Autor de um dos gols da vitória do Brasil sobre a Sérvia por 2 a 0, em Moscou, nesta quarta-feira, o volante Paulinho começou a jogar para valer no futsal da Portuguesa, foi lateral esquerdo antes de virar volante e chegou a causar a ira de seu primeiro técnico de campo a ponto de quase apanhar no vestiário.
Essas são algumas histórias da origem de Paulinho no futebol, contada por aqueles que o viram surgir na série de reportagens da ESPN Brasil Garimpeiros do Futebol.
Nascido no Parque Novo Mundo, na zona norte de São Paulo, o volante jogou bola na rua do bairro e nos campos de terra da região.
Antes de completar nove anos, foi inscrito pelo Clube Lausanne para um torneio de futsal. O desfecho não foi bom para a equipe. Eles foram eliminados de forma impiedosa pela Portuguesa no ginásio do Canindé com mais de dez gols sofridos. Apesar disso, foi ali que a história dele começou a virar.
A mãe de Paulinho procurou Wagner Pinto, o técnico que comandou a Lusa frente ao Lausanne e, após um bate papo animador, decidiu matricular o garoto no futsal da Lusa.
"O Paulinho que eu conheci era um menino de oito para nove anos bem magrinho. Você conseguia ver as costelas dele. Mas era muito bom de bola. Era ágil. Tinha ginga com a bola, o danadinho", disse Wagner Pinto.
O treinador precisou de apenas três dias para tirar essas conclusões. Diante do que viu, trocou Paulinho para turma que treinava as quartas e sextas, equipe que jogava os torneios pela Lusa e colocou no time A.
"Ele jogava de fixo pelo Lausanne. Lembro de ter visto isso. Mas essa não era a posição dele. Mudei para ala esquerda. Aí ele passou a se desenvolver e a evoluir", disse o técnico.
A equipe de futsal da Lusa foi campeã de vários torneios. Paulinho era um dos destaques daquele time. Mas com o tempo a quadra de futsal rubro-verde ficou pequena para o jogador.
Foi aí que entrou em cena o bairro de São Miguel Paulista, na zona leste, e Jadiel Antonio Miguel, o professor Ninho.
"O primeiro contato foi por acaso. Tinha ido ao Canindé assistir um jogo de futsal e conheci a mãe do Paulinho. Ela estava brava porque o filho dela tinha tentando fazer uma peneira no campo e foi rejeitado pela Portuguesa. Aí expliquei que tinha um projeto e fiz um convite", disse Ninho.
O projeto em questão é o Relâmpago Araguay, que fica bem no extremo da zona leste paulistana. Paulinho foi e ganhou uma vaga no time como lateral. E não agradou.
"Ele era lateral e era ruim, viu!? Ele não gostava e ficava arrumando o jeito de alguém cobrir a posição para ele avançar para o meio de campo. Quando percebemos isso, mudamos ele para número cinco e aí ele decolou".
Paulinho passou a jogar como volante, mas o início também foi difícil para emplacar.
"Teve um jogo no campo do Nacional-SP que perdemos por 4 a 0. Todos os gols tomamos porque ele avançava e não voltava. No vestiário eu queria bater nele", disse Ninho.
Mas não eram apenas broncas. O professor também deu apoio quando Paulinho pensou em desistir. O garoto ficou abalado após ser dispensado em mais um teste na Portuguesa. Além de não passar nas peneiras de Barueri, Corinthians e São Paulo.
"Certo dia ele entrou aqui com a chuterinha na mão e falou: Não quero mais’. Eu falei: ‘Não, tem alguma coisa para você ainda’. Aí levei ele para o Pão de Açúcar, que hoje é o Audax. Eu trabalhava lá como observador técnico, buscando jogador. Terminou a gente encaixou ele lá. Aí ele começou a decolar."
Do time paulistano, o garoto foi para a Europa. Jogou na Lituânia e na Polônia. Sofreu com racismo e voltou ao Brasil, desiludido. Aceitou jogar pelo Bragantino e depois foi para o Corinthians, momento em que a carreira do hoje titular da seleção e do Barcelona se firmou de vez.
Paulinho chegou à seleção na época de Corinthians. Disputou a última Copa, que terminou com a trágica goleada por 7 a 1 para a Alemanha na semifinal, e ganhou moral mesmo com a vinda de Tite.
O gol que fez contra a Sérvia abriu caminho para a seleção vencer e avançar como primeiro do grupo E para as oitavas da copa do mundo.
