandes jogadores. Não há jogo maior do que a final da Copa do Mundo, então foi o palco dele. É aí que ele queria brilhar e ele fez exatamente isso. Aimé Jacquet viu uma fraqueza na defesa do Brasil. Ele disse para Zizou se antecipar nos escanteios por que os brasileiros não saltavam no primeiro pau. A história mostra isso com as duas cabeçadas que ele conseguiu."
A França parou para a festa!
Victoire! O apito final foi o sinal para milhões de pessoas em êxtase entrarem nas ruas de toda a França. O impacto da vitória foi além do futebol no país.
A equipe se tornou conhecida como "la France black-blanc-beur" (negra, branca e do norte da África), devida à sua variedade de etnias: Marcel Desailly nasceu em Gana, e Patrick Vieira no Senegal. Lizarazu e Didier Deschamps eram do País Basco francês, e Petit veio da Normandia. Os pais de Zidane vieram da Argélia, a mãe de Pires veio da Espanha, seu pai de Portugal, a família de Thierry Henry era de Guadalupe, nas Antilhas Francesas, e Youri Djorkaeff era descendente de armênios.
Tournon: "Foi surreal. Nós estávamos em outro planeta. Nós não percebemos o que tinha acabado de acontecer. Somos campeões mundiais, mas o país está sentindo muito mais que isso. 1 milhão de pessoas na Champs-Élysées para o desfile, toda a França nas ruas, o resto do país comemorando. Nós não poderíamos acreditar. Parecia um sonho."
Lizarazu: "Foi uma loucura na Champs-Élysées. Nos seis meses seguintes, as pessoas ficaram histéricas. Nós lhes trouxemos felicidade, e eles precisavam disso. Mesmo quando a vida voltava ao normal, alguns meses após a final, você ainda podia sentir que a atmosfera era especial em todo o país."
A França se tornou a primeira nação anfitriã desde 1978 a conquistar a Copa do Mundo. Desde então, nenhum outro país repetiu o feito.
Guivarc'h: "O impacto no país foi tão especial por que se tornou muito mais do que apenas um jogo de futebol. Pela primeira vez, os franceses de todas as origens tinham algo em comum, seu time de futebol. Além do fim da Segunda Guerra Mundial e da libertação do país, nada jamais nos aproximou dessa maneira. Foi tão bonito de se ver. Foi apenas esporte e futebol, mas fez muito. Foi tão poderoso. Em retrospectiva, você percebe o que você fez para o seu país."
Pires: "Por um período de tempo, nós demos às pessoas não apenas felicidade, mas também esperança. Nós acreditamos que nada era impossível. Nós lhes demos fé e confiança em si mesmos. Isso mudou a mentalidade e deu novas perspectivas para algumas pessoas que precisavam. A mensagem deste triunfo da Copa do Mundo foi tão poderosa."
Lizarazu: "Eu sempre digo que este triunfo da Copa do Mundo é como um copo de vinho francês. Quando você bebe, você aprecia o sabor, a doçura e traz felicidade. Todo francês, quando pensa em 1998, seu rosto se ilumina, e a felicidade vem."
Tournon: "Ainda hoje, Aimé Jacquet é parado nas ruas por pessoas dizendo-lhe quanta alegria e felicidade ele lhes deu em 1998. Demorou algum tempo, mas então você percebe o quão inacreditável tudo foi."
