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OPINIÃO: Neymar é só mais um exemplo de jogador que encerra a carreira para o alto nível

Quando Neymar completar sua transferência de 90 milhões de euros (R$ 491,19 milhões) do PSG para o Al Hilal, isso será classificado como uma das maiores e mais audaciosas negociações da janela. Mas, na realidade, não será nem o maior negócio da semana. Ao invés disso, é só mais um exemplo de jogador superstar sinalizando que sua carreira em alto nível está encerrada.

A maior transferência da semana foi a ida de Harry Kane do Tottenham para o Bayern de Munique, por 100 milhões de euros (R$ 545,76 milhões). E isso não tem nada a ver com valores, visto que esse montante já foi eclipsado pelos 133 milhões de euros (R$ 725,86 milhões) pagos pelo Chelsea pelo meio-campista Moisés Caicedo, do Brighton.

A negociação por Kane tem a ver com ambição, tanto por parte do jogador quanto do clube. O centroavante está desesperado para ganhar grandes troféus depois de não conseguir ganhar nada nos Spurs, enquanto o Bayern quer vencer novamente a Uefa Champions League.

O capitão da seleção inglesa também poderia ter ido para a Arábia Saudita, seguindo diversas estrelas de mais de 30 anos que seguiram esse caminho, como Jordan Henderson, Sadio Mané, Karim Benzema, e, claro, Cristiano Ronaldo. Lá, ganharia um salário fabuloso, ao mesmo tempo que ajudaria a Saudi Pro League a seguir seu crescimento acelerado. Mas ele escolheu um caminho diferente, talvez pela falta de troféus em sua carreira.

A maioria dos atletas que foram para a Arábia Saudita já estão satisfeitos em sua "fome" de troféus. Todos os mencionados acima ganharam a Liga dos Campeões (alguns múltiplas vezes), além de terem faturado incontáveis títulos de ligas nacionais.

Kane deixou claro que sua ida para o Bayern é motivada pelo desejo de ganhar taças, e ele não se arrepende de nada. Os outros já não têm mais nada para ganhar, e isso inclui Neymar, que possui um armário que já estava lotado de troféus até mesmo antes dele trocar o Barcelona pelo PSG, em 2017.

Neymar e Harry estão separados por apenas um ano (o brasileiro tem 31, o inglês tem 30), mas o Bayern nunca mostrou interesse em Ney, um atleta claramente supertalentoso, mas que sofre muito com contusões. O auge de Neymar veio cedo, enquanto Kane ainda está no auge - possivelmente, ele pode ficar ainda melhor.

Por outro lado, a ida do brasileiro tem salários que giram na casa de 120 milhões de euros (R$ 654,91 milhões), o que certamente desperta atenção da mídia e coloca ainda mais holofotes sobre a liga saudita, mas é uma transferência que nenhum clube da Europa quis. Todos sabiam que Neymar estava livre para ser negociado pelo PSG, mas nenhum grande time demonstrou desejo em um atleta com extenso número de lesões, além de um salário altíssimo.

E é justamente por isso que a Saudi Pro League ainda está muito longe de ser uma ameaça à Europa. Na verdade, neste momento o dinheiro vindo da Arábia Saudita está ajudando os gigantes europeus a resolverem seus problemas de fair play financeiro, ao mesmo tempo em que o valor do campeonato é pouco maior do que a liga escocesa.

A grande verdade é que a "loucura" da janela de transferências na Arábia no momento está funcionando para todo mundo: sauditas, jogadores, clubes tentando se livrar de altos salários e, claro, empresários em busca de acordos dos mais diversos tipos.

Na negociação por Ney, o Paris vai receber 90 milhões de euros, valor muito maior do que poderiam esperar de qualquer equipe europeia com medo de apostar em um superstar que vive constantemente machucado. Em outros lugares, Bayern (Sadio Mané), Chelsea (Kalidou Koulibaly e Édouard Mendy), Manchester City (Riyad Mahrez) e Liverpool (Fabinho e Jordan Henderson) conseguiram ótimas quantias por atletas de mais de 30 anos, algo que jamais poderiam esperar antes da emergência da liga saudita.

É claro que o Liverpool não queria perder Fabinho e Henderson, ambos titulares, na mesma janela, mas o fato é que o time conseguiu receber 60 milhões de euros (R$ 327,46 milhões) e desalojar dois altos salários de atletas que vinham sendo irregulares já há algum tempo. A verdade é que foram ótimos negócios.

A ESPN mostrou em abril que os dirigentes da liga saudita gostariam de contratar até 50 jogadores das maiores ligas europeias nesta janela, e vão chegar a algo próximo disso. Neymar deve ser a 30ª chegada vinda dos maiores campeonatos da Europa, enquanto outros vieram de torneios como Turquia, Bélgica, Rússia e Escócia.

A ida de Lionel Messi e Sergio Busquets para o Inter Miami, da MLS, mostrou que há outras ligas fora da Europa que podem competir com o dinheiro e a ambição dos sauditas. Mas não há dúvida que este verão confirmou que a Saudi Pro League se tornou um grande player no mercado da bola.

Só que, quando você leva em consideração os jogadores que não foram para a Arábia Saudita, aí é possível colocar as coisas em seu devido contexto. Kane foi para o Bayern; o Real Madrid conseguiu o futebolista jovem mais cobiçado do mundo: Jude Bellingham; e, apesar do Al Hilal ter se proposto a pagar 300 milhões de euros (R$ 1,637 bilhão) por um ano de contrato a Kylian Mbappé, o atacante de 24 deixou claro que ainda tem "negócios a terminar" na Europa antes de pensar em uma ida para o Oriente Médio.

Os melhores jogadores, que ambicionam ganhar troféus como a Champions League, ainda estão interessados em atuar apenas na Europa. A verdade é que a Arábia Saudita ainda está muito longe de aparecer no radar dos verdadeiros superstars.

O "momento da virada" para a liga saudita será quando um de seus clubes conseguirem contratar um atleta em seu auge, ganhando a concorrência contra um grande europeu na hora da assinatura. Mas isso não aconteceu, e não há sinais claros de que ocorrerá no futuro próximo.

Sim, Neymar ainda é um dos grandes nomes do futebol mundial... Mas sua estrela já brilhou mais intensamente, e, agora, corre o risco de apagar de vez.