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OPINIÃO: Perdeu-se a chance de transformar um fetiche num prêmio coletivo

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Rodri supera Vinicius Jr. e Bellingham e conquista a Bola de Ouro de 2024; VEJA (0:50)

O volante do Manchester City foi eleito o melhor jogador da temporada pela revista France Football (0:50)

A contradição de entregar um troféu personalizado a um praticante do mais coletivo dos esportes se converteu, já há algum tempo, em um fetiche tão irresistível que bônus financeiros são incluídos em contratos e carreiras encerradas sem a peça folhada são qualificadas como “incompletas”.

O jogador X – escolha o nome de sua preferência – “jamais ganhou a Bola de Ouro...”, diz-se, como se este fosse um sonho tão sedutor quanto jogar no clube de infância, vestir a camisa da seleção, disputar uma Copa do Mundo. Basta notar como se comportam aqueles que são cotados, mas não ganham, para concluir que sim, os troféus de “melhor do mundo” se transformaram em um mimo necessário ao futebolista de hoje.

A mutação é própria de uma era em que um contingente cada vez maior de pessoas se habituou a cultuar não uma camisa, ou um clube, mas um ídolo com o qual não é preciso nem mesmo ter uma relação sentimental. No futebol globalizado, a figura do fã compartilha o lugar que sempre foi do torcedor e as redes antissociais permitem que essa conexão se estabeleça diariamente sem se importar com distâncias, fusos-horários ou a experiência de frequentar estádios. Torce-se pelo recipiente das estatuetas do futebol como se faz com a entrega da famosa estatueta do cinema: é a consagração de um astro trajado à rigor, que sobe ao palco para ler seu discurso preparado para o grande momento. Não é por acaso.

A última edição do prêmio da revista France Football, mesmo que tenha sido entregue nesta segunda-feira (28) ao espanhol Rodrigo Hernández, foi caracterizada pela candidatura de Vinicius Júnior não só como jogador, mas como rosto – um papel que ele não solicitou, mas aceita e desempenha com incrível coragem e paciência – da luta antirracismo que desafia sociedades erguidas por premissas preconceituosas. A eleição de Vinicius seria um agradecimento do mundo do futebol, que venera a vitória, não a virtude, a um jovem que não se resume à configuração do esportista calado. A escolha por outro, qualquer outro, representaria uma punição a quem ousa personificar um conflito que é muito mais importante do que o futebol.

Não é correto atribuir o prêmio dado ao espanhol Rodri, jogador extraordinário que brilhou muito mais na temporada anterior do que no período dedicado ao troféu que recebeu, à “vitória do racismo”, o equivalente a chamar de racistas todos os que votaram nele. É obrigatório questionar, porém, se Vinicius teria recebido mais votos se não fosse um jovem negro e brasileiro, vítima de racismo escancarado em diversos estádios espanhóis há anos, que decidiu se levantar e declarar que não admite tal tratamento. É necessário lembrar que, em quase todos os episódios nos quais agiu dessa maneira, Vinicius foi tão elogiado quanto criticado, direta ou veladamente, o que é suficientemente revelador a respeito das estruturas sociais e do ambiente do futebol.

E é incômodo observar a histórica oportunidade ignorada por uma parte dos 100 jornalistas com direito a voto de tornar essa versão do Bola de Ouro uma premiação distinta. Por uma temporada apenas, por uma postura que deveria ser defendida e apoiada, por uma mensagem forte e clara enviada aos pilares do esporte, o troféu deste ano deixaria de ser um fetiche individualista para se tornar, em linha com o jogo que pretende celebrar, um prêmio coletivo a ser festejado até por quem não venceu.