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Limpo do crack, Régis Pitbull ganha oportunidade de emprego e retoma a dignidade

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Um emprego para Régis Pitbull: 9 meses após se libertar do crack, ex-jogador ganha uma chance para recomeçar (7:55)

Régis Pitbull deixou a clínica para dependentes químicos em Jaboticabal e agora está trabalhando em uma fábrica, cujo dono é um amigo de infância (7:55)

Depois de nove meses internado, Régis Pitbull ganha emprego e se apresenta firme na eterna luta contra a dependência química.


Marcos Iaponan Nunes tem 45 anos, a mesma idade do ex-amigo de escola, Régis Fernandes da Silva.

Iaponan, como é conhecido na Freguesia do Ó, na zona norte de São Paulo, assim como o amigo, não foi longe nos estudos. Parou na sexta série.

Régis foi tentar a carreira no futebol no interior do estado e na Bahia, já Iaponan foi trabalhar como ajudante geral numa gráfica.

Régis virou Pitbull como jogador e venceu. Iaponan continuou lutando nos chãos de fábrica até se tornar um empresário bem-sucedido.

A diferença entre os dois, ambos meninos pobres de periferia, é que Régis acabou seduzido pelas más influências, péssimas “amizades” e se deixou levar, quase que de forma fatal, para as drogas. Iaponan, não.

Ele prosseguiu batalhando e tornou-se dono de uma fábrica de copos de papel e dono de três restaurantes na capital paulista.

Os destinos dos dois amigos voltaram a se cruzar no início deste ano, quando Régis deixou pela terceira vez uma clínica para dependentes químicos, em Jaboticabal, para retomar a vida.

“Quando ele teve alta da clínica, pedi para o Mingo, outro amigo, pegar o carro e ir buscar o Régis no interior. Aí comecei a convidá-lo para trabalhar com a gente. Falei: ‘Você tá empregado? Quero que você venha trabalhar de verdade e toca a sua vida normal’. Graças a Deus ele vem cumprindo com o papel dele. Tá registrado. Já estou feliz de ver que ele compra as coisas pra ele, e isso me animou bastante”, disse Iaponan.

Reescrevendo a história

Para quem não acompanhou toda a saga de reportagem dos canais ESPN durantes esses últimos dois anos com Régis Pitbull, aqui vai um resumo.

O programa especial “Salvem o craque, salvem do crack”, exibido em 2021, mobilizou muita gente na tentativa de resgatar o ex-jogador de Ponte Preta, Corinthians, Vasco, entre outros clubes, da dependência química.

Conhecemos um cidadão generoso, mas doente. Tudo por causa do uso constante do crack por mais de dez anos.

Foi muito difícil convencê-lo a dar uma entrevista, mas, com a mobilização de amigos e familiares, conseguimos nos aproximar e, consequentemente, fazer do jornalismo um meio de ajuda para um cara que havia perdido tudo, família, dinheiro. Régis estava no fundo do poço.

Com o apoio de médicos, psicólogos, inclusive da psicóloga Graziela Maria, a mesma que ajudou no tratamento do ex-jogador e comentarista Walter Casagrande Júnior, Régis foi internado em Jaboticabal, no interior de São Paulo, de forma involuntária, ou seja, sem o consentimento dele.

Muita gente fez parte dessa corrente humanitária, entre os mais importantes cito os donos da clínica que cederam tratamento gratuito por seis meses. Amigos, jornalistas e familiares ajudaram a bancar o restante e inclusive algumas regalias para ajudar Régis, como cigarro, doces e roupas.

O encontro que fizemos agora para mostrar Régis empregado na fábrica do amigo Iaponan foi o quarto que nossa equipe teve com o ex-jogador.

O que vimos, para satisfação de todos, é que realmente ele vem cumprindo com a promessa de nunca mais fumar uma pedra de crack na vida.

Mas, a princípio, como nas outras vezes, Régis não queria dar entrevista.

Talvez por vergonha ou por orgulho. Depois ele acabou falando e relatando como se sente com essa “volta por cima” e o quanto ela pode servir de inspiração para quem está lutando contra a dependência química.

“Estou na luta e me sentindo muito bem. Estou produzindo, me sentindo útil novamente. Aliás, fazia anos que eu não pegava um salário na mão. É gostoso, né? Estou comprando coisas para minha mãe, estou conseguindo, graças a Deus, cuidar dela”, afirmou Régis, com água nos olhos.

Faz cinco meses que o ex-jogador trabalha como ajudante geral na fábrica de copos. Ali, no meio de 50 funcionários ele é mais um, sem regalias ou cuidados especiais por parte do proprietário e amigo de infância.

Régis pedala com sua bicicleta cerca de 4 km por dia para chegar à fábrica. Deu uma bola fora chegando atrasado no dia seguinte que o Corinthians goleou o Santos por 4 a 0 pela Copa do Brasil. Foram 15 minutos, ele foi penalizado. Voltou pra casa e teve um dia de trabalho descontado pelo patrão, como manda a figurino de toda empresa.

No geral, Régis tem se mostrado firme nessa recuperação, que terá que levar por toda vida. É uma batalha a ser travada diariamente.

A única coisa que deixa Régis contrariado é o episódio de sua terceira internação, de forma involuntária. Ele insiste em afirmar que ele abandonaria o crack sem o auxílio de uma internação, uma saída que se tornou crucial para amigos e familiares do Pitbull.

Para tirar qualquer dúvida sobre o assunto, consultamos a psicóloga Graziela Maria, especialista no tratamento de dependentes químicos.

A internação involuntária

Graziela Maria é psicóloga e proprietária de uma clínica para tratamento de dependentes químicos na capital paulista.

Profissional com larga experiência, ela foi a psicóloga que ajudou na recuperação do ex-jogador e comentarista esportivo Casagrande.

Ela também participou do especial “Salvem o craque, Salvem do crack”, pois ficou sensibilizada com o cidadão Régis. Inclusive, se prontificou a ajudar a família e os amigos a resolver a situação do ex-jogador.

Com o apoio da família e um laudo médico, foi ela quem arrumou a clínica em Jaboticabal para tratar Régis. Acompanhou também todo o tratamento, à distância, e se comprometeu a continuar o tratamento, de forma gratuita, quando Régis voltasse a São Paulo.

Graziela Maria tem autoridade pra falar sobre a internação involuntária.

“No caso do Régis ele já havia tido tentativas de internação que não deram resultados. Era difícil ele se manter sóbrio. Ele se mantinha um pouco e logo recaía. Já havia tentado outros tipos de tratamento e por isso se pensou na internação involuntária como uma última possibilidade, uma medida extrema. Nas intervenções que eu e o médico psiquiatra fizemos com a família, ficou claro que o Régis já tinha perdido a autonomia, e esse é um fato que devemos destacar quando se resolve pela internação involuntária. Hoje o Régis não consegue enxergar isso, embora ele saiba que a internação fez ele ficar bem melhor, uma pessoa melhor. Vamos lembrar que a droga de escolha dele foi o crack. O crack afeta totalmente a capacidade do indivíduo de tomar decisões. A gente não está falando de uso esporádico, e sim de algo mais grave. Ele perdeu totalmente a liberdade de escolha. A falta de discernimento, a falta de autonomia, o risco para si e para terceiros. Então, o grande critério para se fazer uma internação involuntária é se o paciente está se colocando em risco e se ele está colocando a vida de terceiros em risco”, explicou.

“Falta de cuidados básicos, falta de higiene, tudo isso estava acontecendo com o Régis. Vamos lembrar onde o Régis morava, então, naquele momento ele não podia tomar decisão porque ele estava adoecido. Ele é dependente químico e estava adoecido pelo uso extremo de crack. Naquele momento ele precisava de um ato de amor. Ele precisava de que alguém fosse lá e fizesse essa intervenção por ele. Foi o que houve. A família fez essa intervenção extremamente necessária pra que ele chegasse onde ele chegou hoje. Hoje, se o Régis está trabalhando, se ele está bem e se mantém longe do crack é porque lá atrás teve a intervenção involuntária. Infelizmente naquele momento não tinha como ser voluntário”.

Nossa reportagem é prova de que Régis não aceitou uma chance de internação voluntária, oferecida pelo Pastor Rica, um cidadão que desenvolve um projeto social com os dependentes químicos da região da cracolândia em São Paulo, localizada no centro da cidade. A psicóloga também defende a não banalização da internação involuntária, como tem ocorrido em alguns casos na capital paulista.

“Não é a banalização da internação involuntária como muitos têm feito ou clínicas que aplicam golpes e tudo mais. Por isso que é importante conhecer o médico, conhecer a equipe, entender a história do paciente, a vida pregressa para entender porque o paciente chegasse numa internação involuntária, as tentativas feitas antes da internação involuntária, pensar no tratamento pós-internação. Por isso que eu sempre bato na tecla de um projeto de vida, de um emprego, como aconteceu com o Régis, para que ele fosse acolhido novamente, porque se não houvesse esse projeto de nada teria adiantado o tratamento. Então, posso afirmar que foi essencial o Iaponan ter dado esse emprego a ele. A atitude da família, que entendeu que a internação involuntária era o caminho, também foi fundamental para Régis. Muitas vezes a família acaba deixando de lado o dependente químico, por dar muito trabalho e por conta de não conseguir impor os limites. Então no caso do Régis foi essencial a internação. Ele ficou 90 dias, de forma involuntária, e terminou o tratamento no final dos nove meses. Então fica aqui a pergunta: Será que há um ano e meio atrás, quando o Régis estava no ápice do uso do crack ele tinha condições de tomar uma decisão para se internar e se tratar?” finaliza Graziela Maria.

Caminho longo

Registrado há cinco meses na fábrica de Iaponan, Régis sabe que esse é apenas o início de uma nova e longa caminhada.

Quando não está trabalhando é cercado de telefonemas de amigos que imploram para que ele não ceda a maldição do crack, vício que lhe tirou a dignidade, a autonomia e quase lhe tirou a vida.

Dois dias antes da Semana Santa, Régis comprou um quilo e meio de bacalhau. Disse que era para comemorar a nova fase junto a Dona Ana, sua mãe de 77 anos. Além desse novo projeto de vida, Régis sonha um dia voltar a trabalhar com sua maior paixão: o futebol.

Ele imagina trabalhar com crianças, desenvolvendo talentos, ou como auxiliar técnico. Assim, sentimos que o Pitbull de Pirituba é hoje outro cara.

Educado, como sempre. Inteligente, como sempre. Quem sabe, logo mais preparado para dar palestras Brasil afora?

Se ele conseguir se manter assim, certamente poderá transformar vidas de milhares de pessoas e familiares que sofrem dessa doença devastadora.

O que se sabe mesmo é o que conferimos de perto: o trabalho realmente enobrece o homem. No caso de Régis, vai além. Resgata e dignifica um ser humano que só precisava de uma oportunidade de retomar.