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Casemiro já foi goleiro de time feminino e, antes de 'melhor volante do mundo', era matador na área

Não fosse um convite da prima mais velha, a história de Casemiro no futebol poderia ter sido bem diferente da que conhecemos do titular do Real Madrid e do Brasil. Foi ela quem levou o garoto, que tinha então seis anos, para a escolinha Moreiras Sport, em São José dos Campos, onde ele deu os primeiros passos e chutes na bola.

Nascido na comunidade do Jardim Guimarães, periferia da cidade do Vale do Paraíba, sem conhecer o pai e ajudando a mãe a criar os outros dois irmãos, Carlinhos, como era chamado naqueles tempos, passou a ir de bicicleta até um dos campos acompanhando a prima e jogava como goleiro em um time feminino.

“A prima dele era goleira, mas o outro time não tinha quem por no gol e ele foi escalado por elas. Ele era bem menor, mais novo, mas chamou a minha atenção mesmo assim. Tudo porque ele agarrava a bola, jogava no chão e saia driblando todo mundo do outro time”, relembrou Nilton Moreira, o dono da escolinha.

Foram precisos apenas três dias para que Casemiro deixasse o time feminino, onde os jogos eram apenas recreativos, e passasse a ser treinado entre os garotos da própria idade.

De goleiro o, hoje volante cobiçado por todos os clubes do mundo, virou atacante. E era bom atacante, camisa 9 e artilheiro, segundo relembrou o primeiro tutor dele.

“Fazia muitos gols. Inclusive, fomos campeões de muitos torneios e ele sempre recebia prêmios como artilheiro.”

Moreira fez mais do que colocar Casemiro no campo. Ele praticamente adotou o menino. Buscava o garoto e o levava de volta de carro. Ajudava na alimentação. E não cobrava mensalidade na escolinha.

Casemiro ficou dos seis até os 16 anos jogando no Moreiras Sport, mas com dez a vida já tinha dado uma melhorada.

“Levei ele para um teste no São Paulo e ele passou, mas como não podia alojar por causa da lei ele ficava algumas semanas lá, em Cotia, e depois voltava para São José dos Campos. Muitas vezes eu fui levar e buscar”.

Aliás, até hoje há uma história que emociona o primeiro técnico de Casemiro.

“Foi no dia que o São Paulo me chamou para levar a mãe do Casemiro para a gente fazer o primeiro contrato. Nós fomos e, quando estávamos com a papelada para assinar, ele olhou para mim e disse: ‘Vou ser titular do São Paulo e também da seleção”, disse Moreira, com lágrimas nos olhos.

Na base do clube tricolor, Casemiro também mudou de posição. Foi recuando do ataque para o meio-campo, virando um volante marcador. Com 17 anos, teve de parar de jogar pelo Moreiras Sports a pedido do São Paulo.

Estava em vias de assinar o contrato profissional, subindo mais um patamar, é o clube queria foco total ali.

Mesmo assim o vínculo entre mestre e pupilo jamais foi quebrado.

“Sempre que está no Brasil ele vem para cá me visitar. Já me levou para Madri também e nos falamos quase todos os dias”, disse Moreira, orgulhoso do “filho” que conheceu graças ao futebol.

HEPATITE, ‘MARRA’ E GRATIDÃO

Ao chegar à base do São Paulo, Casemiro estava com hepatite. Ele já havia sido aprovado em avaliações anteriores e ficaria mais um período em observação. Contudo, a doença fez ele perde praticamente 20 dias de treinos.

Foi nesse momento que ele temeu ser cortado e foi aí que conheceu seu segundo “pai” no futebol.

Bruno Petri, filho do jornalista Roberto Petri, trabalhava em Cotia. Inicialmente era preparador físico e depois tornou-se técnico na base. Ele deu suporte para Casemiro.

“Ele jamais seria dispensado por causa da hepatite, mas, na cabeça dele, era uma possibilidade. Ele temia voltar tudo para trás, dar adeus ao sonho e ficou bem preocupado”, disse Petri.

A amizade entre eles aconteceu naturalmente nos treinos e se estendeu.

“Eu moro na zona norte e toda sexta ele pegava o ônibus para São José dos Campos no Terminal Rodoviário do Tietê. Passei a dar carona e durante esses encontros a gente conversava de tudo. Eu também tinha uma filha pequena e o Casemiro a adotou como se fosse a irmãzinha dele.”

A amizade, a confiança e o laço entre eles fez com que Casemiro passasse a chamar Petri de pai, mas não aliviou a broncas recebidas. Nem mesmo os conselhos no momento em que a carreira do volante poderia ter sido abalada.

“Quando ele subiu ao profissional o pessoal logo achou ele muito marrento. Apelidou de ‘Casemarra’, mas não tinha nada a ver. Ele sempre foi meio ‘caipirão’, no bom sentido. Gente do bem, simples e calado”, disse Petri.

“O problema é que ele não se deu muito bem com as lideranças. Faltou e até hoje falta alguém para administrar essa passagem da base para o time de cima. Ele se fechou mais, se isolou. Todos acharam que ele era marrento.”

Petri admitiu que também surgiram outros problemas que queimaram de vez o volante no São Paulo.

“Ele não estava comendo o que era certo, não estava treinando direito. Estava fazendo coisas erradas para ele próprio. Cheguei nele e falei: ‘É isso que você quer para sua vida?’”, relembrou Petri.

Ali foi o ponto de mudança. Contribuiu a conversa com Petri, outra com Moreira e a própria esposa de Casemiro, que colocaram a cabeça dele no lugar.

Ao mesmo tempo em que tudo isso aconteceu, o Real Madrid B procurou Casemiro. Ele topou deixar o Brasil e foi para a Espanha. Jogou ainda dois anos no Porto até voltar para Madri e defender o time principal do Real.

“Foi aí que ele mostrou ser um novo Casemiro, esse jogador e essa liderança que todos vocês conhecem”, disse Petri.

A prova de gratidão surgiu e é mostrada até hoje. Petri faz parte do estafe de Casemiro e Moreira é parte integrante da família do volante. Sempre que ele está no Brasil, reúne todos para um churrasco em agradecimento e união à tudo que aconteceu.