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Lateral da seleção, Danilo teve pai como técnico e viajou muito de caminhão para vingar no futebol

Não foram poucas as vezes em que o garoto Danilo subiu na boleia do caminhão do pai, José Luiz, para tentar a sorte no futebol. Histórias que o hoje lateral direito do Brasil na Copa do Mundo nunca quis esconder.

O jogador do Manchester City é natural de Bicas, uma pequena cidade na zona da mata mineira. O último censo apontou menos de 15 mil habitantes. Foi ali que Danilo começou a se aventurar nos campinhos de terra.

"O pai era o treinador dele juntamente com outros amigos. E o Danilo jogava de tudo. Até goleiro. O Baiano [apelido do pai do jogador] achou que o menino tinha jeito e decidiu caçar clubes", disse Rogério Passos, um dos primeiros técnicos de Danilo.

Na busca por uma oportunidade, o pai do jogador foi até Juiz de Fora, a 40 km de Bicas, de caminhão. Bateu em algumas portas e ouviu como indicação o nome de Passos.

"Na verdade, até hoje não sei por que eu. Sei apenas que ele estava atrás de mim. No Tupi avisaram que estava no Tupynambas. Lembro do dia em que ele estacionou o caminhão ao lado do clube e pediu uma reunião comigo".

O encontro ocorreu em uma sala minúscula ao lado do campo e da também pequena arquibancada do Tupynambas. Seu José Luiz vendeu o "peixe" que tinha da melhor possível.

"Ele me disse que tinha um garoto com 12 para 13 anos e que era um craque. Jogava de volante. Jogava de lateral. Podia ser atacante e até no gol ele agarrava. Disse que essa joia estava jogando nos campos de terra, sem perspectiva. E ele precisava de um clube para poder vingar. Lembro que respondi assim: 'Todo pai é coruja'", afirmou Passos.

Danilo foi convidado para uma semana de avaliação. Jogou tanto como volante quanto lateral. Passos não quis vê-lo em outras posições. Já no primeiro dia concordou com o que tinha ouvido. O garoto era realmente bom.

Aí surgiu o primeiro problema.

"Eu era terceirizado no Tupynambas. Tinha um acordo para usar o campo e representar o time nas competições. E o combinado é que 40% dos gastos era do clube e o restante nosso. A nossa parte vinha da ajuda dos pais".

Bingos, lanches, doces e tudo que fosse possível para arrecadar verba e financiar as despesas do time era feito pelos pais dos garotos. Passos organizou e formou uma comissão de pais para esse fim.

A maior dificuldade era o custo com as viagens para jogar. Como Minas Gerais é um estado grande, algumas vezes uma viagem "simples" não ficava por menos de R$ 3.000. E nesse momento Danilo quase desistiu.

"Ocorre que o pai dele era caminhoneiro. A família dele era muito humilde. Não tinham como ajudar. Eles ajudavam, sim, mas com o que dava. Menos do que as outras família. Não me recordo se ele cogitou sair. É possível que sim. A dificuldade era realmente grande. O que lembro é que as outras famílias que podiam ajudavam com mais. Era um grupo muito bom e unido. Todos batalhando para verem os filhos progredirem", disse Passos.

DECEPÇÃO E OPORTUNIDADE

Naquele ano, o time de base do Tupynambas jogou a primeira divisão do Campeonato Mineiro, mas ficou aquém da expectativa. Nenhum clube se interessou pelos meninos.

Tudo isso fez esfriar os ânimos dos pais.

"O potencial daquele time era grande, mas não se concretizou. As dificuldades foram muitas. Quando vi que, talvez aquele grupo poderia não seguir, decidi marcar um amistoso com a base do América-MG. Era a chance de alguns meninos chamarem à atenção, abrirem portas", disse Passos.

Foi o que aconteceu. Davi e Danilo foram os dois escolhidos e acabaram contratados. O primeiro acabou por não ter sucesso. Já o segundo dispensa apresentações.

Do América, foi para Santos, Porto, Real Madrid e, no ano passado, Manchester City. Iniciou a Copa do Mundo como titular e só perdeu a vaga para Fagner porque sofreu uma lesão muscular no quadril direito no dia 21.

"O Danilo que vi no Tupynambas era um menino muito bom, com bons fundamentos e qualidade técnica. Ele já chegou para mim bem preparado e foi aprimorando. O pai dele fez um bom trabalho e tem os méritos pelo filho vingar no futebol", disse Passos, que também guarda orgulho por ter participado dessa história.

PAI E TUTOR PROSPERARAM

O pai de Danilo não dirige mais caminhão. Desde que o filho vingou no futebol ele abandonou a estrada. Acompanha o filho onde for, toma conta do sítio da família em Bicas e, às vezes, mata a saudade como técnico amador.

"E ele entende, viu? Não era de ficar dando palpite nos treinos, mas quando a gente perguntava alguma coisa ele opinava. Tá sempre indicando jogadores. Então, ele ajudou o filho e ajuda outros. Um dos últimos que lembro que foi indicação dele é um garoto que está hoje no Oeste. O nome é Igor Mairinque", disse Passos.

O treinador de Danilo no Tupynambas também prosperou. Danilo o reconheceu como formador e isso possibilitou que ele recebesse parte do dinheiro que o clube mineiro recebeu quando o lateral foi vendido do Porto ao Real, em 2015.

"Ele teve esse gesto que jamais vou esquecer. Veio um bom dinheiro e com ele eu abri uma lanchonete em dezembro de 2016. É um trabalho paralelo ao de técnico da base e olheiro", disse Passos.