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Cantor, infância sem carne e Kaká: biógrafo de Ancelotti conta histórias pouco conhecidas do técnico do Real cobiçado pela CBF

A temporada 2023/24 do Real Madrid começa oficialmente neste sábado (12), diante do Athletic Bilbao, pela primeira rodada de LALIGA, com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+, às 16h20 (de Brasília). Entre tantas dúvidas em relação ao time merengue, a principal é: será esse o último ciclo com Carlo Ancelotti?.

As recentes declarações do técnico não foram suficientes para abafar o noticiário de um possível acerto com a CBF para que ele comande a seleção brasileira a partir de junho de 2024. Ele não quer mais falar do assunto. Tampouco dá pistas. Mas há um detalhe que pode entregar os pensamentos do italiano.

Se ele surgir cantando pode acreditar que algo bom aconteceu. Ele já foi flagrado assim ao festejar vitórias e títulos com Milan, Chelsea, Bayern de Munique e Real Madrid. É uma marca na carreira de Carlo Ancelotti, uma marca ligada aos momentos especiais.

"Não sei se ele é um grande cantor ou não, mas ele canta sempre que acaba de ganhar algo muito, muito importante. É uma forma que ele encontrou para extravasar a felicidade", disse Alessandro Alciato, jornalista italiano e coautor da autobiografia de Carlo Ancelotti, em 2009.

Em entrevista para a ESPN, Alciato sorriu ao comentar a tradição de Ancelotti como cantor. O treinador já demonstrou repertório eclético, interpretando desde a famosa "Volare", como também o hino do Real Madrid e uma marcha do Milan, ou mesmo reproduzindo vocalmente o som de baixo de "Seven Nation Army"”, como muitos torcedores fizeram na Copa do Mundo de 2018.

Música brasileira também já entrou nessa lista. Foi o que contou Paulo Roberto Falcão, numa entrevista à ESPN em 2022, ao comentar como se comporta Ancelotti após as vitórias nos anos 80.

"No vestiário, me surpreendeu muito que, de repente, ele estava cantando 'Meu amigo Charlie Brown', do Benito de Paula... E eu cantava 'Champagne', do Peppino di Capri, para ele", disse.

Esse lado, digamos, festivo, é apenas uma das muitas facetas de Ancelotti, treinador de 64 anos do qual se desconhecem desafetos públicos e que carrega uma legião de fãs entre os jogadores de futebol.

"Eu já conhecia muito bem Carlo Ancelotti. Sabia o grande treinador que é. Também sabia que ele era uma ótima pessoa. Porém, ao escrever sua autobiografia, descobri a delicadeza que ele tem nas relações com os jogadores. Ele se preocupa em fazer todos se sentirem bem no vestiário, mas não só isso. Ele sempre diz que não está nem acima nem abaixo, mas sim no mesmo nível dos jogadores. Diz a eles que se tiverem algum problema, podem procurá-lo. Se houver algo errado, podem ir até ele. Se tiverem uma opinião diferente da sua, eles podem confrontá-lo. Ele é um treinador muito democrático, que sabe ouvir os seus jogadores, que sabe falar com eles", disse Alciato.

Dois exemplos do que diz o jornalista são recentes e estão no Real Madrid. Ele acolheu Rodrygo, joia da base santista, que levou um tempo para se adaptar ao futebol europeu. Com Vinícius Jr. teve a mesma paciência e foi além. Quando explodiram os ataques racistas na Espanha contra o flamenguista, Carlo Ancelotti virou um escudo e ao mesmo tempo exigiu de LALIGA e das autoridades punições.

“Ele foi muito forte na defesa do Vinícius. Coisas muito importantes foram ditas. Na Itália, valorizaram muito essa atitude e essa postura contra o racismo, que é realmente uma vergonha e há muitos treinadores que preferem ignorar. Em vez disso, Carlo Ancelotti disse: ‘Vamos todos parar. Isso não é bom. O que está acontecendo não é normal. Vinícius merece respeito’”, disse Alciato.

Ancelotti também tem muita estima pelos brasileiros. Em 27 anos como treinador profissional, ele treinou 42 jogadores nascidos no Brasil. Entre eles, craques como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo. Quem mais o marcou foi Kaká, logo na chegada do são-paulino à Itália.

"Ancelotti fala sobre Kaká na autobiografia. Ele relata que: 'No primeiro dia em que [Kaká] chegou ao Milanello parecia um aluno recém-saído da escola, de óculos, bem penteado. Estava praticamente perfeito. Quando o vi em campo entendi que era um presente do Senhor, porque raramente tinha visto alguém tão forte ou tão bom'. Carlo Ancelotti treinou todos os maiores jogadores do mundo. Então, se eu tiver que te dizer qual é a primeira coisa que me vem à cabeça na relação entre Ancelotti e o Brasil, é justamente aquele primeiro encontro entre ele e Kaká. Entre outras coisas, vejo muitos pontos em comum porque ambos são boas pessoas, ambos são extraordinários em seus trabalhos, ambos pensam primeiro nos outros e depois em si mesmos."

Para Alciato, todas essas características têm ligação com a origem de Ancelotti e a educação que recebeu dos pais. O treinador é natural de Reggiolo, uma pequena cidade da região da Emília-Romanha, cuja capital é Bologna. Também faz parte da região a cidade de Parma, onde o treinador tem residência.

"Ancelotti tem uma força que vem de suas origens, de sua infância, dos seus pais como referência. Ele vem de uma família de camponeses. Então, ele tem o exemplo do pai levantando-se às 4h para ir trabalhar no campo. A carne na casa dos Ancelotti só se comia apenas uma vez por mês porque era cara, e a família não tinha condições de comprar. O que eu noto cada vez mais, conhecendo bem Carlo Ancelotti, é que ele nunca mudou os ensinamentos que vieram de uma família de camponeses, com grandes valores", disse Alciato.

O jornalista percebeu isso quando cobria os treinos do Milan no início dos anos 2000 e principalmente quando foi convidado para ser o coautor na biografia do técnico.

"A ideia partiu dele, mas por um motivo muito importante. Naquele momento Stefano Borgonovo, ex-jogador de Fiorentina, Milan e da seleção italiana, sofria de ELA, Esclerose Lateral Amiotrófica. Carlo Ancelotti disse: ‘Escrevo minha biografia apenas se toda a compensação for para caridade para ajudar Stefano Borgonovo e outros pacientes com ELA. Esse caso também ajuda a entender quem é Carlo Ancelotti", disse Alciato.

É por isso que a informação ainda extraoficial de que Ancelotti será o técnico da seleção brasileira a partir de julho de 2024 causa na Europa e mais especificamente na Itália um misto de surpresa e orgulho. O trabalho do treinador é muito apreciado. Ao mesmo tempo, treinar a seleção mais vitoriosa em Copas do Mundo é algo impensável para estrangeiros, até agora.

"Se eu tiver que imaginar Carlo Ancelotti técnico do Brasil, penso em um time que recuperará a alegria de jogar. Talvez [a seleção] tenha perdido a alegria ao longo dos anos e Carlo Ancelotti é capaz de devolvê-la. Também imagino um vestiário com um grupo cada vez mais forte, cada vez mais coeso. Porque ele é um treinador que fala muito com os jogadores e vai conseguir que muitas personalidades diferentes se entendam, e o Brasil tem um vestiário com muitas personalidades fortes. Em suma, imagino um time alegre, entrosado, agrupado e vencedor. Não falo isso por ser amigo de Carlo Ancelotti. Falo como um jornalista que há muitos anos acompanha sua carreira e seus times. Em todas as suas equipas vi alegria, mistura, harmonia, vi diversão e vi felicidade".

Mas brasileiros e italianos terão de esperar. Por enquanto, a CBF nomeou Fernando Diniz para comandar a seleção brasileira até o fim de junho de 2024. Depois faz mistério.

Tudo que se escuta sobre Carlo Ancelotti é dito apenas nos bastidores. Ele teria aceitado o convite da CBF, está ciente de que Diniz iniciará o trabalho, mas por uma questão contratual com o Real Madrid, onde já iniciou a terceira temporada consecutiva, não pode se pronunciar.

Onde assistir a Athletic Bilbao x Real Madrid?

Athletic Bilbao x Real Madrid, neste sábado (12), às 16h30 (de Brasília), por LALIGA, tem transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.