Opinião: Messi, que merece um prêmio por ter ignorado seu The Best, é o maior de todos na longa lista de injustiças nas premiações no futebol

Quase todo mundo adora o Messi, seja pela sua genialidade para jogar futebol, seja pela sua figura normalmente dócil e simples. Mas quase todo mundo ficou constrangido com a eleição do craque argentino como o melhor do mundo de 2023 pela Fifa.

Mesmo o mais fanático dos “messistas” vai entender que Haaland, no ano de 2023, mereceu mais ser o The Best, seja pelos títulos em série conquistados pelo seu time (que enfim conquistou a Champions e que mantém hegemonia hoje na liga nacional mais badalada do planeta), seja pelos seus recordes pessoais como artilheiro implacável.

As regras para a premiação deixavam de fora a Copa do Mundo, contando basicamente o ano passado, que foi quando Messi trocou a Europa pelos Estados Unidos para encerrar praticamente a carreira no Inter Miami.

Mas parece que boa parte dos eleitores ignoraram isso e não esqueceram do título mundial da Argentina no Qatar no final de 2022, torneio que já deixou uma certa dúvida se Mbappé não teria sido o melhor jogador da competição (o francês foi o artilheiro isolado da disputa e anotou um hat-trick na final).

Messi não tem culpa por ter sido eleito algumas vezes como o melhor de uma temporada ou de uma competição sem merecer. Isso acontece desde o início da brilhante carreira de “La Pulga”, imagino muito que pelo enorme encantamento que ele desperta em companheiros de profissão, treinadores, jornalistas e especialmente no público em geral.

Ele não ter comparecido para receber este injusto The Best do ano passado foi mais um drible lindo dele, um dos mais marcantes, mas ele bem que podia dar uma entrevista ou postar algo sobre a premiação, assumindo que não foi o melhor de 2023. Isso o tornaria ainda maior e ainda mais humilde, mas, mais até do que isso, ajudaria a repensar as eleições de melhor jogador e a forma como são feitas.

Quem não lembra do posicionamento forte de De Bruyne ao ganhar o prêmio de melhor da partida entre Bélgica e Canadá na Copa de 2022? “Eu não fiz uma boa partida, não sei por que fui eleito o melhor, acho que foi pelo meu nome. Não fizemos um grande jogo, especialmente no primeiro tempo. Não achamos nenhuma solução. Mérito do Canadá, não conseguimos passar pela pressão deles. Não fizemos um grande jogo, eu inclusive, mas achamos uma forma de vencer”.

A Bélgica ganhou a partida por 1 a 0, mas o Canadá teve uma atuação melhor. Só que parece difícil para a Fifa entregar um prêmio de melhor para algum canadense (o país não disputava a Copa desde 1986), muito mais fácil dar troféu para craque europeu consagrado.

De Bruyne ficou mais constrangido sendo premiado do que Thierry Henry ao pegar o troféu The Best nesta semana, uma vez que Messi não apareceu na cerimônia de gala em Londres. O belga ganhou o prêmio de melhor da partida da Copa em campo, então não tinha muito como fugir do embaraço.

Messi tem a boa desculpa de viver hoje na América e não ter como se livrar de seus compromissos para buscar o prêmio na Europa. Poderia ter mandado vídeo ou postado agradecido pelo troféu, mas não fez isso, certamente por não concordar com o resultado que lhe favoreceu. Respeito essa atitude de silêncio, mas pensei se fosse Maradona no lugar dele.

Diego, que amava o futebol acima de tudo, possivelmente bradaria contra a Fifa, talvez enviasse o troféu para Haaland, mesmo que fosse só para colocar fogo no parquinho. Messi não é um contestador, até se tornou nos últimos anos um atleta um pouco mais sanguíneo, um líder com um pouco mais de posicionamento, porém não a ponto de esculachar premiação da máxima entidade do futebol.

Jogador de bola conhece jogador de bola. Sabe quem é melhor, quem está melhor, quem foi melhor. Messi foi eleito melhor jogador do mundo de 2010 de forma injusta, uma vez que não merecia esse prêmio mais do que Sneijder, campeão de tudo com a Inter de Milão e vice-campeão mundial com a Holanda, sendo líder e destaque de seu clube e de sua seleção.

Também deveria ter ficado nesse ano atrás de Iniesta, companheiro de Barcelona que fez o gol do título da Espanha na Copa da África do Sul. Quatro anos depois, Messi foi eleito o melhor jogador do Mundial do Brasil, outra honraria bastante questionável.

Robben, que já poderia muito bem ter superado o craque argentino na Bola de Ouro da Fifa de 2010, fez uma Copa no mais alto nível em território brasileiro, terminando invicto com o terceiro lugar na disputa. Individualmente, ele jogou mais naquele torneio do que o Messi, que acabou com o vice-campeonato. Talvez ali a Fifa tenha dado uma espécie de consolo para o popular camisa 10.

Para não sair de mãos vazias, uma vez que não foi campeão nem artilheiro (ficou atrás de James Rodríguez, estrela colombiana, e de Thomas Müller, um dos grandes destaques da Alemanha que foi tetracampeã e que meteu 7 a 1 no Brasil).

Messi é o único jogador da história a ter sido eleito mais de uma vez o melhor de uma Copa do Mundo. Foi em 2014, como citei acima, e foi em 2022, quando disputou com Mbappé até os segundos finais e até o último pênalti a glória máxima no Mundial. Mbappé não saiu de mãos vazias, pois foi o artilheiro da Copa e o cara da decisão.

Não era nada absurdo dar o prêmio de melhor para o Messi nessa situação, ainda mais com o título, mas também não era nada estranho se o craque francês do PSG fosse o premiado.

A oitava Bola de Ouro de Messi, conquistada em outubro, já foi um tanto quanto discutível. Houve quem chamasse de “farsa” a tradicional votação, historicamente mais técnica e menos preocupada com nomes do que a da Fifa.

“Durante todo o ano, Haaland foi melhor que Messi. O prêmio para Messi não foi merecido. Mas mostra que a Copa do Mundo ainda conta mais do que qualquer coisa. Para mim, Haaland foi o melhor jogador dos últimos 12 meses, ganhou grandes títulos com o Manchester City e quebrou recordes de artilharia nesse período.

Deveria ser Haaland o premiado. A eleição é uma farsa, ainda que eu seja fã de Messi”, disse Lothar Matthäus, ex-craque alemão que atua como comentarista para a Sky. Como quase todo mundo, ele é fã de Messi, mas, como quase todo mundo, ele não concorda com injustiças e com o chamado “dois pesos e duas medidas”.

Se a Copa de 2022 bastou para Messi, em sete jogos, ser o melhor do planeta, por que não elegeram Sneijder ou Iniesta em 2010? Cannavaro foi eleito o melhor do planeta em 2006 muito pelo que fez com a Azzurra no Mundial, mas Zidane foi eleito o melhor jogador daquela Copa da Alemanha.

Será que o genial francês não levou o prêmio porque deu uma cabeçada em Materazzi na final, o que não é uma boa imagem nem um bom exemplo para os fãs do esporte? Pela bola, Zidane encantou muito mais que Cannavaro, que poderia muito bem ter ficado atrás do conterrâneo Buffon, goleiro monstruoso em 2006. O problema não está em Messi, claro, e sim em que faz as polêmicas premiações. Cristiano Ronaldo, grande rival do craque argentino no século, já insinuou há tempos que Messi goza de privilégios em certas votações, mas ele também já ganhou prêmio discutível. Em 2013, Ribéry fez a grande temporada da sua vida, ganhando tudo com o Bayern, aplicando inclusive um 7 a 0 no agregado no Barcelona de Messi.

O atacante francês levou o prêmio da Uefa de melhor jogador, mas não ficou com a Bola de Ouro. CR7 papou o troféu por ter feito 55 gols em 55 jogos pelo Real Madrid, um dos clubes que mais pesam na eleição de melhor do mundo (os jogos do gigante espanhol são mais vistos normalmente e seu poder midiático e político pode influenciar em algumas situações nos bastidores, inclusive na tão badalada premiação da “France Football”).

Ribèry não teve vantagem na Bola de Ouro mesmo tendo a mesma nacionalidade da revista que entrega o prêmio (em 2013, “France Football” e Fifa estavam juntas). Ele se disse “roubado”. Em 2004, Ronaldinho ganhou o prêmio de melhor do planeta mesmo sem conquistar títulos. Naquele ano, Henry deu show sendo campeão invicto da Inglaterra, marcando 39 gols na temporada (30 deles na Premier League).

Sabemos a bola que tinha Ronaldinho e não era nada maluco dar a ele o prêmio de melhor do mundo pelo encantamento que gerava com seu talento, mas, pelos objetivos alcançados, Henry merecia melhor sorte na votação (ele acabou em segundo lugar).

Lembro que pouco depois surgiram piadinhas mundo afora no sentido de que, para ser melhor do mundo, era preciso ter “inho” no final do nome, uma referência a jogadores brasileiros que seriam premiados de forma sistemática independentemente do que produzissem e vencessem. Hoje, com as mídias sociais bombando, brotam memes de todo tipo com a vitória injusta de Messi.

Eu mesmo repostei um vídeo divertido em que Messi vence o Oscar, o Grammy e até o Miss Universo. Até mesmo os “messistas” e a minoria que achou que Messi mereceu mesmo ser o The Best de 2023 estão rindo de alguns memes. Será que Messi merecia isso? O constrangimento é maior para ele, imagino. Um dos três maiores jogadores da história do futebol está sendo de certa forma ridicularizado por algo que deram para ele, por algo que não é da responsabilidade dele.

Quando alguém no futuro disser que Messi é o homem mais vezes eleito o melhor do mundo, deixando para trás as Bolas de Ouro reais de Cristiano Ronaldo e as virtuais de Pelé, alguém vai lembrar que forçaram a barra em algumas premiações. Se você contar os 339 gols do Messi em categorias de base no Newell´s Old Boys e no Barcelona, além de 67 tentos em amistosos e jogos beneficentes, ele estaria agora com 1.243 gols marcados, muito próximo da marca de Pelé, que tem pouco mais de 1.280 gols, contando alguns jogos pelo Exército e muitas partidas amistosas, bem mais comuns no passado.

Messi não se preocupa com essas contas e nem deve curtir muito a ideia de contar gols da base para turbinar seus números e superar o “Rei”. Quem faz isso são alguns pesquisadores e estatísticos do futebol, assim como quem fez a lista dos mil gols de Pelé não foi o lendário “Atleta do Século” brasileiro.

Messi não precisa dos gols nas categorias de base em suas estatísticas para estar no Olimpo da Bola, assim como não precisa de mais nenhuma Bola de Ouro e mais nenhum The Best para ser reverenciado como o melhor jogador de sua época. Cada um tem seu tempo, sua temporada, seu momento. Em 2023, era a vez de Haaland.

Talvez nunca mais o norueguês tenha a chance de vencer o prêmio de melhor do mundo, o que seria uma glória para o futebol de seu gelado país. Guardiola, que o treina, tinha sugerido que dessem um prêmio à parte para Messi, uma espécie de hors concours. Assim, seu atacante ganharia justamente como o melhor da temporada, e Messi, considerado o maior da história por Guardiola, também seria bem homenageado.

A Placar, tradicional revista brasileira especializada em futebol, deu uma Bola de Prata hors concours para Pelé, o que foi algo plenamente justificável (além de ser o maior do esporte, ele não jogou muitas edições do Campeonato Brasileiro de fato, a partir de 1971). E, na minha mascarada opinião, a Placar errou feio ao dar também a mesma Bola de Prata hors concours para Neymar quando ele saiu do futebol brasileiro.

Assim são os prêmios, no futebol e também em várias outras áreas. Muitas vezes discutíveis, seja por forças maiores nos bastidores, seja por interesses econômicos e políticos, seja por marketing, seja por coleguismo, seja por diplomacia, seja porque vamos mais com a cara de algumas pessoas do que com a de outras, seja apenas por escolhas erradas dos votantes, seja porque escolheram mal os votantes. Vida que segue, melhores que sigam.