Faz quatro meses que Edinho pediu demissão do Londrina. Desde então, ele aguarda uma nova oportunidade para prosseguir a carreira como técnico. Ao mesmo tempo, tomou a frente dos assuntos relacionados ao pai. Está cuidando do inventário de Pelé e também do legado deixado pelo Rei do Futebol após sua morte, em 29 de dezembro, aos 82 anos.
“Surgiram muitas demandas, hoje eu, minhas irmãs e meu irmão somos os veículos, mas principalmente eu porque já sou uma figura pública, como ex-jogador [foi goleiro, inclusive do Santos]. É um desafio conciliar essa demanda, que é fruto de muito amor e carinho, mas também a saudade, a tristeza. É um momento delicado, íntimo, mas a gente já entendeu há algum tempo que ele nunca foi nosso. A gente dividia ele com o mundo. Até após a morte”, disse Edinho à ESPN.
A agenda Pelé vai de entrevistas, passando por questões legais (como o inventário), até eventos e homenagens póstumas. No último 15 de maio, Edinho foi ao Mausoléu de Pelé acompanhar a abertura ao público e acabou divulgando uma nova ideia: um tour Pelé em Santos.
“É uma forma de gerar uma experiência Pelé, através de pontos importantes da vida dele em Santos, como a Vila Belmiro, onde está o Memorial das Conquistas, o Museu Pelé. A minha vontade é que isso possa ser feito de uma forma… o assessor me cobrou para não falar profissional, mas acho que tem de ser profissional para gerar recursos e, com isso, fomentar o Museu e, se for uma coisa que venha a se tornar muito grande, projetos sociais”, explica Edinho.
A preocupação com o legado também gera um sentimento de busca. Edinho revelou à reportagem que deseja recuperar a marca Pelé para a família. Ela foi negociada pelo pai com a brasileira Prime Licenciamentos, em 2005. Depois, em 2012, passou para a americana Legends 10.
“A marca Pelé tem um dono, que está nos Estados Unidos. Então, hoje ela está separada do homem. Eu não domino isso. É um desafio e é um dos meus grandes objetivos conseguir reaver a marca para mim, para minha família e para o nosso país. Eu sinto muita falta da presença do Pelé no Brasil. O Pelé não está presente no Brasil, nas escolas, nas creches, nos clubes. Por coincidência fiz esse comentário no Mausoléu, no dia em que inauguramos para a entrada do público, e teve um reflexo. Já fui procurado, algumas entidades financeiras se propondo a estudar projetos”, disse Edinho.
Todos esses afazeres privaram o ex-goleiro do luto. Mas uma das palavras que ele mais repetiu durante toda a entrevista foi paz. É assim que se sente após ter se aproximado melhor do pai nos últimos anos.
Juntos, eles dividiram momentos dos mais diversos. Teve o sofrimento pelos problemas de Edinho na Justiça (ficou dois anos preso, de 2017 até 2019, por lavagem de dinheiro em decorrência do tráfico de entorpecentes). Teve vibração pelas conquistas, como funcionário do Santos e depois técnico.
Edinho foi o primeiro filho homem de Pelé e o segundo dos três que o Rei do Futebol teve com Rosemary Cholbi, sua primeira esposa. Dessa relação também nasceram Kely (a primogênita) e Jennifer. Do casamento com Assíria Seixas nasceram os gêmeos Joshua e Celeste, em 1996. Sandra Regina e Flávia Kurtz, também filhas do famoso camisa 10, nasceram de relações extraconjugais.
“Desde sempre me perguntam como é ser filho de Pelé. Tiveram muitas coisas incríveis e muitos desafios, dificuldades, dilemas. Uma questão fundamental na minha vida é que eu não cresci filho do Pelé. Até meus 20 anos eu não era associado com ele e a gente não tinha convivência. Isso fez com que eu enxergasse o mundo e a vida com muita clareza, muita naturalidade, para só depois mergulhar nessa realidade de ser filho do Pelé e alcançar essa associação tão forte que eu tenho hoje”.
“O futebol foi a essência dessa conexão. A partir do meu retorno dos Estados Unidos para o Brasil, com 19 para 20 anos, desenvolvemos uma relação de pai, filho, irmão, às vezes com os papeis invertidos, eu o pai e ele o filho. Eu criticando, cobrando. Uma relação incrível, de muito amor, de muito carinho e de admiração mútua. A gente conversou muito e encontramos paz em tudo. Ele sabe que sofri injustiças e que até hoje estou na Justiça provando minha inocência. Ele sentia também essa distância e se cobrava muito pela ausência como pai durante a minha juventude”.
O técnico Edinho
Pelé gostava de perguntar ao filho sobre as táticas de futebol, os treinamentos modernos, o trabalho com jovens e o progresso da carreira como treinador. Também assistiam aos jogos juntos.
Hoje, Edinho acumula oito anos de experiência, com passagem por quatro equipes diferentes, como Mogi Mirim, Água Santa, Atlético Tricordiano e Londrina, além de dois trabalhos de base, no próprio Santos e no Londrina. Ele está convicto de que tem uma missão a cumprir como treinador.
“Pelé teve o impacto dele no futebol, e eu acho que eu posso também ter um impacto tão importante quanto. Nosso futebol está muito carente dessa evolução e precisa mudar muita coisa. Eu pretendo ou, pelo menos, vou me dedicar muito para fazer isso”, disse Edinho.
A última experiência no Londrina teve altos e baixos. Começou no comando do sub-20 em outubro de 2021. O ápice foi a campanha no Estadual de 2022, quando o time chegou até terceira fase. Conseguiu ter 70% de aproveitamento e incríveis 61 gols marcados e apenas 12 sofridos.
Depois, Edinho recebeu o convite para assumir a equipe principal. Durante a pré-temporada lidou com a piora de saúde e depois a morte de Pelé. No Campeonato Paranaense deste ano teve dificuldades. Pediu demissão em 5 de fevereiro com uma campanha bem irregular: uma vitória em sete jogos.
“Infelizmente não deu certo continuar. É complicado nosso mercado, nossa indústria. É muito difícil essa realidade que a gente vive. Muita coisa precisa mudar, muitas coisas precisam ser vistas de forma diferente e abordadas de forma diferente. É o meu desejo [tentar mudar isso] e é um prazer, um legado, um destino, uma herança. Eu sou a terceira geração de futebolistas da família. Meu avô [Dondinho], meu pai, meus tios [Zoca e Davi] foram jogadores. Então, é a minha essência”, disse.
“O futebol brasileiro passa por um momento, que não é de hoje, muito turbulento na minha categoria. Uma coisa que tem me deixado bastante esperançoso é o sucesso dos clubes que se tornaram SAF. Como consequência disso existe um profissionalismo, um planejamento, uma visão de médio e longo prazo. Têm gestões profissionais. Têm treinadores no mínimo há um ano. Cada vez mais reforçam o conceito de que profissionalismo e continuidade são as fórmulas para você ter um clube vitorioso e saudável”, acrescentou.
Até que apareça uma nova oportunidade, Edinho voltou a morar em Santos. Ele tem duas filhas. Divide o tempo com elas, estudando jogos de futebol e cuidando da agenda Pelé.
Sobre o atual momento do futebol nacional, o ex-jogador, filho do maior nome de todos os tempos e também atleta do século, tem um último desabafo a fazer.
“Eu argumento que o futebol no Brasil parece que é outro jogo comparado com o futebol de primeiro mundo. Considero que o futebol brasileiro vive um estado de epidemia, enfermo. Está com uma doença absurda, um negócio triste, que se aflora no comportamento em campo. Toda hora discussão, toda hora briga com o adversário, com o juiz. Treinadores a cada três jogos suspensos. Um negócio absurdo. Surreal. Eu fico perplexo vendo os jogos. Eu vejo um jogo que não dá pra assistir mais. O produto futebol está tão pobre. A questão ética não existe mais. Uma pobreza espiritual, uma pobreza intelectual. Isso tudo me motiva. Isso tudo eu encaro como um desafio e uma missão que eu tenho para revolucionar o esporte, o jogo. Mas é tudo difícil. Estou desabafando aqui porque o desafio é grande”, completou Edinho.
Goleiro por acaso
Edinho carrega um passado como jogador. Foi goleiro do Santos e um dos seus melhores anos foi 1995. Foi quando jogou toda a temporada como titular e foi vice-campeão brasileiro.
Para muitos, ele foi corajoso ao decidir jogar futebol sendo filho de Pelé. Mais corajoso ainda por escolher a posição de goleiro. Muitos camisas 1 sofreram com o Rei do Futebol…
Mas essa escolha foi fruto do acaso. Como Edinho foi criado durante a infância e juventude nos Estados Unidos, ele tinha muita familiaridade com esportes como basquete e futebol americano, ambos usam as mãos. O pouco contato que teve com o futebol lá não o animou a jogar.
“Até que aos 16 anos eu tive um período de quase dois meses de férias no Brasil. Foi quando fui conhecer a Vila Belmiro pela primeira vez. Foi meu pai quem sugeriu: ‘Vai lá pro Santos treinar’. Nessa época eu ficava na casa da minha tia Lúcia e do meu tio Davi. Foi meu tio quem me levou à Vila para me apresentar para a categoria juvenil. Até então eu nunca tinha visto futebol de perto. Então, ficamos assistindo o treino do profissional até que a categoria sub-17 aparecesse. Fiquei ali no alambrado, atrás do gol, e fiquei impressionado e apaixonado com toda aquela intensidade".
"Quando fui conhecer o treinador da minha categoria, ele perguntou: ‘Que posição você joga?’. Eu nem jogava bola. Não sabia nem o que falar. Mas falei ‘goleiro’ porque tinha me identificado com o trabalho que vi eles fazendo na Vila. Meu tio me olhou: ‘Goleiro???’. Fui goleiro por default. Não tinha coragem de outra coisa, mas tinha a mecânica com os movimentos, não tinha medo de chute na cara. Ali nasceu o goleiro. Fiz a experiência de 30, 40 dias. Foi incrível. Voltando para os EUA eu falei: ‘Quero jogar futebol’. Achei um clube. Joguei lá mais uns dois anos e quando encerrei o colegial, que tinha escolher um caminho, universidade nos EUA ou futebol no Brasil, eu optei pelo meu sonho de ser jogador e voltei ao Brasil”.
Edinho fez pelo Santos 195 partidas, entre 1991 e 1998. Defendeu também as camisas de Portuguesa Santista, São Caetano e Ponte Preta, equipe onde se aposentou, em 1999.
No final da carreira, um dos grandes prêmios que recebeu foi ouvir do próprio pai que "era cedo para deixar o futebol". Na verdade, nenhum deles, nunca, deixou o futebol.
