Poucos brasileiros podem falar com tanta propriedade sobre o futebol belga como Igor de Camargo. O atacante foi ainda na base ao país europeu, estreou como profissional no Genk em 2001 e cruzou a fronteira apenas em 2010, quando trocou o Standard Liege pela Alemanha, onde defendeu Borussia Mönchengladbach e Hoffenheim.
Ele retornaria ao Liege em 2013 e ficaria até 2015, quando acertou outra vez com o Genk. Uma nova saída da Bélgica ocorreu em 2016, quando se transferiu ao Apoel Nicósia, do Chipre. Agora, aos 35 anos, o atleta acaba de regressar a sua ‘segunda terra’ para defender o KV Mechelen.
A carreira de sucesso no futebol belga, assim como a passagem pela Bundesliga, fizeram o jogador defender entre 2009 e 2012 a seleção que nesta sexta-feira encara o Brasil. Ele inclusive esteve presente no elenco que disputou a Eurocopa de 2012.
Assim, o atacante brasileiro - uma vez campeão belga com o Genk e duas com o Liege - conviveu com nomes como Thibaut Courtois, Kevin de Bruyne, Eden Hazard e etc. Em entrevista ao ESPN.com.br, Igor de Camargo mencionou os pontos fortes e fracos da Bélgica, comentou sobre a cobrança que existe no atual elenco e, claro, respondeu sobre como está o coração para o confronto.
“Eles são muito confiantes, até por estarem com uma seleção bem competitiva. A expectativa é a melhor possível, principalmente agora com essa geração, que já há um bom tempo joga junta, agora apegando mais experiência”, disse.
Com um elenco badalado desde 2014, a Bélgica retornou ao Mundial naquele ano, após uma ausência de mais de uma década, e até conseguiu um bom resultado (caiu nas quartas de final para a Argentina), apesar de o desempenho não ter correspondido à expectativa.
Já em 2016, nem desempenho e nem resultado. Mais maduro, o elenco decepcionou ao ser eliminado para o País de Gales nas quartas de final. Agora, vive a expectativa de conseguir a classificação a uma semifinal de Copa pela segunda vez na história - a primeira foi em 1986, quando terminou como quarta colocada.
Confira os temas abordados na entrevista com Igor de Camargo:
Qual é o ponto forte?
Acredito que principalmente o quarteto de ataque é muito forte e pode surpreender a qualquer momento. Eles são complementares em vários aspectos. Se pegar um por um, você tem a inteligência do De Bruyne, principalmente vindo por trás e armando as jogadas. Você tem a criatividade e a ousadia, vamos dizer assim, do Eden Hazard, nos dribles. Por outro lado, o Mertens, com a velocidade e o drible.E lá na frente o Lukaku. É o artilheiro deste time e está em boa forma. Acredito que sejam os pontos fortes dessa seleção que podem surpreender o Brasil.
Qual pode ser o caminho para o Brasil?
Acredito que seja o espaço no meio de campo que a Bélgica deixa no momento do ataque e nesta transição defensiva. Esse buraco que fica no meio campo e nas cotas dos laterais, porque eles estavam jogando com 3 zagueiros e precisam defender com 5, o que às vezes, com essa transição, não está acontecendo na Bélgica.
O Tite está bem informado sobre a Bélgica. Eu acredito que ele conseguindo anular principalmente o De Bruyne vai conseguir já uns 50% do jogo ofensivo da Bélgica, claro, mas tem Hazard e todos os outros. O Hazard vem buscar jogo, mas ele é muito mais perigoso nos 15 metros finais do campo. Onde fará diferença e vai partir para cima. Mas acredito que o De Bruyne, porque ele é o cérebro deste time na armação. O Hazard é um dos caras da seleção, está provando isso a cada jogo. Acredito que tem que se prestar atenção nele também, mas acho que o de bruyne tem a inteligência de jogo que precisa prestar atenção.
Quem seriam os mais brasileiros do elenco belga?
Os mais brasileiros, fora de campo, são o Witsel, que fala português praticamente perfeito, e o Lukaku também. Esses dois são os que chegam mais perto. Dentro de campo é o Hazard, que vai para cima, tem um gingado e um jogo bonito que os brasileiros gostam.
A força do coletivo
Acho que a Bélgica pode superar o Brasil pelo jogo coletivo. Isso pode surpreender o Brasil como vem fazendo nesta Copa do Mundo. Todos viram esse último gol contra o Japão, foi um jogo coletivo muito forte.
Jogo aéreo é uma das principais armas
Na minha época de seleção nos treinávamos muito jogo aéreo. Mas hoje não sei como está nisso. Kompany, Lukaku, Fellaini, Vertonghen são fortes pelo alto. É uma jogada muito perigosa que o adversário precisa prestar atenção.
A cobrança sobre esta geração belga
A cobrança aqui dentro da Bélgica por resultados é muito forte. Desde a Olimpíada de 2008 em Pequim que essa geração está junta. Vários jogadores vêm de lá, principalmente de defesa. É o talento belga, e uma hora o talento tem que sair de cena e entrar o resultado deste talento todo. É o que eles esperam há muito tempo por conta de uma Eurocopa sem sucesso e o Mundial do Brasil também. Agora, eles têm a grande chance, com mais experiência e bagagem para colocar isso em pratica e trazer à tona o resultado que eles almejam.
Para quem vai a torcida?
Eu tenho respondido isso muitas vezes nos últimos dias (risos). Do lado esportivo, se for ver tudo que conquistei no futebol, devo à Bélgica, aprendi muito, e na parte humana também, foi o país que me criou para o mundo do futebol. Mas eu não deixo de ser brasileiro, torci muitas outras vezes e não será agora que vou deixar de fazer. Mas sexta o coração estará divido demais.
Eu tenho muita afinidade com os jogadores da Bélgica e torço por eles, mesmo não estando mais na seleção e tenho carinho. A Bélgica é minha segunda casa. Orgulho e honra de poder vestir essa camisa. Vai ser 50 a 50.
