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Mãe de Filipe, criança de 12 anos que sofreu racismo em campo, desabafa em carta aberta à ESPN: 'Coração despedaçado'

Filipe Matos, à esquerda, e Thaís Matos, abraçando seu filho (Filipe), à direita Arquivo Pessoal

Filipe Matos Menezes, de apenas 12 anos, atuava pelo Manthiqueira no último domingo (19), contra o Corinthians, pelo Campeonato Paulista sub-12, quando escutou insultos como “preto“, “sem família” e “filho da p***”.

O garoto sentou aos prantos no campo do Estádio Dario Rodrigues de Leite, em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, e relatou o ocorrido ao árbitro Guilherme Drbochlaw, que interrompeu a partida com o protocolo antirracismo.

A agressora foi uma mulher identificada como Karen Cristina Liria da Silva, de 41 anos. O boletim de ocorrência foi aberto logo em seguida, no 2° Distrito Policial de Guaratinguetá. Ela teve prisão decretada e foi encaminhada à Cadeia Pública de Lorena.

Filipe ainda está em choque. Ele chora a cada mensagem de apoio que recebe. O garoto é corintiano e defende o Timão no futsal.

Diante desta situação, a mãe do jogador mirim, Thaís Matos, decidiu escrever uma carta aberta. Ela se apresenta como “mãe de 3 meninos, cidadã e defensora de uma infância livre de preconceito e racismo”. No texto abaixo, obtido com exclusividade pela ESPN, ela relata o sofrimento da família desde então.

Leia a carta aberta:

“Escrevo essa carta movida por uma indignação diante do episódio lamentável ocorrido em 19 de outubro. Nunca imaginei passar por isso, nunca vi meu filho tão transtornado. Meu filho é uma criança de apenas 12 anos. Ele já vinha sendo alvo de alguns pais, com ofensas durante as partidas de futebol e palavras de baixo calão, porém, no domingo (19), aconteceu novamente e dessa vez teve ofensas racistas.

Eu, como mãe, fiquei com meu coração despedaçado, pois jamais teria coragem de xingar qualquer criança dentro ou fora de campo. Nós, pais, estamos ali para torcer e apoiar independentemente de placar, não para xingar uma criança.

Isso foi inaceitável. Não se trata de uma simples ofensa, mas de uma violência que fere a dignidade, destrói a inocência e deixa marcas que o tempo dificilmente apaga.

Meu filho já tinha relatado em casa as ofensas ouvidas no jogo anterior, mas orientamos ele a não se importar, mesmo sendo um ato cruel, pois estamos falando de uma partida de futebol de crianças de 12 anos. Tínhamos que ser exemplo. É doloroso ver seu filho saindo de um estádio da forma que ele saiu, e pais falando que era frescura... Eu desejo do fundo do meu coração que não aconteça com o filho de vocês.

As crianças, em sua pureza, alegria e amor ao futebol, não deveriam conhecer o peso da discriminação. Deveriam ser cercados de cuidado, respeito e amor.

Vi adultos que deveriam ser exemplo agirem de forma tão cruel e ainda ouvi de uma mãe "pegamos ele para Cristo mesmo". Infelizmente, a luta contra o racismo ainda é urgente e necessária, não podemos normalizar isso.

Para mim, nada justifica ofender uma criança. Não foi uma brincadeira, não foi um mal-entendido. É preciso olhar para esse episódio não apenas como um caso isolado, mas como um alerta. Cada palavra, cada atitude preconceituosa reforça uma estrutura de exclusão que limita oportunidades, destrói sonhos e fere.

Meu filho foi corajoso em falar, mas e as crianças que guardam pra si? Desistem da carreira, muitas vezes entram em depressão e acabam tirando a própria vida, tudo isso por ouvir palavras de pessoas vazias.

Será que em algum momento esses pais pararam para pensar que poderia ser com os filhos deles? Não podemos normalizar. Isso abala a autoestima, gera traumas, uma palavra ofensiva dita na infância pode ecoar por toda uma vida, influenciando na confiança e no desempenho dentro de campo.

Ao contrário do que foi dito lá, "sem família", meu filho tem família e estamos aqui para juntos não deixar isso abalar seus sonhos e projetos. O silêncio diante de tudo isso é cumplicidade. Que essa carta sirva como um apelo de uma mãe para que nenhuma criança em lugar algum seja novamente ferida pelo preconceito ou pela sua opinião em relação a criança.

A responsabilidade de uma sociedade justa e humana é nossa. Não precisamos ser negros para lutar contra o racismo, precisamos ser humanos!”

*Produzido e editado por Isabela Moro