A chamada ótima geração belga terá um dos seus maiores testes possíveis nesta sexta-feira: um duelo com o Brasil, logo pelas quartas de final de uma Copa do Mundo. Uma derrota, claro, vai fazer surgir contestações. Mas a verdade é que resultado algum pode minimizar ou acabar com todo o trabalho de reconstrução do país.
Afinal de contas, ter um ‘ótima geração’ já é uma coisa que parecia inimaginável para a Bélgica em um passado não tão distante, no começo dos anos 2000.
O sinal de alerta, aliás, foi ligado precisamente em 2000. A Bélgica sediou a Eurocopa daquele ano junto com a Holanda, mas faz feio e não passou nem da fase de grupos. Dois anos depois, até chegou às oitavas da Copa do Mundo, mas a previsão de dias difíceis se concretizou na sequência: foram 12 anos afastados de grandes torneios, daquele Mundial no Japão e na Coreia até 2014, na Copa no Brasil.
Só que houve uma pessoa nesse meio-tempo que percebeu que o barco poderia estar afundando e começou um processo de salvação.
“Eu tinha um plano de mudar a forma como fazíamos tudo. Precisávamos começar de novo. Eu não fiquei popular por isso lá atrás, mas estávamos sendo esquecidos no mundo do futebol. As pessoas já estavam desconfiando do time. Depois da Euro de 2000 havia um sentimento de vergonha, não era nada bom”, conta Michel Sablon, o diretor técnico da Bélgica que mudou a história da equipe.
Sablon foi jogador nos anos 70, mas sem muito destaque. Depois, participou da comissão técnica que havia conseguido o melhor resultado da história do país em uma Copa do Mundo, o quarto lugar em 1986.
Foi só em setembro de 2006 que a transformação começou – justamente depois do primeiro ciclo de vexames, com o time não se classificando em sequência para a Euro e para a Copa.
Naquele mês, Sablon começou a construir seu plano. Depois de viagens para conhecer a forma como Alemanha, França e Holanda trabalhavam, o cartola decidiu: todos as categorias de base de todos os times do país deveriam jogar no 4-3-3, a formação que seria utilizada também em todos os níveis da seleção.
Depois, organizou um estudo que descobriu um novo problema no desenvolvimento do projeto: as categorias de base ainda se importavam mais em ganhar campeonato do que em formar jogadores. De novo, um trabalho de conscientização foi feito.
A terceira medida foi proibir que jogadores ‘regredissem’ nas categorias de base. Se alguém saísse do time sub-17 para o sub-19, não voltaria.
E todas essas medidas que deveriam fazer com que os resultados não fossem importantes acabaram fazendo justamente que os resultados aparecessem nas categorias de base da seleção.
Os melhores ateltas acabaram levados para oito centros, pagos pelo governo, onde treinariam juntos, elevando o nível das atividades. Destes centros saíram nomes como Dries Mertens, Mousa Dembélé, Alex Witsel e Simon Mignolet.
O passo final da caminhada foi fazer com que esses jogadores pudessem ter a chance de deixar o país para atuar nas melhores ligas do mundo. Vincent Kompany, que nem era um produto desse trabalho todo, foi quem abriu as portas ao deixar o Anderlecht rumo ao Hamburgo em 2006 e depois rumo ao Menchester City em 2008.
É claro que o sucesso também teve bastante a ver com sorte, com a ‘fornada’ boa de atletas. Mas todo esse processo montou a seleção atual.
Com algumas frustrações, é verdade. Em 2014, eliminação nas quartas de final para a Argentina. E em 2016 o golpe mais doído: queda na Euro também nas quartas, mas para o pequeno País de Gales.
De qualquer forma, o trabalho continua. Agora já sem Sablon na seleção, mas ainda com boa parte das diretrizes sendo seguidas. Por isso, a promessa é de a ótima geração belga não seja apenas uma geração.
Resta esperar para saber!
A Bélgica enfrenta o Brasil em Kazan pelas quartas de final da Copa do Mundo nesta sexta-feira, às 15h (de Brasília).
