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Copa do Mundo: como, velho e lento, Mascherano se tornou insubstituível na Argentina

Assim como um orgulhoso e envelhecido pugilista, Javier Mascherano terminou o jogo da Argentina contra a Nigéria sangrando, porém, não abatido.

A Albiceleste conseguiu seguir viva na Copa do Mundo com um gol já no fim da partida marcada por Rojo, em uma noite que muitas estradas levaram ao veterano camisa 14. Mascherano foi um símbolo da noite em questão – por boas e más razões.

Há cerca de 15 anos, ele fez sua estreia com a camisa da Argentina – antes até de jogar pela primeira vez por seu clube, o River Plate. Os argentinos sabiam que tinham em mãos algo especial e, em um ano, era impossível imaginar a seleção sem ele.

Uma década e meia depois, entretanto, pode parecer difícil de imaginar como ele ainda está ali. Ele assegurou seu lugar à frente da linha de quatro defensiva por anos. Já faz algum tempo que a Argentina não produz mais goleiros, zagueiros e laterais ‘tops’. De fato, parece que a defesa albiceleste tem sido salva pela combinação de uma fita adesiva e Mascherano.

A Argentina chegou à final da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, a partir da junção de Mascherano e os flashes de brilhantismo de Lionel Messi – eleito o melhor jogador daquele torneio. Assim como ficou claro diante da Nigéria, Messi ainda pode fazer o que lhe é esperado, enquanto Mascherano, não. Suas pernas já foram, e ele já não consegue proteger da mesma maneira aquela defesa suspeita. A Croácia passou por cima dele com uma facilidade até embaraçosa e ele praticamente não foi uma barreira para os rápidos ataques nigerianos. O volante foi repetidamente batido por Ahmed Musa no segundo tempo.

O problema é que ninguém parece apto a substitui-lo. Entre 1995 e 2007, a Argentina ganhou a Copa do Mundo sub-20 em cinco ocasiões e foram produzidos vários talentos para a seleção principal. “Jefito” foi um deles, assim como Sergio Agüero, Éver Banega, Ángel Di María e Lionel Messi.

Desde 2007, entretanto, o sub-20 albiceleste vem tendo atuações fracas. A linha de produção secou e o resultado é o visto contra a Nigéria: um dos times mais velhos da Copa do Mundo. Se as categorias de base argentinas estivessem bem, Mascherano seria história. Mas, para a curta duração do torneio, ele faz parte do presente. E isso, apesar de sua idade e suas performances passíveis de erros, tem seus pontos positivos.

O maior deles, talvez, seja fora do campo. O problema argentino a curto-prazo tem sido a incompatibilidade entre as ideias de Jorge Sampaoli e aquilo que ele tem à disposição. Sem velocidade na defesa para colocar em prática seu plano de jogo, o técnico está completamente perdido, se agarrando a novas ideias como se elas fossem cordas que podem abrir o paraquedas antes de colidir com o chão. Ele tem tido mais teorias do que Darwin, sem nenhuma evolução evidente.

Após a vexatória derrota por 3 a 0 para a Croácia, os jogadores, tendo Mascherano como papel de líder, forçaram uma dose de sanidade pragmática para cima de seu treinador. Sem mais linha de três defensiva, sem mais pontas improvisados de laterais. Uma linha de quatro básica e uma abordagem convencional eram necessárias para equilibrar o ataque com a defesa.

Isso fez parte do remédio que evitou a humilhação da queda na fase de grupos. Outra parte foram os dois maravilhosos gols, marcados por Messi e Rojo, este zagueiro que se encontrou como atacante num belo chute de direita no momento crucial do jogo.

Independentemente de quão ruim foi uma performance, e independentemente de quão assustadora é a tarefa, Mascherano tem a característica que cativa todos os técnicos com quem atuou. Ele nunca se esconde, ele está sempre ali para receber a bola e levar a responsabilidade para si.

Em suas muitas falhas e suas bravas virtudes, a vitória argentina sobre a Nigéria foi conseguida a partir do espírito de Javier Mascherano. Mas se esse espírito será o suficiente para eliminar os franceses no sábado, pelas oitavas de final, este é outro assunto.