A emoção tomou conta do Sportscenter quando a voz de Paulo Soares, o Amigão, invadiu o estúdio. Pelo telefone, o apresentador da ESPN prestou sua primeira homenagem ao parceiro de bancada em inúmeras madrugadas à frente das câmeras no maior telejornal esportivo do mundo: Antero Greco.
Um dos maiores ícones da história da ESPN e da comunicação no Brasil, o jornalista morreu na madrugada desta quinta-feira (16).
Antero lutava contra um tumor no cérebro há quase dois anos. E mesmo com altos e baixos durante o tratamento, fazia questão de continuar – de casa ou do estúdio – fazendo parte do Sportscenter, programa que ajudou a alavancar desde o seu início.
“Vamos dar risada, gente. A Glaucia abriu o programa chorando. Como eu posso falar alguma coisa agora?”, disse Amigão, com a voz embargada, citando a homenagem publicada no site da ESPN por André Kfouri: "Até um dia, querido Antero".
“Puxa vida, que textos lindos de homenagem. O André fala que o Antero chegava atrasado. O Antero chegava sempre em cima da hora, em todas as situações. Era uma coisa irritante, tinha vontade de arrebentar ele (risos). Poxa vida, para quem gostava de chegar tão em cima da hora, para que sair tão cedo? Não era a hora ainda”.
“Acompanho desde o começo [do tratamento], assim como ele vinha acompanhando os meus. Tinha sempre uma esperança de que as coisas iam ser empurradas para a frente, porque 69 anos é muito cedo, muito novo. Isso que choca. O grande sonho dele era poder acompanhar um pouco da vida, o crescimento do Pedrinho, da Carol (os netos). É muito triste. Não sou a pessoa indicada para falar agora”.
Antero Greco deixa a esposa e companheira de décadas, Leila Maria de Brito Greco, os filhos João Paulo de Brito Greco e Maria Cristina de Brito Greco e os netos Pedro Shellard Greco e Carolina Shellard Greco.
“São 40 anos de amizade. Desses 40, 30 são de ESPN e 20 de Sportscenter. Hoje a gente tem convicção de que, graças ao fã de esporte, graças a todas as pessoas que sempre estiveram com a gente fazendo o programa, graças à iniciativa do Trajano, de fazer uma dupla diferente no surgimento do Sportscenter, sabemos hoje, com simplicidade e humildade, que formamos a maior dupla da história da televisão brasileira. E isso ninguém vai poder tirar do Antero e de mim”.
“Tenho certeza que ele está do nosso lado. Ele vai ser nosso chão sempre. Mas o fato é que ele é um cabeçudo, não podia ter feito isso com a gente agora”.
Antero nasceu em 2 de junho de 1954, logo, completaria 70 anos mês que vem. Ele se formou em Jornalismo pela ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP (Universidade de São Paulo) e começou a exercer a profissão em 1974, há 50 anos, como revisor do jornal O Estado de S. Paulo.
Jornalista Antero Greco faleceu aos 69 anos
No diário, ocupou também as funções de repórter, chefe de reportagem, repórter especial e editor. Foram três passagens, a última encerrada em 2018. Também trabalhou no Diário Popular, no Popular da Tarde e na Folha de S. Paulo. Na TV, teve passagem pelo SBT e também pela Bandeirantes.
“É impressionante. Uma pessoa da maior qualidade, de um texto impecável, de uma leitura dinâmica que eu nunca vi. O Antero pode pegar um livro de 300 páginas e ler em 30 minutos. Pegava um programa com 50 laudas e em 30 segundos sabia tudo que estava escrito. Ele batia o olho em uma notícia longa, ele em 30 segundos sabia tudo que tinha acontecido. Um repórter acima de tudo, tem a veia do repórter. Extrapolou a reportagem para ser editor-chefe do Estadão, um dos maiores jornais desse país, e depois se aventurou na televisão em uma época que o futebol internacional começava a chegar aqui no Brasil, ninguém tinha ideia do que era, mas ele rapidamente transformou em algo muito fácil”.
“Foi um dos principais produtores do Futebol no Mundo. Lá atrás não tinha internet e o Antero sabia tudo. O legado dele vai muito além. Além do jornalista esportivo, foi um cara alucinado por livros. Para se ter uma ideia, ele tem um apartamento só de livros, com milhares de livros e de jornais”.
“Eu adoro cinema, ele também, então a gente saía sempre correndo da televisão porque senão prendia a gente mais duas ou três horas na calçada. Chegava em casa, cinco minutos toca o telefone, Antero Greco. E fala de cinema, de política, de jornalismo, de música, de gente, de livro. Antero sempre foi um defensor da democracia. A luta dele nos últimos anos, ele nunca se calou, não desistiu nunca. Tanto que hoje está sendo reverenciado por muita gente. Mesmo aqueles que são do mal estão chorando pela morte do Antero”.
“Antero, querido, my friend. Antero quase foi padre, bateu na trave. Ele era muito religioso, devoto de nossa Senhora Aparecida, como eu sou. E eu disse isso: ‘Nossa Senhora está te recebendo no seu lindo Bom Retiro’. Ele começou e voltou para lá. Daqui a pouco a gente vai lá dar o último abraço, o último beijo. E o legal é que ele acabou de mandar para mim que o céu é verde, não azul. O céu é verde por ele”.
Antero e Amigão, ou Amigão e Antero, protagonizaram diversos momentos históricos na tela da TV. Com alto astral, sorriso no rosto e, claro, seriedade na hora da informação, eles viraram referência no telejornalismo brasileiro.
"Anterito, my friend [meu amigo]", dizia carinhosamente Paulo Soares para chamar o parceiro de bancada para o assunto do momento.
Antero deixa órfão não só o Jornalismo, mas também o fã de esporte que se acostumou a assistir à extraordinária dupla durante tantas e tantas noites de Sportscenter. A TV brasileira perde um dos maiores. E a nós, da família ESPN, ficará a saudade, o exemplo e as grandes memórias proporcionadas.
