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Filha de Pelé, Flávia Kurtz revela última conversa, diz que Rei temia a morte e anuncia novidade importante

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'Em nome do pai': as memórias e revelações inéditas de Flávia Kurtz, filha de Pelé (15:00)

'A gente se conhecia pelo olhar', contou Flávia Kurtz à ESPN; fisioterapeuta é fruto de uma relação extraconjugal do Rei (15:00)

Faz 33 anos que Flávia Christina Kurtz viu Pelé pela primeira vez. Faz 134 dias nesta sexta-feira (12) que ela ouviu suas últimas palavras. Lembranças que despertam alegria, orgulho, saudade e luto, e que se intensificam cada vez mais desde 29 de dezembro, quando o Rei do Futebol faleceu aos 82 anos.

Flávia nasceu em São Paulo, em 6 de janeiro, dia de Reis, de 1970, ano do tricampeonato mundial do Brasil e de Pelé. Fruto de uma relação dele com a gaúcha Lenita Kurtz, ela foi criada em Porto Alegre pela mãe e pelo padrasto Juarez Carvalho. Somente aos 17 anos de idade é que conheceu a verdadeira história sobre seu pai biológico. Três anos depois, após sua tia Elizabeth enviar uma carta para Pelé revelando o segredo, finalmente pai e filha se encontraram.

“O primeiro encontro foi na [Alameda] Jaú [em São Paulo]. Na época ele trabalhava com o Samir [Abdul Hak], que era sócio e empresário dele. Eu entrei [no apartamento], e ele estava na copinha. Meu pai sempre foi de fazer que não tem nem aí, mas ele está aí. Aí fui para a Copinha e dei um abraço nele. Ele tremia, eu tremia, e começamos a conversar. Ele tinha uma gravação na USP, me levou junto e chegou falando: ‘É minha filha, é minha filha’. Meu pai era muito assim. Soltava a bomba e sumia. No dia seguinte ele falou: ‘Vamos conhecer seus avôs’, e fui conhecer a vó Celeste e o vô Dondinho. Foi isso. Muito Simples”, disse Flávia à ESPN.

O dia do primeiro encontro ficou eternizado: 9 de abril de 1990. Também foi registrado numa foto, que ganhou o autógrafo de Pelé: “Para Flávia, com todo o amor”. Mais do que isso, o que ficou no coração de ambos foi a primeira troca de olhares. Pelé teria reconhecido Flávia como filha pelo sorriso e pelo olhar.

“Foi mesmo. E desde o dia que eu o conheci a gente nunca deixou de se falar. Acredito muito em alma. Foi um encontro de almas. Essa energia entre nós foi muito aberta. Foi muito amor. Por isso foi muito fácil. A gente se conhecia pelo olhar. Sempre estávamos rindo, brincando. Como eu tive um padrasto, eu não cresci sentindo a falta de um pai. Eu pude construir essa relação [amorosa com Pelé]. Quando eu o conheci eu estava em Porto Alegre. Eu construí essa relação melhor quando vim morar em São Paulo, em 2000. Nesses 23 anos passei a conviver diariamente com ele”, disse.

A doce lembrança do primeiro encontro faz com a última recordação seja ao mesmo tempo carinhosa e triste. Pelé estava há um mês internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, em decorrência de um tratamento exaustivo de um câncer de cólon descoberto em setembro de 2021.

Essa última internação ocorreu após uma ida ao hospital para exames, mas Pelé também não estava bem. Houve uma piora no quadro de saúde. Era 29 de novembro de 2022. Em 29 de dezembro, após o Rei do Futebol travar uma luta com todas as energias, ele não resistiu a uma infecção generalizada.

“Vou contar uma coisa. Meu pai morreu comigo, né? Dos filhos, eu era a única filha que estava com ele [naquele momento], e ele foi embora segurando minha mão”, disse Flávia, chorando.

“Sempre [conversamos] muito na brincadeira, né. Nos últimos dias... quando a gente teve a notícia que não teria mais jeito, em 23 de dezembro, porque ele teve uma infecção generalizada que atingiu o rim…. Ele só tinha um rim, e foi esse o grande problema. Era um corpo com câncer, debilitado e que não teve forças para lutar contra aquele invasor. Dia 23 os médicos falaram que não tinha mais jeito. Perguntamos: ‘Não tem uma hemodiálise que ele poderia fazer?’ ‘Não, não tem’. Eles tinham dado 36 horas que ele poderia falecer. Então, em tese, seria no Natal. A gente era muito palhaços. Então, eu falava, ‘Pô pai, você vai embora e vai atrapalhar o aniversário de Jesus? Vai chegar em grande estilo’”, disse Flávia, emocionada ao revelar os detalhes daquele dia pela primeira vez.

“Mas a última coisa... [chora] Eu falei para ele que eu e Kely [primeira filha de Pelé com Rosemary Cholbi] queremos fazer um trabalho social, um instituto. A Kely montou em Nova York, e eu estou trazendo para São Paulo. Vai ser o Instituto Família Arantes do Nascimento. A gente quer desenvolver projetos sociais relacionados ao esporte. Eu falei: ‘Pai, a gente quer fazer isso e quero que você fique muito feliz. A gente nunca vai te decepcionar’. Ele falou: ‘Não, eu que não quero nunca decepcionar vocês’”.

“Ele foi uma pessoa muito especial, uma pessoa muito incrível. Eu falo que as conversas assim eram uma conversa de alma nesses últimos tempos. Ele nunca gostou de falar de morte. A gente falava: ‘Pai, vai embora, vai descansar. Tá tudo bem. A gente está bem’. Ele falava: ‘Eu tenho medo’. Eu dizia: ‘Não precisa ter medo. Você vai para um lugar maravilhoso. Tá todo mundo bem’. Mas ele tinha preocupação com todos nós, com os filhos, com a irmã dele [Maria Lúcia], com a mãe. E eu dizia: ‘Pai, é todo mundo adulto, tá tudo bem, descansa. Vai descansar’. Vê-lo do jeito que ele estava não era mais ele. Vocês sabem o quanto o Pelé era dinâmico. Esses dois anos na cadeira de rodas já não era mais ele. Ele estava bem. A Márcia [Aoki, terceira esposa de Pelé] foi sensacional. Cuidou dele absurdamente, mas não era mais ele. Uma pessoa que sempre que acordava ligava música, queria casa cheia. A pessoa tá vindo de um câncer, um tratamento que vai e vem, aquela quimioterapia que melhora, piora, passa mal. Isso para ele foi bem difícil. Ele enfrentou muito bem. Às vezes, era muito turrão, como todo mundo sabe. Às vezes, tinha que voltar para fazer quimio: ‘Não, não vou’. Tem que ir. ‘Mas não sinto nada. Por que vou fazer isso? Não sinto nada’. ‘Mas tem que fazer, pai, mesmo se não está sentindo nada’”, relembrou.

Diferença caso Sandra Regina

O caso Sandra Regina é ainda muito delicado para a família de Pelé porque as principais fontes --o Rei do Futebol e Sandra Regina-- não estão vivas para esclarecer os fatos.

Para Flávia, tudo é ainda mais delicado. Afinal, a história dela com Pelé é oposta à de Sandra Regina com o pai. A história dela também foi menos noticiada (eles foram bem discretos em relação ao assunto com a imprensa desde o início), enquanto a de Sandra Regina foi explorada por jornais, revistas, programas de rádios e televisão, muitas vezes de forma distorcida e sensacionalista.

De qualquer forma, ficou na concepção de muitas pessoas que Pelé rejeitou Sandra Regina, que, após uma tentativa de encontro em 1991, só foi reconhecida como filha após um teste de DNA.

“Na verdade, nunca foi um assunto falado porque tinha um respeito. O pai é uma autoridade e foi uma coisa que aconteceu entre ele e ela. A gente nunca vai saber o que estava na cabeça dele e na cabeça dela. Mas vou te responder. Eu adoro muito o lado da psicanálise. Pra mim, o que aconteceu ali tem a ver muito com o que eu contei. Eu fui uma criança que tive um pai, uma referência de pai. É minha teoria. Meu padrasto me adotou eu tinha três anos. Eu vim a saber que eu era filha do Pelé com 17 anos, mas eu cresci com uma referência de pai cuidando de mim, me amando, [cresci] dentro de uma bolha. A criança da Flávia estava alimentada de um pai. Então, a frequência da Flávia é uma frequência de tudo bem”, disse.

“A Sandra, pelo que eu soube, não teve um pai. Ela foi uma criança com uma ausência de um pai. Pelo que eu soube, ela sabia que o pai dela era o Pelé. Então, pensa numa criança que não tem um pai e cresce sabendo que seu pai não te quer. Qual é o tipo de frequência, energia que essa menina vai chegar para esse pai? Acho que a grande situação é essa. Eu cheguei com essa lacuna preenchida. Ela não teve esse preenchimento. Então, quando houve o encontro dos dois, o jeito como ela o abordou, e aí eu não sei porque não sei como ela abordou, não deve ter sido uma abordagem amorosa. Eu falo por mim. A minha abordagem foi completamente amorosa. A minha história foi por um caminho. A história dela acabou sendo por outro. O que a gente sabe, o que eu sei do lado dele, é que uma das queixas principais [dele] é que no primeiro encontro ela foi com a reportagem. E eu sei que esse tipo de coisa para o meu pai, pra ele, ele era a estrela. Não tinha, né... Você vê que a gente pouco apareceu. O foco era sempre ele. Ele era a pessoa. A minha teoria é isso. Ela cresceu com uma visão de um pai, mas vem uma ausência. Eu não tive falta. Fui conhecer uma pessoa que faz parte da minha vida, faz parte do meu DNA, faz parte da minha história. É uma abordagem completamente diferente”, prosseguiu Flávia.

“Eu apareci antes da Sandra. Tanto que quando ela surgiu ele [Pelé] me ligou: ‘Filha, tem uma outra moça que disse que é minha filha’. Tem outro ponto. Sabe quando eu fui fazer o DNA? Em 2012. Só foi feito porque ele vendeu a marca [para uma empresa americana] e no fechamento eles pediram para regularizar tudo. Quando saiu o resultado do DNA, eu falei: ‘Ficou feliz, pai?’. Ele disse: ‘Eu nunca duvidei’. De novo, eu acredito muito nas histórias, na alma, na frequência, eu vim para ele por uma relação de amor. Minha relação é completamente diferente da relação dos meus outros irmãos: Edinho, Kely, Jennifer, Joshua e Celeste. Eu também vejo um pai que eles não veem”, concluiu Flávia.

Vamos correr?

O encontro com Flávia Christina Kurtz aconteceu num sábado cedo na USP, um dos lugares em São Paulo onde costuma treinar corrida. No dia, ela estava com Apolo, sua mascote de seis meses.

Sorridente e simpática como Pelé, ela disse que, aos 53 anos, a rotina de treino três vezes por semana faz parte de uma preparação maior para um desafio de 100 km na Argentina, em dezembro.

“Com tudo que a gente passou, eu falei: ‘Preciso de alguma coisa que me coloque no eixo, me coloque no prumo’. Aí escolhi um desafio em dezembro para ter a obrigação de treinar, a obrigação de fazer exercício, o ano inteiro. Isso faz bem. Faz bem pra mente. Eu brinco que oxigena a cabeça, você fica melhor e você fica um ser humano melhor. É minha brincadeira, é minha terapia”.

A prática de correr não é uma novidade para Flávia. Ela já faz isso desde 1994, quando ainda morava em Porto Alegre, cidade que se mudou com a mãe aos três anos e onde ficou até 1998.

“A corrida entrou na minha vida depois que eu sofri um acidente de carro. Eu sempre fiz esporte desde criança, e minha paixão era o balé. Dos 7 aos 21 anos, eu dancei muito balé. Em 94, eu tinha 24 quando sofri o acidente e fraturei o pulso. Foram 90 dias de gesso. Como não podia dançar, comecei a correr. Dali pra frente eu tomei gosto pelo atletismo”, disse.

Flávia se arriscou até no Triatlon, enfrentando as provas de nado que, segundo ela, não era sua especialidade, de 1994 até 1997. Depois investiu nas corridas de rua. Disputou uma maratona em Porto Alegre, fez corridas de aventuras e raras vezes deixou de praticar esporte. Assim como era Pelé, ele é fissurada em treinar, cuidar do físico, da saúde e estar bem para as provas.

“Ele sempre admirou o fato de eu ter essa disciplina da corrida, e eu digo, brincando, que fui abençoada com o DNA dele. Raramente me machuco. Sou disciplinada. Aprendi muito com ele isso. Ele sempre falou: ‘Tenta fazer seu melhor, dentro daquilo que é correto’. Outra coisa que eu admirava. Mesmo fora dos campos, ele manteve o corpo de atleta. Não comia doce. Só agora nos últimos tempos. Não bebia. Ele me ensinou muito isso. No Guarujá [onde Pelé residia desde os anos 1990] eu acordava cedo e corria. Aí ele falava: ‘Já vou correr com você também’. Sempre brincando. Mas contava das histórias dele. Eu gosto de um trabalho que a gente coloca as pernas para cima para melhorar a circulação. Tenho uma foto dele fazendo muitos anos antes”.

Formada em fisioterapia em 1996 pela Federação de Faculdades Metodistas do Sul- IPA/Porto Alegre, Flávia foi mais do que uma filha para Pelé nos últimos anos. Ela também o acompanhava nos tratamentos médicos, em algumas consultas e o ajudava na recuperação.

Desde que perdeu Pelé, ela e os irmãos vêm se dividindo para receber inúmeras homenagens póstumas ao pai. Flávia entregou a taça de campeão paulista ao Palmeiras, por exemplo. No próximo dia 21 de maio estará em Santos para a tradicional corrida de rua de 10 km, organizada pelo jornal “A Tribuna”. Os participantes vão usar o número 10 nas costas, e Flávia vai correr.

“Essa corrida vai ser muito difícil porque ele vai estar muito presente. Todo mundo pensando nele, trazendo ele. Acho que vai ser mais uma festa e eu acho isso incrível. Tudo que ele faz movimenta em um super evento, então vai ser mais um. Pra mim não vai ser uma corrida como pra todo mundo. Vou ter que administrar meu emocional pra caramba”, finalizou Flávia à reportagem.