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Brasileiro conta como foi participar do Ramadã por um dia com astro do Marrocos: 'Uma fome fora de série'

Durante o Ramadã, mês sagrado para os seguidores da religião islâmica, os muçulmanos devem jejuar do nascer ao pôr-do-sol. É uma prática comum e seguida à risca, inclusive por atletas profissionais. Mas o que acontece quando alguém que não está acostumado a participar do saum, o jejum ritual, tenta fazer o mesmo? Spoiler: não dá certo.

Foi o que aconteceu com o zagueiro brasileiro João Carlos, ex-Vasco, quando ele quis acompanhar o marroquino Mbark Boussoufa, um dos principais jogadores da seleção que enfrenta a Espanha nesta segunda-feira, às 15h (de Brasília), pela 3ª rodada da fase de grupos da Copa do Mundo, durante o Ramadã quando eles jogaram juntos.

"Boussoufa é um irmão para mim. Jogamos cinco anos seguidos na Bélgica um contra o outro, depois juntos no Anzhi, da Rússia, e no Al Jazira, dos Emirados Árabes. Nossas famílias são muito amigas e falo com ele praticamente todo dia", conta o defensor à ESPN.

Aos risos, João Carlos lembrou sua experiência desastrada com o jejum.

"Minha esposa estava com nossos filhos no Brasil e fui passar uns tempos na casa do Boussoufa. Ele morava perto do CT do Anzhi e eu morava bem longe. Como na Rússia os engarrafamentos são horríveis, fiquei lá pela casa dele mesmo. Só que era época do Ramadã, é mole? Aí falei pra ele: 'Vou participar um dia com você'", recorda.

"Cara, eu passei uma fome fora de série (risos). Eu senti o que é dor na barriga de fome e fiquei muito mau humorado, mas fui guerreiro e não bebi nem comi nada. Quando baixou o sol eu pensei: 'Agora vamos bater aquele rango bom', mas não foi bem assim. Ele colocou a comida na mesa e eu ataquei. Só que comi tanto o tal do frango especial deles que me encheu demais. Fiquei passando mal a noite toda", relata, às gargalhadas.

"No dia seguinte, ele contou para 'geral' e eu fui muito zoado pela galera no vestiário. 'Tá louco, João Carlos, você não é muçulmano e vai se meter a fazer isso aí? Os caras são de ferro, estão acostumados'. Mas foi legal participar disso para ver como é a vida e a realidade do cara. Afinal, ele é quase da minha família, amigão de tudo, e gosta muito dos meus filhos", exalta.

Atualmente, Boussoufa segue defendendo o Al Jazira e é titular absoluto da seleção do Marrocos na Copa-2018. Já o amigo João Carlos retornou ao Brasil neste ano e teve o Madureira como último clube, no Campeonato Carioca.

A NEGOCIAÇÃO ATRAVESSADA

João Carlos ainda viveu uma boa outra história envolvendo Boussoufa. Aconteceu perto da temporada 2011/12, quando o marroquino, então no Anderlecht, estava negociando com o Terek Grozny, da Rússia. Mas a negociação tomaria outro rumo...

"O Boussoufa joga demais, nessa época fazia uma fumaça danada. Quando eu fui para o Anzhi, o diretor do clube me perguntou: 'Conhece esse tal de Boussoufa que está indo para o Terek? Ele chegou para acertar com os caras'. Eu respondi na lata: 'Você vai perder o melhor jogador da Bélgica'. Ele ficou maluco: 'Posso tentar atravessar esse negócio'. E eu cravei: 'Deve'. Então, ele foi com tudo na jogada, ofereceu salário melhor e levou o Boussoufa pro nosso time (risos)", diverte-se.

No entanto, essa "atravessada" acabou impedindo o meia marroquino de participar dos jogos contra o Terek em Grózni, já que a diretoria do Anzhi considerou uma jogada de risco levar o astro à Chechênia depois da "virada de casaca".

"Grózni fica em uma região muito perigosa da Rússia. Tanto é que, no início do Campeonato Russo, fomos jogar na casa deles e o Boussoufa nem viajou. O diretor disso: 'Vai que alguém dá um tiro nele à toa?'. Foi complicado esse começo para ele, mas depois deu tudo certo", finalizou.